Disciplina usa referências de Kim Namjoon para discutir bem-estar, arte, literatura, autoconhecimento e análise de dados
Débora Thomé
A saúde mental e o bem-estar dos estudantes ganharam espaço nas discussões sobre os desafios da educação contemporânea. Na Universidade Stanford, nos Estados Unidos, o tema chega à sala de aula por uma porta pouco convencional: uma disciplina que parte do estilo de vida de Kim Namjoon, conhecido como RM, líder do grupo musical sul-coreano BTS, para investigar questões relacionadas ao bem-estar e à vida universitária.
Intitulada Namjooning, and other well-being inspiration from BTS, a disciplina será oferecida no outono de 2026 a estudantes de primeiro ano. A proposta reúne temas como sono, ansiedade, bloqueio criativo, autoconhecimento, exercício, alimentação, psicoterapia e outros aspectos relacionados ao bem-estar. Mais do que apresentar recomendações, porém, o curso propõe que os estudantes investiguem o que a ciência e os dados permitem afirmar sobre essas questões.
O conceito de Namjooning, popularizado entre fãs para descrever práticas associadas a Namjoon, ajuda a construir essa ponte. Natureza, bicicleta, arte, literatura e journaling aparecem na descrição da disciplina como referências para a experiência. Na universidade, entretanto, essas práticas não são apresentadas como uma fórmula de saúde ou como orientação atribuída ao artista. Elas servem como ponto de partida para perguntas que serão examinadas por meio de pesquisas, dados e diferentes linguagens.
A circulação do termo já ultrapassa o universo dos fãs. O Collins English Dictionary mantém namjooning em sua plataforma como uma sugestão de nova palavra, submetida em dezembro de 2023, com a definição de “viver como Kim Namjoon”, incluindo caminhar em parques, apreciar a natureza e alimentar a mente e a alma fazendo aquilo que se ama. A própria página do dicionário informa que o termo está sendo monitorado para reunir evidências de uso.

A expressão também chegou ao Art Institute of Chicago, que, em uma mensagem publicada nas redes sociais após a passagem do BTS pela cidade, definiu Namjooning como apreciar arte, visitar museus, ler, estar em contato com a natureza e outras formas de autocuidado. A instituição agradeceu ainda a RM pela menção ao museu, que ele visitou em 2018 e que, segundo o artista, despertou seu interesse pelo mundo da arte.
A iniciativa de Stanford chama atenção para um debate que também interessa às instituições de ensino brasileiras: como transformar a preocupação com saúde mental e bem-estar em uma dimensão efetiva da experiência educacional, e não apenas em ações pontuais de orientação ou acolhimento? Ao levar o tema para dentro de uma disciplina acadêmica, Stanford combina cultura contemporânea, ciência e formação de estudantes.
O curso será ministrado por James R. Jacobs, diretor-executivo da Vaden Health Services e associate vice provost for health and well-being de Stanford, além de professor associado do Departamento de Psiquiatria e Ciências Comportamentais. A atuação do docente está diretamente ligada à saúde e ao bem-estar dos estudantes da universidade.
Cultura pop como porta de entrada para a ciência
A escolha de Namjoon não significa que Stanford esteja tratando o artista como especialista em saúde mental ou transformando seus hábitos pessoais em recomendações científicas. O interesse está em utilizar uma referência cultural capaz de despertar identificação e curiosidade para investigar questões que fazem parte da vida dos próprios estudantes.
A descrição oficial da disciplina mostra essa preocupação com o rigor. Em relação ao sono, por exemplo, o curso não pretende apenas repetir que é necessário “dormir o suficiente”. Os estudantes deverão discutir quantitativamente o que significa dormir o suficiente, se diferentes formas de sono produzem os mesmos efeitos, o que a pesquisa científica mostra e quais questões permanecem controversas.
A abordagem aproxima bem-estar e letramento científico. Em vez de receber respostas prontas sobre comportamentos considerados saudáveis, os estudantes são convidados a formular perguntas, analisar evidências e compreender os limites do conhecimento disponível. A experiência também combina diferentes formas de aprendizagem.
A turma deverá ler obras de ficção, analisar artigos científicos, observar trabalhos de arte e assistir a vídeos. As atividades incluem apresentações breves, produções escritas, exercícios de raciocínio quantitativo e um projeto final inspirado no álbum Indigo, lançado por RM em 2022. A disciplina tem três créditos e será realizada entre 22 de setembro e 4 de dezembro de 2026.
A proposta foi submetida à avaliação para a certificação Way AQR, relacionada aos requisitos de raciocínio quantitativo da universidade. A oferta aparece no catálogo de cursos de Stanford como um First-Year Introductory Seminar, com preferência para estudantes do primeiro ano.







Bem-estar como parte da experiência educacional
O caso de Stanford ganha relevância para gestores e líderes educacionais porque desloca o debate sobre saúde mental para dentro da própria experiência de aprendizagem. A universidade já mantém uma estrutura específica dedicada à saúde e ao bem-estar dos estudantes.
A Vaden Health Services reúne serviços clínicos e iniciativas de bem-estar, enquanto a área de Student Affairs mantém recursos específicos de saúde mental e bem-estar para a comunidade estudantil. Nesse contexto, a disciplina não aparece isoladamente como uma iniciativa de entretenimento ou como uma ação de fãs dentro do campus. Ela integra o conjunto de experiências acadêmicas de primeiro ano de Stanford e coloca o bem-estar em diálogo com ciência, arte, literatura e raciocínio quantitativo.
Para instituições de ensino que enfrentam o desafio de cuidar da saúde mental de estudantes e profissionais, a experiência oferece uma reflexão que vai além da escolha de Namjoon como referência. A questão central é como criar ambientes nos quais os jovens possam compreender criticamente temas que afetam sua própria vida, ao mesmo tempo em que desenvolvem repertório acadêmico.
A cultura pop pode funcionar como uma dessas portas de entrada. Música, artistas, redes sociais e comunidades digitais já fazem parte do cotidiano de muitos estudantes. Incorporar esses repertórios à educação, porém, não significa abandonar o rigor acadêmico. O caso de Stanford aponta justamente para o movimento contrário: partir de uma referência familiar para chegar a pesquisa, evidências, interpretação e pensamento crítico.
É nesse sentido que o Namjooning ganha relevância educacional. O termo associado a momentos de contato com a natureza, arte, literatura e desaceleração deixa de ser apenas uma expressão do universo de fãs e passa a servir como ponto de partida para discutir questões concretas sobre bem-estar. A experiência também amplia a discussão sobre o papel da universidade na formação dos estudantes.
Cuidar da saúde mental não precisa significar apenas oferecer atendimento quando surge uma dificuldade. Pode envolver, também, criar espaços para que os jovens compreendam sono, ansiedade, criatividade, autocuidado e outros aspectos da vida com base em conhecimento, evidências e reflexão.
Para gestores e líderes educacionais, talvez esteja aí o aspecto mais interessante da experiência de Stanford: não é necessário escolher entre rigor acadêmico e repertório cultural dos estudantes. Uma referência como RM pode ser o ponto de partida; o trabalho pedagógico está justamente em transformar a curiosidade inicial em investigação e conhecimento.


Nota da autora: Esta matéria foi propositalmente editada para que a publicação coincidisse com o aniversário de Kim Namjoon. O líder do BTS RM completa 32 anos neste sábado, 12 de setembro. Um ótimo dia para… Namjooning!

Editora-chefe e cofounder do portal Educador21










