Na Coluna do LIV de setembro, a Equipe Pedagógica reflete sobre solidão, vínculos e os desafios da convivência entre crianças e adolescentes em um mundo cada vez mais conectado
Nunca tivemos tantas maneiras de chegar até alguém.
Uma mensagem atravessa quilômetros em segundos. As crianças e os adolescentes podem conversar enquanto jogam, manter grupos ativos durante o dia inteiro, acompanhar a vida de dezenas de pessoas pelas redes sociais e permanecer praticamente o tempo todo acessíveis por alguma tela.
Ainda assim, uma pergunta desconfortável começa a aparecer: se estamos tão conectados, por que nos sentimos tão sozinhos?
Em 2025, a Organização Mundial da Saúde (OMS) colocou a conexão social no centro do debate global sobre saúde. Segundo o relatório da Comissão da OMS sobre Conexão Social, uma em cada seis pessoas no mundo é afetada pela solidão. Entre adolescentes e jovens de 13 a 29 anos, a proporção varia de 17% a 21%, com os índices mais altos entre adolescentes.
O dado ajuda a dimensionar um fenômeno que não diz respeito apenas a estar fisicamente sozinho. A OMS define a solidão como o sentimento doloroso produzido pela distância entre as relações que temos e aquelas de que gostaríamos ou precisaríamos. Podemos, portanto, estar cercados de pessoas, receber notificações durante o dia inteiro e, ainda assim, experimentar uma profunda sensação de desconexão.
É justamente aí que talvez seja necessário mudar a pergunta. Em vez de apenas pensar em quantas possibilidades de contato temos, precisamos observar que tipo de relação estamos conseguindo construir.
Neste Setembro Amarelo, retomamos o Movimento LIV pela Saúde Mental, que, dessa vez, propõe um diálogo sobre a solidão, suas causas e possíveis maneiras de enfrentamento. A ideia é reconectar e, nesse artigo, vamos entender melhor como essas questões têm afetado as escolas.
Mais conexões nem sempre significam mais proximidade entre os alunos
Para as crianças e os adolescentes, essa discussão ganha uma dimensão especial.
É durante essas etapas da vida que uma parte importante da identidade se constrói no encontro com o outro: fazer amigos, pertencer a um grupo, enfrentar rejeições, perceber diferenças, aprender a discordar, reparar conflitos, colocar limites e reconhecer os limites de alguém.
Só que nada disso acontece individualmente. A gente aprende a se relacionar vivendo com o outro.
O problema é que as ferramentas de conexão mudaram muito mais rapidamente do que a nossa capacidade de compreender o que acontece dentro delas. Hoje, uma parte significativa das relações entre as crianças e os adolescentes atravessa ambientes digitais, nos quais os limites entre escola, casa, amizade e vida pública se tornam cada vez menos claros.
Um conflito que começava no recreio, por exemplo, podia encontrar alguma interrupção quando cada estudante voltava para casa. Agora, ele pode continuar no grupo de mensagens, virar um meme, ganhar uma enquete, circular em um perfil anônimo e alcançar pessoas que sequer estavam presentes quando tudo começou.
O que acontece na escola já não termina necessariamente no portão.
Essa continuidade entre os ambientes presencial e digital também ajuda a compreender por que bullying e cyberbullying precisam ser tratados como questões relacionais e coletivas, e não somente como um conflito entre quem agride e quem é agredido.
A Unesco estima que cerca de um em cada três estudantes sofre bullying na escola mensalmente e alerta que a expansão dos dispositivos digitais ampliou também o alcance do cyberbullying.
No ambiente online, ainda existem características capazes de aumentar o impacto da violência: uma humilhação pode alcançar muitas pessoas, continuar disponível depois do ocorrido e atravessar espaços nos quais antes a criança ou o adolescente encontraria algum distanciamento da situação.
Quando fazer parte do grupo se torna difícil demais
Para crianças e adolescentes, sentir que fazem parte de um grupo tem um peso importante. A agressão, por si só, já é grave. Seus efeitos, porém, podem ir além: quem vive uma situação de bullying pode passar a sentir que não existe lugar para ele naquele grupo**.**
A Unesco aponta que estudantes vítimas frequentes de bullying têm maior probabilidade de se perceber como outsiders dentro da própria escola. Isso significa que a violência também está associada a menor sentimento de pertencimento, pior engajamento escolar e maiores índices de solidão.
O Unicef observa uma dinâmica semelhante no cyberbullying: a vergonha, a ansiedade e a insegurança podem levar ao afastamento de amigos e familiares, ampliando sentimentos de isolamento.
E tudo isso acaba formando um ciclo bastante complexo.
A criança precisa do grupo para construir pertencimento, mas pode encontrar nesse mesmo grupo experiências de exclusão. Então, ela procura conexão nos ambientes digitais, mas pode encontrar também julgamento, exposição e violência.
Assim, quanto mais insegura uma pessoa se sente em suas relações, mais difícil pode ser procurar ajuda, confiar nos outros e estabelecer novos vínculos. Por isso, enfrentar bullying e cyberbullying não pode significar somente agir depois que uma agressão acontece.
