O QUE ACONTECE QUANDO EDUCADORES CRIAM SUAS EDTECHS?
Eu sempre tive um carinho especial por edtechs criadas por educadores.
Mesmo tendo passado meu tempo em sala de aula, explicar os desafios específicos que um(a) professor(a) passa ao lidar com uma sala com dezenas de alunos com realidades distintas, histórias pessoais diferentes e necessidades particulares é difícil.
Por isso, as edtechs que conheci que tinham um educador fundador, em sua maioria, vão muito além do tecnosolucionismo e simplificação.
A Letrus foi fundada por um professor, Luis Junqueira que encontrou em Tiago Rached um parceiro de jornada.
Hoje em dia, uma de suas principais líderes, Sofia Fernandes, mantém a cultura viva.
“Fui professora antes de ser executiva e é essa ordem que define tudo o que faço hoje”.
Essa frase exprime bem o centro do que acredita.
No papo de hoje, falamos sobre sua trajetória, os desafios de ser uma edtech no setor público, as mudanças de paradigma com a IA generativa e como preservar a capacidade autoral dos alunos.
Exploramos ainda edtechs que atuam no mesmo espaço, de letramento, e outras que são fundadas por professores.
1. Conte sobre a história da Letrus e sua história até chegar ao seu cargo atual
“Os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo”. Foi com a frase do filósofo Ludwig Wittgenstein que Rached me apresentou a Letrus. Na época eu tinha acabado de ingressar a primeira turma do Ensina Brasil (2017), e no meio da minha formação para ingressar o corpo docente da rede estadual de Campo Grande, a Letrus apareceu como uma ideia extremamente disruptiva: como usar tecnologia para ajudar estudantes com a tarefa mais humana possível: escrever melhor. Eu me recordo de naquela apresentação ter ficado entusiasmada com a forma como a Letrus concebia a linguagem – de fato como uma forma de autoexpressão é um ato de cidadania e dignidade – e de como a sua fundação por um professor de língua portuguesa junto com um empreendedor de impacto a tornavam apaixonante. Ali, eu e a Letrus começamos a dar um passo concreto (eu como professora, a Letrus com os primeiros pilotos) a nossa jornada pelo impacto da educação pública.
A escrita sempre foi uma habilidade muito difícil de trabalhar em escala, porque exige prática, feedback e acompanhamento individual. E foi aí que a Letrus começou a usar inteligência artificial, muito antes de a IA virar essa discussão tão presente que é hoje, para apoiar esse processo. Ao longo dos anos, a empresa foi evoluindo bastante. A gente saiu de uma solução muito centrada na correção da redação para pensar cada vez mais em uma jornada de aprendizagem: diagnóstico, prática, leitura, trilhas, repertório, desenvolvimento do aluno e também informação para o professor tomar decisões pedagógicas. E, principalmente, fomos entendendo que tecnologia educacional não é só produto. Quando você trabalha com uma rede pública, a pergunta não é apenas se a plataforma funciona, mas se ela consegue funcionar naquela escola, naquele contexto, com aqueles professores e estudantes.
A minha trajetória também acabou acompanhando um pouco essa evolução. Eu vim da educação pública e da gestão educacional. Fui professora de escola pública em Campo Grande (MS), por meio do programa Ensina Brasil onde atuei como professora de geografia no E.E. Teotônio Vilela, no Núcleo Habitacional Universitárias de Campo Grande. Trabalhei no MEC, participei da construção de outros projetos de educação, incluindo a fundação de um cursinho popular, e depois entrei na Letrus. A Letrus representou, pra mim, uma forma de chacoalhar o sistema educacional. A ideia de levar tecnologia para as escolas simbolizava o meu desejo de subverter a educação pública. Confesso que amadureci bastante ao longo dos últimos anos e a ideia de ruptura vem se transformando em influência, colaboração, aliança.
Dentro da empresa, passei por diferentes momentos e responsabilidades, principalmente ligados ao crescimento, à área comercial e de assessoria pedagógica, ao relacionamento com governos e à estratégia. Entrei como analista visitando escolas particulares e vendendo o programa Letrus, depois migrei para assessoria pedagógica (nosso customer success) para depois unir ambas as equipes em uma grande área de crescimento, da qual me orgulho muito das entregas e do comprometimento do nosso time. Hoje meu trabalho está muito concentrado em pensar como a Letrus consegue gerar impacto em escala dentro da educação pública. Isso envolve desde construir parcerias com estados e municípios até entender produto, implementação, evidências de impacto e os desafios concretos que aparecem quando uma tecnologia chega a centenas de escolas. E acho que é justamente essa intersecção entre educação, tecnologia e política pública que mais me interessa.
