Em artigo, a managing director da International Schools Partnership no Brasil, defende que a alfabetização nos anos iniciais sustenta a aprendizagem, o pensamento crítico e a autonomia diante das transformações do mundo
Santuza Bicalho*
Costumo dizer que a alfabetização funciona como uma pista de decolagem. Quanto mais sólida ela for, maiores serão as possibilidades de voo ao longo da trajetória escolar. O desempenho acadêmico nos anos seguintes, o ingresso na universidade e até mesmo a capacidade de acompanhar as transformações do mundo do trabalho têm suas bases construídas muito antes, ainda na infância. É nesse período que se estabelecem os fundamentos sobre os quais todo o restante da aprendizagem será desenvolvido.
Por isso, discutir a qualidade da educação passa necessariamente por olhar para os primeiros anos da vida escolar. A infância é uma etapa marcada por intenso desenvolvimento da linguagem, da capacidade de aprendizagem e das habilidades cognitivas e socioemocionais. É também um período em que experiências, interações e estímulos desempenham papel importante na construção de conhecimentos que serão mobilizados ao longo de toda a trajetória acadêmica.
A escola desempenha um papel decisivo nesse processo. Ambientes ricos em estímulos, interações significativas e experiências diversificadas favorecem o desenvolvimento da linguagem e da aprendizagem. Também podem contribuir para a aquisição de outros idiomas, especialmente quando as crianças têm contato frequente e contextualizado com uma segunda ou terceira língua desde os primeiros anos.
Mas alfabetizar vai muito além de ensinar uma criança a reconhecer letras, formar palavras ou ler pequenos textos. Alfabetização e letramento precisam caminhar juntos. Trata-se de desenvolver a capacidade de compreender, interpretar, produzir e comunicar ideias, estabelecendo relações entre diferentes conhecimentos e utilizando a linguagem para participar ativamente da sociedade.
Essa base se torna ainda mais importante diante das transformações que vivemos. Estamos debatendo diariamente a inteligência artificial, as competências globais, as novas metodologias e as habilidades necessárias para um mundo em constante mudança. Todas essas discussões são fundamentais, mas nenhuma delas se sustenta sem uma base consistente de leitura, escrita e compreensão.
Em um cenário de excesso de informação e avanço acelerado das tecnologias digitais, saber ler não significa apenas decodificar palavras. Significa compreender contextos, identificar diferentes perspectivas, questionar informações, distinguir fatos de opiniões e construir argumentos. São competências essenciais para que crianças e jovens possam utilizar a tecnologia de maneira consciente, crítica e responsável — inclusive diante de ferramentas de inteligência artificial.
Isso nos leva a uma conclusão que, embora pareça simples, nem sempre recebe a atenção necessária: investir na Educação Infantil e nos anos iniciais da Educação Básica é uma estratégia de longo prazo para toda a sociedade. Quanto mais consistente for essa base, maiores serão as condições para que os estudantes avancem em aprendizagens cada vez mais complexas e desenvolvam autonomia para continuar aprendendo.
As inovações continuarão transformando a maneira como ensinamos e aprendemos. Novas ferramentas surgirão, profissões serão transformadas e competências precisarão ser continuamente atualizadas. Mas, em meio a tantas mudanças, algumas bases permanecem essenciais.
A capacidade de ler, compreender, escrever, argumentar e aprender não perde relevância diante da tecnologia. Ao contrário: torna-se ainda mais importante. É nos primeiros anos da escola que começamos a construir essas ferramentas — e, com elas, as condições para que cada criança possa seguir aprendendo, adaptar-se às mudanças e participar de forma plena da sociedade ao longo da vida.
***Managing Director da **International Schools Partnership no Brasil, liderando a gestão estratégica e operacional da subsidiária brasileira do grupo










