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Constanza Hummel discute por que a área precisa ir além dos treinamentos e assumir um papel estratégico na construção de capacidades organizacionais

Há pelo menos três anos venho provocando profissionais de T&D sobre a necessidade de mudar a proposta de valor da Educação Corporativa. Falei sobre isso no CBTD, escrevi e levei a discussão para clientes, projetos e salas de aula. A provocação é a mesma: não podemos medir relevância pelo volume de treinamentos entregues ou pela nota de satisfação. Precisamos falar de capacidade, performance e negócio.

Por isso, quando li no relatório da Gartner sobre as prioridades de CHROs para 2026 a recomendação explícita de “resetar a proposta de valor de L&D para a era da IA”, pensei: finalmente essa conversa chegou ao centro da mesa. A Gartner propõe redesenhar T&D, preparar a força de trabalho para IA, formar líderes prontos para a mudança e conectar aprendizagem ao impacto no negócio.

Mas há um alerta: esse reset não pode significar apenas incorporar IA ao que já fazemos. A mudança é muito mais profunda.

Durante muitos anos, a Educação Corporativa funcionou como uma estufa: um ambiente controlado, onde “plantávamos” conteúdos e esperávamos “colher” comportamentos.

Alguém identificava uma lacuna de competência, o T&D desenhava um treinamento, reunia as pessoas numa sala e seguia com EAD ou trilha digital. Ao final, medíamos horas de treinamento, presença, conclusão, CSAT ou NPS.

O problema é que já não estamos numa estufa. 

Hoje estamos numa floresta em transformação. Mudam o trabalho, as competências, a tecnologia, os modelos de carreira, as relações entre pessoas e organizações e a fronteira entre o que será feito por humanos e por máquinas.

A IA não criou essa necessidade de reset. Ela acelerou uma transformação que já estava em curso e tornou impossível ignorá-la.

O que rachou a estufa?

O primeiro é a Inteligência Artificial.

O relatório da Gartner mostra que a IA começa a ser vista como uma alternativa viável ao talento humano, e não apenas como ferramenta de produtividade. Isso muda uma pergunta central da Educação Corporativa.

Eu já tinha ouvido Yuval Harari, com sua futurologia quase apocalíptica, trazer essa perspectiva de “substituição”, mas nesse relatório senti um calafrio de verdade.

Esse novo cenário traz a pergunta:

“O que precisamos continuar ou começar a desenvolver na nossa força de trabalho humana, o que poderá ser delegado à máquina e quais novas capacidades surgem justamente da interação entre os dois?”

Uma pesquisa recente da Gartner mostra que 22% dos CHROs relatam que pelo menos um líder deixou de contratar para determinados cargos de entrada em função da automação por IA. Ao mesmo tempo, apenas uma em cada cinco organizações que implementaram IA afirma ter gerado valor significativo ou transformacional.

Não basta colocar tecnologia dentro do trabalho. É preciso redesenhar trabalho, papéis, competências, relações e aprendizagem.

O segundo movimento é a pressão crescente por performance e eficiência.

As empresas precisam crescer, inovar e se transformar enquanto controlam custos. Nesse cenário, uma Educação Corporativa percebida como fornecedora de cursos fica vulnerável. É fácil cortar uma estufa quando ninguém consegue demonstrar quais frutos ela produz.

Medir impacto tornou-se urgente. Participantes, horas de treinamento ou satisfação são informações úteis, mas não comprovam valor sozinhas. Precisamos avançar de métricas de consumo para métricas de consequência.

Na minha experiência com mais de 100 empresas nacionais e multinacionais, esse será um passo complexo, que exigirá mudança de mentalidade do T&D e da própria organização.

A maioria dos planejamentos estratégicos de Educação Corporativa ainda não define KPIs ligados à transformação de comportamento ou do negócio. O que não é planejado para ser medido dificilmente será medido.

O terceiro movimento é a mudança no próprio contrato de trabalho.

A Gartner descreve um cenário de “give more, expect less”: organizações pressionadas por produtividade, transformação e velocidade, enquanto profissionais vivem relações de trabalho menos previsíveis e assumem mais responsabilidade sobre a própria empregabilidade.

Isso coloca a autonomia para aprender no centro da conversa.

Autonomia para aprender sem ambiente, tempo, liderança, ferramentas e acesso não é autonomia. É abandono.

Cuidamos demais das plantas da estufa e pouco do ecossistema.

Durante muito tempo, tratamos aprendizagem como uma questão individual. A pessoa precisava participar, aprender e aplicar. Se não aplicasse, atribuíamos o problema a engajamento, motivação ou disciplina. Mas aprendizagem no trabalho não acontece no vazio.

Ela depende do gestor, da cultura, dos colegas, do desenho do trabalho, do tempo disponível, dos sistemas, dos incentivos e da possibilidade de errar, refletir e tentar novamente.

Não adianta desenvolver uma competência em sala e devolver a pessoa para um ambiente que impede seu uso.

Na estufa, cuidávamos principalmente da planta.

No ecossistema, precisamos compreender também o solo, o clima, a luz, as relações e as condições que permitem que a planta cresça.

É aí que está a nova proposta de valor da Educação Corporativa.

De fornecedor de treinamento para arquiteto de capacidades

A McKinsey traz uma formulação importante: na era da IA, T&D tende a deixar de ser apenas uma função de suporte para se tornar parte do motor de performance, adaptabilidade e resiliência das organizações. Segundo o World Economic Forum, 59% da força de trabalho mundial deverá precisar de treinamento ou requalificação até 2030.

Nossa unidade básica de trabalho não pode mais ser o treinamento. O foco precisa estar na capacidade organizacional: inovar, liderar mudanças, decidir em ambientes de incerteza, trabalhar com IA, colocar o cliente no centro e aprender continuamente.

Curso, sala, trilha, microlearning, workshop, coaching e comunidade de prática continuam existindo.

Mas deixam de ser o produto final. Passam a ser recursos dentro de uma arquitetura maior. Na minha visão, isso se traduz em quatro movimentos para a Educação Corporativa.

Este é o nosso momento

A Educação Corporativa vive uma janela rara de oportunidade. A IA acelerou uma transformação que já estava em curso e colocou a aprendizagem no centro das decisões sobre trabalho, liderança, competências e performance.

Agora é hora de surfar essa onda, sair da estufa, olhar para a floresta e definir com clareza quais capacidades a organização precisa construir para seguir relevante.

E, principalmente, comunicar esse novo lugar. A Educação Corporativa não pode mais ser percebida como uma área que entrega treinamentos. Ela precisa ser reconhecida como uma força que constrói capacidade organizacional para o presente e para o futuro.

Esse é o nosso momento de ocupar esse espaço.

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