2. Quais os principais desafios do crescimento de edtechs no setor público?
Eu resumiria os desafios de crescimento de uma edtech no setor público em duas grandes frentes. A primeira é conseguir equilibrar o tempo e as necessidades de crescimento de uma empresa com o tempo muito mais longo do setor público e da própria aprendizagem. A segunda é conseguir transformar escala comercial em escala de impacto, porque atender muitos alunos não significa, necessariamente, conseguir implementar bem para todos eles.
Eu acho que a causa raiz do primeiro desafio é justamente o paradoxo de precisar gerar resultados rápidos (seja de receita, crescimento de alunos ou impacto) em um mercado em que o ciclo de vendas é longo, burocrático (B2G) e que tem a aprendizagem como principal resultado, ou seja, é um investimento que exige consistência e metas de médio e longo prazo.
Esse paradoxo sempre nos trouxe desafios concretos de definição de estratégia, tomada de decisão, foco e nos exigiu bastante resiliência para manter o nosso propósito, mesmo quando não encontrávamos referência no mercado sobre ter sucesso equilibrando essas duas forças quase opostas. Alguns exemplos concretos que me vêm à mente são: como ajustar o tamanho do time e o nível de investimento de uma empresa que precisa continuar crescendo, quando uma negociação com uma rede pública pode levar muitos meses e ainda estar sujeita a mudanças de prioridade ou de gestão? Quanto investir em um piloto que pode gerar uma parceria relevante no futuro, mas que naquele momento ainda não gera uma receita proporcional ao esforço? Como manter um mesmo produto para redes públicas e privadas, se a nossa missão é justamente reduzir desigualdades, quando as necessidades e os desafios de implementação desses dois contextos são tão diferentes?
A segunda frente é o desafio de conseguir gerar impacto em escala. E aqui eu trago uma visão fruto dos aprendizados que tive na Letrus. Quando uma edtech decide levar um produto de tecnologia para o setor público, ela não pode subestimar o papel da implementação na geração de resultados. Todo empreendedor sabe que ter um bom produto não é suficiente, mas no setor público os desafios de implementação podem se sobrepor ao bom produto porque o desenho de experiência que foi proposto não se adequa à rotina da escola. Como a Letrus, por exemplo, consegue taxas de engajamento tão significativas levando para os estudantes justamente uma das atividades mais temidas: a escrita e a leitura? A resposta vai passar pelo produto, mas também pela necessidade de ter essas atividades previstas no currículo escolar, o alinhamento com gêneros e temas propostos pela rede e acompanhamento próximo da assessoria pedagógica.
Dessa forma, quando você trabalha com centenas de escolas, o desafio passa a ser também construir mecanismos que permitam entender o que está acontecendo mesmo à distância. Não basta ter evidência de que o produto funciona. É preciso saber quais dados coletar, como coletá-los e como fazer boas leituras para distinguir, por exemplo, um problema de produto de um problema de conectividade, engajamento ou implementação. E tempo é uma variável importante para se ter em mente empreendendo no setor.
Por isso, acho que crescer no setor público exige conseguir equilibrar duas coisas ao mesmo tempo. De um lado, construir uma empresa sustentável e resiliente o suficiente para respeitar o tempo mais longo desse mercado e da própria aprendizagem. Do outro, não confundir crescimento comercial com impacto, porque chegar a milhares de alunos é só o começo. É preciso ter um bom produto, capacidade de implementação e evidência de que aquilo realmente gera aprendizagem.
3. Vocês são pioneiros no uso de IA em escrita no Brasil. O que mudou no uso dessas tecnologias desde o advento da IA generativa?
Eu acho que a IA generativa mudou essa discussão em três aspectos principais. Primeiro, mudou o que a tecnologia é capaz de fazer. Segundo, criou um novo dilema pedagógico sobre o papel da IA na aprendizagem. E, terceiro, aumentou muito a nossa responsabilidade sobre quando e por que usar essa tecnologia.
