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Guilherme Cintra reflete sobre como a inteligência artificial transforma a escrita, o pensamento e a construção da identidade

Esta é a 10ª edição da coluna Tecnologia que Humaniza. Então parei para fazer uma retrospectiva do que escrevi até aqui. E aí me deparei com um risco.

Ao longo dessa coluna, enquanto escrevo sobre Inteligência Artificial, venho também testando hipóteses sobre seu uso em diferentes etapas do meu processo de escrita. De modo geral, os textos ficaram suficientemente bons para passar no meu crivo. Mas, ao reler os textos, reparei que algo “soava” estranho. Claramente, as ideias, a lógica e o repertório eram meus. Mas algumas frases, palavras ou formas de expressar ideias não pareciam minhas. E isso tornava os textos desconfortáveis em uma leitura mais atenta.

O tal do risco com o qual me deparei? Apagar minha “impressão digital”. Aquilo que é só meu.

Essa reflexão ficou ainda mais presente, pois recentemente outro experimento deixou claro que, de alguma maneira, o uso constante de IA já está me transformando. Ou minha forma de pensar. Ou, ao menos, meu processo de escrita. Ou… bem, fiquei confuso sobre como distinguir esses pontos. Qual impacto, exatamente, a IA está tendo sobre mim?

Aconteceu durante uma viagem recente de trabalho à China. Durante essas imersões, como parte de meu processo de aprendizagem, escrevo intensamente. Levei comigo um conjunto de instruções que passei meses construindo para orientar a IA no meu processo. Elas tinham funções diferentes: preservar minha voz, checar a confiabilidade das fontes, adicionar repertório e estressar minhas próprias teses.

Isso me permitiu escrever de um jeito que nunca havia feito antes: no lugar de uma escrita sequencial, cronológica, dia após dia, como sempre fiz, as ideias “ziguezagueavam”, eram destiladas. Via alguma coisa que me remetia a uma conversa de três dias antes, ia atrás, buscava referência nova, verificava, perseguia os fios que minha curiosidade puxava. Enquanto escrevia, aquele novo repertório ia se tornando meu, entremeado às ideias que já trazia em minha mala.

Então, um dia, me peguei no celular, pesquisando a fundo algum tema. A vida acontecia na minha frente. Eu estava do outro lado do mundo, mas imerso no meu mundo particular. Perguntava, recebia a resposta, afundado nesse pingue-pongue, curvado sobre a minha pequena tela. Levantei os olhos em algum momento e percebi que estava perdendo tudo o que corria à minha volta.

Guardei o celular. Passei a observar e deixar as coisas assentarem um pouco. Depois, em algum momento em que eu estava em trânsito ou em uma situação mais distraída, aí sim eu parava, estudava um pouco, refletia sobre as discussões com a própria IA e sobre aquele texto que se construía à minha frente.

Voltando a atenção de forma mais focada para o mundo no meu entorno, conversas surgiam e traziam ideias e perguntas novas que eu não teria feito sozinho. Uma placa, uma imagem, uma loja, tudo se tornava provocação em um cérebro que tentava entender paradigmas muito diferentes dos seus próprios. Uma manhã em um museu dava origem a um texto inteiro de reflexões sobre a cultura local, demografia e sua maior aceitação de robôs humanoides.

E aí confrontava minhas novas ideias com o texto que construía, tirava dúvidas, buscava novas fontes…

Era eu. Mas era uma versão nova de mim. Uma versão que, mais do que escrever textos, tecia ideias.

Percebi que, ao focar somente nas respostas rápidas encontradas em um chatbot, perdia um ingrediente central para a construção daquele tecido. O tempo de introspecção era justamente o que permitia ao mundo exterior colidir com meu mundo interior. E aí, ao trazer as referências e tecer a escrita com IA, novas teses e ideias se construíam e viravam novos fios para continuar o tecido.

Ao longo daquela semana intensa, algo clicou. De tanto usar IA, deliberada e reflexivamente, comecei a desenvolver uma habilidade de reconhecer aquela construção, aquela palavra, mesmo aquela vírgula fora do lugar, que não era minha.

“Minha” é um conceito menos óbvio do que parece. Esse clique só aconteceu por treinamento associado a uma noção pregressa de quem eu era antes de o mundo ser inundado por chatbots. Como pai, ao me pegar interagindo com uma nova tecnologia que parece capaz de moldar meu próprio senso de identidade, me adaptando a esse novo mundo e vendo as possibilidades que reforçam quem sou, acabei por refletir: como minha filha irá saber quem ela é para poder fazer o mesmo?


Como contei em uma coluna anterior, quando minha filha nasceu, escrevi um livro para ela. Escrita, design, fotos, desenhos à mão, tudo meu. Nenhum pingo terceirizado.

O caderno da China é o oposto disso. Construído com apoio de IA em praticamente todas as etapas. E, no entanto, os dois são profundamente meus. Como?

O livro para minha filha partiu de um lugar íntimo, emocional, e as únicas fontes possíveis para uma conversa nesse nível eram minhas próprias emoções e experiências. Medos, desejos, ansiedades, expectativas. Está tudo escancarado nas páginas daquele livro. Usar IA naquela escrita seria semelhante a usar um chatbot como intermediário para conversar com minha filha. Não fazia o menor sentido.

