Iniciativa criada por fãs do BTS envolve estudantes, artistas e voluntários em uma experiência que articula arte, arquitetura, design e aprendizagem
Débora Thomé*
Uma iniciativa criada por fãs do BTS vai ocupar um espaço da Universidade de São Paulo (USP) e assumir uma dimensão acadêmica. A exposição “A Arte de Ser Humano — RM: The Human Behind the Artist” será realizada de 29 de outubro a 5 de novembro, no saguão principal da Faculdade de Arquitetura, Urbanismo e Design da USP (FAU-USP), como atividade de extensão envolvendo estudantes, artistas e voluntários.
O projeto nasceu numa comunidade de fãs nas redes sociais, a RM Brasil, mas ganhou outra configuração quando Alice Fraga, 20 anos, estudante de Arquitetura da FAU-USP e uma das organizadoras, levou a proposta para dentro da universidade. Ao lado de Camila Dias, 22 anos, ela passou a coordenar uma produção que reúne mais de 15 pessoas na organização, cerca de 40 voluntários e mais de 134 artistas. Mais de 300 trabalhos foram encaminhados para a curadoria da mostra.
A mudança de escala trouxe problemas concretos de produção. O saguão, o famoso Salão Caramelo do Edifício Vilanova Artigas, na FAU, não tem as paredes necessárias para a mostra planejada, o que levou a equipe a construir estruturas de madeira para formar os ambientes. Estudantes também participam de oficinas e atividades relacionadas a produção, design, colagem e execução das peças. A experiência coloca conhecimentos de diferentes áreas em contato com uma situação real de produção cultural.

Para Alice, a interdisciplinaridade foi justamente um dos motivos para aproximar o projeto da FAU-USP. “Quando apresentamos o projeto focado na interdisciplinaridade, unindo música, artes visuais, literatura e filosofia, a recepção foi muito positiva”, disse. A estudante também destacou o desafio de conduzir uma iniciativa independente, organizada por voluntários, dentro de uma estrutura universitária.
A exposição acontece durante a passagem do BTS por São Paulo para os shows da turnê ARIRANG, marcados para 28, 30 e 31 de outubro. A agenda do grupo, porém, é apenas o contexto para uma proposta que procura olhar para Kim Namjoon, nome de nascimento de RM, a partir de sua relação com arte, literatura, natureza e processos de amadurecimento.
Quando a cultura de fãs entra na universidade
A ideia surgiu do desejo de criar uma experiência presencial a partir de uma relação que normalmente acontece pelas telas. Camila explicou que a equipe queria partir da produção artística de Namjoon sem transformar a mostra em uma biografia. “Queríamos construir um espaço físico onde as pessoas pudessem se desconectar do caos do mundo e se reconectar com a própria essência, usando a jornada dele como um espelho”, afirmou.

Músicas, discursos e referências compartilhadas pelo artista ajudaram a criar um ponto de partida para refletir sobre questões que também atravessam quem acompanha sua obra. Essa escolha está expressa no próprio título da exposição. “A Arte de Ser Humano” desloca a atenção da persona RM para Kim Namjoon e para temas como identidade, dúvida, mudança e amadurecimento. “Não é uma biografia dele; é uma carta de amor e um convite para refletirmos sobre nós mesmos”, resumiu Camila.
A relação com o artista, contudo, não produz uma exposição centrada apenas em sua imagem. Os participantes foram convidados a partir de músicas, livros, imagens, falas e outras referências associadas a Namjoon para criar trabalhos em suas próprias linguagens. O resultado reúne interpretações produzidas por pessoas diferentes, em vez de reproduzir uma única leitura sobre o artista.
A carreira solo também orienta parte do percurso. Indigo e Right Place, Wrong Person aparecem entre as referências para a construção dos ambientes, ao lado de elementos relacionados à natureza, às artes visuais e aos escritos de Namjoon. “Nós estruturamos a exposição como uma experiência sensorial e emocional dividida em diferentes eixos temáticos”, explicou Camila.
Elementos visuais e projeções ajudam a construir o percurso, pensado para que o visitante reconheça referências ligadas ao artista e, ao mesmo tempo, encontre espaço para produzir suas próprias associações. A curadoria assume, portanto, a subjetividade como parte do projeto. “Não queremos ser neutras. Queremos mostrar a maneira como nos conectamos a ele”, afirmou Alice.
Extensão transforma admiração em experiência prática
A dimensão de extensão aparece no trabalho que acontece por trás das obras. Planejamento, construção, montagem, comunicação, organização de equipes e recepção do público passaram a integrar uma produção que precisa funcionar fora do ambiente digital. Estudantes participam de diferentes etapas e enfrentam decisões que não ficam restritas ao exercício teórico.
A experiência também envolve recursos financeiros e trabalho voluntário. A primeira meta de aproximadamente R$ 15 mil foi alcançada em poucos dias. A mobilização continuou com contribuições e participação voluntária em funções diversas. Parte das obras produzidas para a exposição será comercializada.
O processo reúne profissionais e estudantes de áreas diferentes. Entre os participantes estão designers e pessoas ligadas à museologia, além de artistas que responderam à proposta curatorial. A variedade de técnicas e abordagens é parte da própria concepção da mostra, que procura colocar diferentes formas de criação em diálogo.




Nesse sentido, a experiência produz uma situação particular de aprendizagem. Os estudantes não estão apenas observando como uma exposição é feita. Eles participam de uma produção que precisa resolver limitações de espaço, definir materiais, organizar pessoas, cumprir prazos e receber um público. O conhecimento aparece associado a decisões e problemas concretos.
A experiência também amplia a discussão sobre o papel das comunidades de fãs na cultura contemporânea. Neste caso, a fanbase não atua apenas como público consumidor. Seus integrantes organizam recursos, selecionam trabalhos, produzem obras, constroem estruturas e articulam uma iniciativa que chega a um espaço universitário.
Esse deslocamento é o aspecto que mais aproxima a exposição do debate educacional. A universidade passa a funcionar como lugar de encontro entre uma cultura produzida fora dela e conhecimentos que podem ser mobilizados para dar forma a essa produção. Ao mesmo tempo, a comunidade de fãs encontra no espaço acadêmico uma oportunidade de desenvolver uma experiência que combina criação, colaboração e participação.
Nota da autora: Esta matéria foi propositalmente editada para que a publicação coincidisse com o meu próprio aniversário, assim como fizemos no de Kim Namjoon. O líder do BTS RM completou 32 anos no dia 12 de setembro, e a editora deste portal soma mais uma primavera neste sábado, 10 de outubro. Coom certeza estarei… namjooning!

Editora-chefe e cofounder do portal Educador21