O primeiro ponto é que a IA deixou de apenas analisar e passou também a produzir. Quando a Letrus começou a usar inteligência artificial para analisar escrita e oferecer feedback, IA ainda era uma discussão bastante restrita. O desafio era entender como usar tecnologia para analisar aquilo que o estudante tinha escrito, identificar elementos daquele texto e devolver alguma coisa que pudesse ajudá-lo a avançar.
A IA generativa muda bastante esse cenário porque agora a tecnologia também consegue produzir o próprio texto. Antes, grande parte da discussão era sobre como a IA conseguia entender aquilo que o aluno escreveu. Hoje aparece outra pergunta, talvez ainda mais complexa: como garantir que continue sendo o aluno quem está pensando e escrevendo?
Isso nos leva ao segundo ponto, que é o dilema pedagógico. A IA generativa abre possibilidades muito interessantes de personalização, feedback e apoio ao professor, mas, ao mesmo tempo, existe uma certa ansiedade para usar IA em tudo. Às vezes parece que, porque uma tecnologia nova existe e está em evidência, precisamos necessariamente encontrar um lugar para colocá-la.
Eu tenho ficado cada vez mais convicta de que a lógica precisa ser a contrária. Primeiro precisamos entender qual problema queremos resolver, qual aprendizagem queremos provocar e qual comportamento queremos desenvolver naquele aluno. Só depois disso faz sentido perguntar se a inteligência artificial é realmente a melhor ferramenta para aquele processo.
Se o objetivo de uma atividade, por exemplo, é que o aluno organize um argumento, lide com a dificuldade de começar um texto ou perceba os próprios erros, oferecer uma resposta pronta muito rapidamente pode retirar justamente a parte da experiência que queríamos desenvolver. Então a pergunta passa a ser em que momento a IA ajuda o estudante a pensar melhor e em que momento ela começa a pensar no lugar dele.
E acho que isso leva ao terceiro ponto. Quanto mais poderosa a tecnologia fica, maior é a nossa responsabilidade sobre como ela é usada. Eu não vejo a IA generativa como uma ameaça à educação, mas também não vejo como uma solução automática. Ela nos permite imaginar experiências de aprendizagem e formas de apoio ao professor que há alguns anos seriam muito difíceis de oferecer em escala, mas exige também um desenho pedagógico muito mais cuidadoso. E é onde eu acredito que o papel humano se torna ainda mais importante: somos nós que precisamos definir os limites, os objetivos e os direcionamentos para que essa tecnologia esteja a serviço da aprendizagem, e não o contrário.
4. Como preservar a capacidade de escrita dos alunos em um mundo onde a IA é cada vez mais capaz de escrever por nós? E qual o valor dessa competência na era atual?
Eu começaria ampliando a ideia do que significa um estudante ser capaz de escrever. Escrever é simplesmente produzir um texto?
Quando ensinamos um estudante a escrever, estamos ensinando também a organizar pensamento, construir argumento, selecionar evidências, perceber contradições, defender um ponto de vista e se comunicar com outra pessoa. A escrita é uma forma de materializar o pensamento, mas também de construir uma forma de auto expressão.
E acho que autoria é uma palavra muito importante nesse debate. Para mim, autoria não significa apenas assinar um texto ou conseguir provar que ele foi escrito sem ajuda de uma tecnologia. Significa conseguir reconhecer o que eu penso, construir uma perspectiva própria e fazer escolhas sobre aquilo que quero comunicar. É ter capacidade de dizer “isso representa o que eu penso” ou, ao contrário, “isso está bem escrito, mas não representa o que eu quero dizer”. É saber argumentar e se posicionar perante às decisões que você vai sustentar para o mundo para o mundo que você constroi para si seja reflexo de suas escolhas.
É justamente por isso que eu acho que a escrita se torna ainda mais importante em um mundo com IA, e não menos. Se uma máquina consegue produzir um texto relativamente bom em poucos segundos, o valor humano não vai estar simplesmente em produzir mais palavras ou escrever mais rápido. Vai estar em conseguir fazer boas perguntas, avaliar aquilo que foi produzido, identificar um argumento fraco, reconhecer um erro, confrontar informações e construir uma perspectiva própria.
Nesse sentido, preservar a capacidade de escrita passa por preservar espaços de reflexão, elaboração e pensamento crítico. O estudante precisa continuar tendo momentos em que é ele quem organiza a ideia, enfrenta a dificuldade de começar, escolhe um argumento, revisa o que escreveu e se responsabiliza pelo resultado final. Se usamos a IA para eliminar justamente essas etapas, corremos o risco de retirar do aluno a parte da aprendizagem que queremos desenvolver.
