Na coluna de setembro, Betina von Staa discute como a tecnologia muda a relação com o conhecimento e desafia escolas a formar alunos mais curiosos e autônomos
Maurício é daqueles jovens que tem a certeza de que, com tecnologia, pode conseguir tudo o que deseja. Ele vive isso. Tem uma namorada na Grécia com quem fala por meio de tradução automática. Aproveitou para pegar um frila de tradução para o grego, usou a IA para traduzir, e não entendeu por que o cliente não gostou do serviço. O que ele tem vontade de descobrir, ele descobre perguntando para a IA. Rotinas de treino, sugestões de tratamentos médicos, receitas para ficar musculoso, os melhores locais para praticar um esporte.
Ele descobriu como criar músicas com a IA, e tem se divertido com as (próprias) produções. Também sabe descobrir formas de tornar seu trabalho mais ágil, em um estágio numa agência de marketing que atende restaurantes. Cria imagens e vídeos com o apoio da IA e automatiza alguns processos de publicação e geração de relatórios de visualização das mensagens postadas. Parece que está tudo indo bem.
Ele, de fato, não tem dificuldade de conseguir as informações e de encontrar os recursos digitais que deseja. No entanto, será que ele, um dia, vai querer aprender grego para, de verdade, se expressar na língua com clareza e emoção? Ou vai optar pelo inglês que, aparentemente traz mais oportunidades profissionais? Ou mandarim, quem sabe?
Já na faculdade, os professores de Maurício se perguntam: como vamos incentivar os alunos a se aprofundarem nos assuntos que deveriam aprender? Como desenvolver suas habilidades? Será que todos devem aprender o mesmo? Será que a necessidade de obter nota vai motivá-los a estudar? Estudar o quê, se o mundo muda tanto? Estudar por quê, se a tecnologia resolve? E como lidar com aqueles alunos que parecem que já chegam sabendo tudo? É preciso estimular que aprendam a aprender, mas como?
Sim, em um mundo em que se pode aprender o que se desejar, o papel da escola e da universidade talvez não seja o de ensinar, mas estimular a curiosidade para que os alunos deem um jeito de aprender algo que não estava na sua esfera de interesses imediata. O que significa aprender uma língua em busca da proficiência? Quais são os problemas que um setor de TI resolve em diferentes empresas? Qual é a diferença entre uma música que distrai e uma que tem efeito artístico? Quais são os dilemas que um professor vive a cada dia em uma sala de aula com 30 alunos? Que estratégias de marketing podem ser adotadas em diferentes situações para efetivamente fazer a diferença na percepção de valor do produto que se está ofertando? Como desenvolver os conhecimentos e as habilidades para resolver essas questões?
E os professores? Alguém vai ensinar para eles ou elas como adotar novas tecnologias e estratégias didáticas para que promovam o engajamento dos alunos? Talvez sim, talvez não. Mas aqueles que tiverem a curiosidade também vão descobrir onde encontrar fontes e recursos para resolver suas curiosidades por conta própria, assim como o Maurício, quando está interessado em algo.
O ciclo não tem fim: ninguém vai ensinar ao professor, passo a passo, como usar determinadas tecnologias para qual finalidade. Os professores também não vão dominar todos os recursos dos quais seus alunos podem se valer para alimentar seus interesses e atingir seus objetivos. E quando os alunos forem profissionais, também não vão receber orientações detalhadas dos seus chefes sobre o que devem fazer e como. Serão colocados diante de desafios e precisarão aprender com diferentes estratégias.
Acho que precisamos nos acostumar, desde cedo, com essa zona de desconforto. O que vai ajudar qualquer um a aprender a aprender é a curiosidade e a segurança de que, mesmo que a tarefa seja difícil, podemos aprender dividindo-a em etapas, pedindo ajuda à tecnologia e a outras pessoas, investigando, praticando. Se uma escola ou faculdade quiser que seus alunos vão mais longe, talvez seja esse o foco a ser dado: estimular a curiosidade com projetos, cases, desafios. E que todos se acostumem a aprender muito. Até aquilo que não parecia nem interessante nem necessário no cotidiano. Até tecnologia digital. E isso é uma tarefa 100% humana.

Betina von Staa é doutora em Linguística Aplicada e fundadora da BvStaa Tecnologia & Educação. Atua no desenvolvimento de práticas educacionais inovadoras e na gestão de relações B2B da RISE (Rede de Inovação em Saúde e Educação da UniCarioca), além de iniciativas internacionais. Foi diretora de Ética e Qualidade da Abed (2023–2024), coordenadora do CensoEAD.br (2016–2024) e responsável pela chegada da D2L ao Brasil. Também coordena o desenvolvimento de conteúdos para a Educação Básica e o ensino superior, com foco em inovação.