É preciso olhar também para a cultura de convivência que existe antes dela.
O aluno não aprende a conviver sozinho?
Durante muito tempo, as habilidades relacionais foram tratadas quase como se surgissem espontaneamente.
Nós esperamos que uma criança “saiba conversar”, que um adolescente “resolva seus conflitos”, que os estudantes respeitem as diferenças, desenvolvam empatia, saibam reconhecer quando uma brincadeira deixou de ser brincadeira e procurem ajuda quando alguma coisa estiver errada.
Mas, como em qualquer aprendizagem, essas capacidades precisam de experiência, referência, mediação e espaço para serem desenvolvidas.
E a escola ocupa um lugar de destaque nesse processo justamente porque é um dos primeiros grandes espaços de convivência coletiva da vida.
É onde pessoas que não escolheram umas às outras precisam compartilhar rotinas, regras, diferenças e conflitos. Onde as amizades começam e terminam. Onde crianças descobrem que nem todas as pessoas pensam como elas. E onde elas podem aprender que discordar não significa humilhar, que estabelecer limites não significa excluir e que reparar uma relação também faz parte da convivência.
Assim, a gente chega em uma ideia muito importante: não basta exigir individualmente que uma criança saiba se comunicar, lidar com conflitos ou pedir ajuda. O ambiente ao redor precisa oferecer condições para que essas aprendizagens aconteçam.
Isso significa criar espaços em que falar seja possível antes que o sofrimento se torne insuportável; em que adultos saibam escutar sem imediatamente minimizar, julgar ou procurar culpados; e em que assuntos como exclusão, racismo, padrões estéticos, violência e bullying possam entrar na conversa, mesmo quando são desconfortáveis.
Reaprendendo a estar junto
Talvez dizer que estamos “desaprendendo a nos relacionar” seja provocativo justamente porque nos obriga a olhar para uma contradição do nosso tempo.
Temos mais ferramentas para estabelecer contato, mas contato não produz automaticamente intimidade. A visibilidade não significa pertencimento. Estar em um grupo não garante se sentir parte dele.
E nenhuma tecnologia consegue eliminar uma necessidade profundamente humana: a de encontrar no outro algum espaço de reconhecimento, troca e presença.
Por isso, quando falamos em saúde mental de crianças e adolescentes, bullying ou cyberbullying, talvez exista uma pergunta anterior a todas essas discussões: que experiências de relação estamos oferecendo a eles?
A prevenção da violência também passa por construir comunidades em que as diferenças possam coexistir, os conflitos possam ser mediados e alguém saiba que haverá a quem recorrer quando uma experiência se tornar difícil demais.
A escola não é responsável sozinha por resolver a solidão, o sofrimento emocional ou todos os conflitos de seus estudantes. Ou seja, nenhum educador, familiar ou amigo pode assumir individualmente a responsabilidade pela saúde mental de outra pessoa.
Afinal, assim como as questões de saúde mental não são determinadas por um único fator, o cuidado também é coletivo e compartilhado.
Mas a escola pode fazer algo que já é bem relevante: oferecer experiências nas quais crianças e adolescentes aprendam que estar com o outro exige escutar, discordar, se frustrar, estabelecer limites e tentar de novo.
Isso ajuda a entender uma coisa básica, mas que perdemos de vista: conexão e vínculo não são a mesma coisa. Aprender a viver junto continua sendo uma das aprendizagens mais importantes que existem.
Quer continuar essa conversa com o LIV?
A geração mais conectada é a mais solitária. Então, como reaprender a criar vínculos?
Essa é uma das provocações que estarão no centro do próximo Encontro com Especialista LIV. Teremos um participante especial que vai aprofundar questões que atravessam famílias e escolas: como construímos vínculos verdadeiros com crianças e adolescentes? O que significa estar presente e emocionalmente disponível? Como ensinar a lidar com o “não”, com a rejeição e com as diferenças? E será que, ao tentar evitar todos os desconfortos das relações, podemos acabar diminuindo justamente as oportunidades de aprender a conviver? Essas são algumas das perguntas propostas para o encontro.
E a escola tem um lugar importante nessa reflexão. Em um mundo em que o acesso à informação está cada vez mais fácil, talvez uma das aprendizagens mais valiosas que ela possa proporcionar seja justamente aquela que nenhuma tela oferece sozinha: aprender a ouvir, dialogar, enfrentar frustrações, reconhecer emoções e construir vínculos com pessoas diferentes de nós**.**
O encontro é um convite para olhar para a solidão e para as dificuldades de relacionamento sem respostas simplistas. Queremos refletir sobre o papel que adultos, famílias e escolas podem ocupar na construção de experiências reais de convivência.

O LIV é um programa brasileiro de referência em educação socioemocional, que promove espaços de escuta e diálogo para ampliar a compreensão de si, do outro e do mundo. Presente em mais de 1.000 escolas e alcançando mais de 1 milhão de alunos, atua também na disseminação de conhecimento e no fortalecimento do debate sobre educação socioemocional no Brasil.