Por isso, para mim, a discussão não deveria ser simplesmente se o aluno pode ou não pode usar IA. Acho mais interessante perguntar em quais momentos ele precisa necessariamente pensar, escrever e se confrontar com as próprias dificuldades e em quais momentos a tecnologia pode apoiá-lo para que avance.
Eu gosto da ideia da IA como um andaime. Ela pode oferecer feedback, fazer perguntas, ajudar o estudante a perceber problemas ou sugerir caminhos. Mas existe uma diferença importante entre apoiar a construção e substituir quem constroi.
E talvez esse seja justamente o valor da escrita na era da inteligência artificial. Quanto mais fácil fica produzir um texto, mais importante se torna formar pessoas capazes de saber o que pensam, avaliar criticamente o que recebem e se posicionar diante do mundo.
5. Alguma crença forte que você tinha que sua experiência mostrou equivocada?
Eu acho que durante muito tempo associei inovação à ideia de fazer alguma coisa nova. Talvez porque eu tenha começado minha trajetória muito influenciada pelos desafios que vivi no chão da escola, eu enxergasse inovação quase como sinônimo de ruptura, de trazer uma solução diferente para um problema que o sistema ainda não tinha conseguido resolver.
Com o tempo, fui percebendo que essa visão era um pouco limitada. Nem sempre a melhor inovação é a mais nova, a mais sofisticada ou a que usa a tecnologia mais avançada. Às vezes, inovar está em combinar melhor coisas que já existem, mudar um processo, usar melhor uma informação, simplificar uma experiência ou conseguir fazer uma solução chegar de uma forma mais adequada a quem precisa dela.
Acho que trabalhar com tecnologia deixou isso ainda mais claro para mim. Existe uma tendência natural de se encantar com a ferramenta, principalmente quando surge uma tecnologia muito poderosa como a inteligência artificial. Só que uma tecnologia nova não é necessariamente uma inovação relevante. Ela só se torna relevante quando consegue resolver um problema de forma melhor do que fazíamos antes.
Hoje eu sou muito menos fascinada pela novidade em si e muito mais interessada em entender se aquilo gera resultado. Acho que meu critério para inovação mudou bastante. Antes eu perguntava muito “o que tem de novo aqui?”. Hoje eu tendo a perguntar “o que isso resolve melhor e para quem?”.
Edtechs
Letrus
Programa curricular de leitura e escrita com correção automatizada
Fundada em 2017 a partir do encontro entre um professor de língua portuguesa e um empreendedor de impacto, a Letrus opera nos anos finais do ensino fundamental e no ensino médio com uma jornada que vai do diagnóstico à produção textual, passando por leitura, repertório e trilhas. O sistema devolve feedback ao estudante enquanto ele escreve e entrega ao professor a leitura de proficiência da turma. A empresa usava aprendizado de máquina para analisar redação anos antes de a IA generativa chegar ao debate público.
Está presente como política pública nas redes estaduais de Mato Grosso, Goiás e Espírito Santo, além de redes privadas como Pueri Domus, Bahema e SESI, somando mais de 680 escolas. No Espírito Santo, o governo estadual reportou aproveitamento de aprendizagem de 89% nas 121 escolas que usavam a plataforma e crescimento de 7% na pontuação das redações ao longo do ciclo.
A edtech captou R$ 36 milhões em rodada liderada por Crescera Capital e Owl Ventures, com participação do Altitude, do BID Lab, da VélezReyez+ e da Fundação Lemann (organização na qual trabalho), acumulando R$ 96 milhões desde a fundação.
Programação e pensamento computacional de forma curricular
Criada em 2017 dentro da Alura, a START nasceu para levar ensino de programação a escolas públicas e privadas de forma curricular, alinhada aos eixos de pensamento computacional, cultura digital e mundo digital antes mesmo de eles entrarem no anexo de Computação da BNCC, em 2022. Os estudantes trabalham com Scratch, HTML, CSS e JavaScript em projetos práticos, com acesso às aulas online ou offline. Hoje a operação alcança mais de 7 mil escolas em todo o país.
O caso do Paraná mostra a forma de entrada no setor público. A Secretaria de Estado da Educação instituiu o programa Edutech em 2021 por convênio não oneroso com a Alura, e o movimento decisivo não foi tecnológico: o estado aproveitou o aumento de carga horária do ensino médio de cinco para seis aulas e criou a disciplina de Pensamento Computacional na grade regular da 1ª série. As aulas rodam nos Educatrons, equipamentos multimídia da rede.
A conexão com a tese da entrevista é direta. O que sustentou o uso foi a previsão da atividade no currículo somada à formação síncrona de professores. Sem esse encaixe na rotina da escola, o mesmo produto teria virado licenças não utilizadas.
Sistema de gestão escolar em software livre para redes municipais
Brasil
O i-Educar foi desenvolvido dentro da Prefeitura de Itajaí, em Santa Catarina, e disponibilizado no Portal do Software Público Brasileiro em 2008. A Portábilis nasceu em Içara no ano seguinte com a tese de manter e evoluir esse projeto de forma sustentável, e hoje é a mantenedora oficial reconhecida pelo governo federal. O sistema centraliza cadastro único do aluno, matrícula, frequência, avaliação, alocação de professores e integração com o Censo Escolar do INEP, e serve de base de gestão para mais de 100 municípios.
O modelo de negócio se sustenta em implantação, migração de dados e suporte, não em licença, já que qualquer rede pode adotar o código gratuitamente. Em julho de 2025 a empresa abriu o código-fonte do Pré-Matrícula Digital, que gerencia o acesso a vagas escolares, em evento com MEC, Ministério Público e Fundação Lemann (que foi um dos apoiadores do desenvolvimento do i-Educar).
Os ganhos reportados são de processo. Gaspar reduziu em 90% o tempo de cadastro de matrículas, e pesquisa qualitativa interna da própria empresa indicou que Rio Negrinho passou de 30 para 5 dias na entrega do Censo Escolar. O CEO, Tiago Giusti, explica por que essa camada importa para quem trabalha com aprendizagem: em boa parte dos municípios do país, a nota e a frequência ainda são registradas no papel, e sem informatização não existe coordenador pedagógico acompanhando aprendizagem com dado nenhum.
Quill.org
Atividades gratuitas de escrita e leitura com devolutiva imediata
EUA
Organização sem fins lucrativos fundada em 2012 em Nova York, a Quill oferece mais de mil atividades de leitura e escrita alinhadas a padrões curriculares para estudantes do 3º ao 12º ano. A devolutiva é dada no nível da frase, enquanto o aluno escreve, para que ele revise o próprio texto em sessões curtas de dez a quinze minutos acopladas à aula. A plataforma já processou 3 bilhões de frases escritas por 13 milhões de estudantes.
A tecnologia começou com processamento de linguagem natural e IA preditiva e depois migrou para modelos generativos. O trabalho é feito em código aberto e com pesquisadores acadêmicos, e o financiamento veio da filantropia, incluindo Fundação Gates e um aporte de US$ 1,3 milhão do Google.org em 2019. Em 2023, junto com a CommonLit, a organização lançou o AIWritingCheck.org, ferramenta para identificar texto gerado por IA em redações escolares.
O problema e a tecnologia de base, bem como a escala de estudantes atendidos, são semelhantes à da Letrus mas houve a opção por um modelo filantrópico e doação.
Fiete.ai
Devolutiva automática de textos com critérios definidos pelo professor
Alemanha
Desenvolvida por um professor e um desenvolvedor de software na Alemanha, a Fiete inverte a ordem usual da ferramenta de correção. O professor cria a tarefa, anexa os materiais e textos de referência e define os critérios de feedback, decidindo inclusive se eles ficam visíveis para a turma. O estudante escreve dentro da plataforma, recebe a devolutiva e reescreve o texto antes da entrega final.
O professor acompanha num painel todos os textos com seus respectivos retornos e uma consolidação por turma que mostra em quais critérios existe lacuna de aprendizagem. O reconhecimento de manuscrito permite fotografar textos escritos à mão e também incorporar material impresso como referência. A ferramenta opera em alemão, inglês, francês, espanhol, holandês e italiano, com o professor escolhendo o idioma da resposta, o que viabiliza uso em aula de língua estrangeira. Os estudantes entram de forma anonimizada por link gerado pelo professor, decisão de arquitetura ligada às exigências de proteção de dados.
A escolha de projeto responde ao dilema central da entrevista. Quem define o que a IA olha é o docente, e o produto da interação é uma reescrita feita pelo aluno.
Ticmas
Plataforma curricular integral para escolas de educação básica
Argentina
Edtech argentina fundada em 2018 em Buenos Aires, parte do Grupo VI-DA, que também controla plataformas de leitura como BajaLibros e Leamos. Reúne conteúdos curriculares interativos, recursos de STEAM e alfabetização, ferramentas de diagnóstico e acompanhamento da aprendizagem e programas de formação docente, com o material ajustado ao currículo de cada país onde opera.
A expansão se deu pelo canal público. Durante a pandemia, a plataforma foi escolhida por governos de seis províncias argentinas como solução principal de educação remota, e a empresa seguiu o padrão de pilotos provinciais antes de ampliar, como no caso de Jujuy. Hoje tem presença em Uruguai, Chile, Peru, Colômbia, México, Honduras e Equador, além de escolas de língua espanhola nos Estados Unidos, e obteve certificação como Google Partner para a região.
Entra nesta edição como caso de escala comercial regional construída sobre contrato com governo. A ressalva vale como parte do argumento: não localizei avaliação de impacto independente sobre aprendizagem, o que ilustra a distância que a entrevistada aponta entre chegar a muitos alunos e conseguir demonstrar que aquilo gerou aprendizagem.
Software e tablet de alfabetização e matemática em língua local
Reino Unido
Organização sem fins lucrativos sediada no Reino Unido, a onebillion desenvolve o onecourse, curso estruturado de leitura, escrita e matemática que a criança percorre no seu próprio ritmo e na sua própria língua, e o onetab, tablet de baixo custo que roda o conteúdo. No Malaui, o conteúdo é entregue em chichewa. Pelo programa Unlocking Talent, com o Ministério da Educação e a VSO, mais de 150 mil crianças passaram a ter acesso regular ao onecourse pela rede pública.
A base de evidência é longa e independente. Um ensaio controlado randomizado de oito meses conduzido pela Imagine Worldwide em duas escolas públicas de baixa renda encontrou efeito de 0,34 desvio padrão em alfabetização, equivalente a 5,3 meses adicionais de aprendizagem, e de 0,29 em identificação numérica. Pesquisadoras da Universidade de Nottingham e da Universidade do Malaui registraram ainda equalização de gênero em matemática, com meninas alcançando desempenho equivalente ao dos meninos após poucas sessões, enquanto na instrução regular em sala elas ficavam para trás.
A expansão nacional acontece pelo programa BEFIT, que chegou a 500 escolas em 18 distritos no primeiro ano e mira as 3,5 milhões de crianças de todas as escolas primárias públicas do país. Para escalar, uma arquitetura financeira interessante: recursos filantrópicos de curto prazo constroem infraestrutura, capacidade e evidência, isso alavanca ajuda ao desenvolvimento, e o desenho prevê que o governo assuma operação e custeio ao final. Entre o primeiro piloto e a escala nacional passaram dez anos.
Sobre implementação, o programa é do Ministério da Educação, que lidera a execução e encaixou as sessões no currículo e no horário escolar. A onebillion entra como desenvolvedora do software, tendo concedido licença perpétua e livre de royalties do onecourse ao programa. A Imagine Worldwide, organização americana sem fins lucrativos voltada a aprendizagem em tablets, coordena o arranjo, capta e administra os recursos e conduz a pesquisa que gerou a evidência usada pelo governo para decidir pela escala nacional. A VSO, organização britânica de cooperação internacional presente no Malaui desde o programa anterior, e a CRECCOM, ONG malauiana de mobilização comunitária com três décadas de atuação, fazem o trabalho de campo junto às escolas e às comunidades. O RTI desenvolveu a avaliação digital em chichewa que monitora o programa, a Universidade do Malaui conduz a pesquisa de implementação e a Sun King fornece os sistemas de energia solar sem os quais os tablets não carregam nas escolas rurais. O bom software é uma peça entre muitas. Ou seja, o software é apenas uma pequena parte de um processo de implementação robusto, coordenado pelo governo.

O educador21 amplia sua parceria com Guilherme Cintra, colunista da Tecnologia que Humaniza, ao trazer para o portal os conteúdos do EdTech da Semana. A iniciativa realiza um mapeamento contínuo das principais tendências, tecnologias e empresas que transformam a educação no Brasil e no mundo. Todos os textos são reproduzidos do site original.