Já no caderno de viagem (de trabalho, o que me parece importante frisar), o processo experiencial tem muito espaço e demarcou o pontapé das minhas perguntas. A minha curiosidade, característica que considero definidora de quem sou, está clara, ao menos pra mim, em cada uma daquelas linhas. A busca por equilibrar visões de mundo contrastantes. É tudo meu.

Mas o enriquecimento de repertório, o cruzamento com visões de mundo distantes da minha, mesmo traduções, tudo demandou apoio de uma base vasta de conhecimento que eu não dominava. Algo que a IA faz muito bem.

Ambos os processos demandaram minhas competências, ideias pessoais e inspirações externas e alguma ferramenta para construir, por meio de palavras e imagens, o que queria expressar. Mas o resultado final fez com que eu optasse por formatos e processos muito diferentes.

Ao refletir sobre a escrita de ambos os textos, percebi, entretanto, que, de forma distinta, já havia tecido algo no texto para minha filha. Ele é, na realidade, o segundo de uma série de livros que começou com aquele que usei para pedir minha esposa em casamento. Há uma grande tapeçaria familiar em construção.

E isso me fez refletir sobre como, ao escrever, somos todos tecelões. E a IA representa a possibilidade de integrar novos fios e um tear com capacidades diferentes. Como usaremos essas possibilidades é o que delimita se as novas tapeçarias serão realmente nossas.


Um tecelão tem dentro de si a competência de tecer. Sua vontade, sua forma de se expressar e sua criatividade são moldadas por seu entorno. Ao mesmo tempo, são dele. Já os fios não nasceram com ele. O tecelão passa a vida aprendendo a distinguir o que serve do que não serve, o que aguenta tensão e o que arrebenta. O tecido é dele por causa desse trabalho, não por causa da origem do fio.

Foi isso que tentei desenhar na imagem que acompanha este texto.

No topo, está quem eu sou, dentro do mundo em que vivo. Eu e o mundo somos elementos interdependentes: um se faz no outro. Essa camada muda devagar, em anos, nunca sozinha. Minha mutação, em conjunção contínua com o mundo que experiencio e que me influencia, moldará minha obra.

No meio está o tear. Uma parte dele vem de dentro: o julgamento que fui construindo com o tempo, o que aceito e o que recuso, bem ou mal, quase sem pensar. Há também meu pensamento crítico. E parte dele virou as instruções que escrevi ao longo de meses. Colocá-las em texto é o que permite à máquina aplicá-las em uma velocidade muito maior do que eu conseguiria se fizesse esse trabalho “à mão”. Ao mesmo tempo, precisamos resistir à tentação de explicitar todos os nossos julgamentos para buscar a máxima eficiência: ao fazê-lo, podemos perder o espaço da improvisação ou cristalizar como visão de mundo algo que gostaríamos de manter fluido e mutante.

Na base estão os fios. De um lado, os que já são meus. Parte ainda está solta: são memórias, experiências, que vivem em mim. Outra parte é um repertório já publicado, explícito, que uso em meu processo de ideação e escrita. Do outro, os que estão disponíveis no mundo como inspiração. Novamente, parte solta: uma conversa, uma placa numa rua de Xangai, o que estou vendo em meu entorno. Outra parte já foi processada, disponibilizada com uma filtragem prévia: um relatório, livros, textos.

Em cada uma das três camadas, a IA aparece de formas distintas.

No topo, é difusa, quase invisível, mas muda tudo, assim como uma gota de corante, ao ser colocada em um balde de água, o transforma por inteiro¹, mesmo quando não percebemos. Entretanto, quanto mais gotas, mais percebemos sua transformação. É isso que noto acontecendo. O mundo está mudando e eu junto com ele.

No meio, meus próprios julgamentos podem ser transformados pelos impactos da IA. E meu uso explícito dela busca instrumentalizar e escalar a possibilidade de minha forma de pensar ser aplicada de forma mais ágil.

Já na base está o uso mais óbvio para produção, busca ou processamento de materiais. Mas, novamente, mesmo de forma tácita, aqueles fios soltos são impactados pelos efeitos de uma nova tecnologia.

Ao pensar em minha filha nessa realidade, de uma coisa estou certo: não existe mais o mundo que existia quando eu tinha sua idade. Lutar contra isso é nostalgia inócua. Aceitar sem reflexão é derrotismo.


Não é a primeira vez que uma tecnologia muda completamente o mundo no qual estamos inseridos. A invenção da escrita, a prensa de Gutenberg e a internet transformaram profundamente nossa relação com a informação.

Em cada um desses momentos, tivemos pessoas entusiasmadas e pessoas desesperadas. São tecnologias que desafiam nosso senso de identidade. É compreensível que nos levem a sensações extremas.

Mas é necessário reconhecer que há algo de diferente na Inteligência Artificial Generativa. Em um mundo que já é rápido demais para nossa cognição, essa tecnologia adiciona a capacidade de convencimento e uma atratividade adaptável em um nível mais personalizado do que nunca. É capaz ainda de assumir partes de processos cognitivos que antes dependiam diretamente de nós, em uma escala difícil de comparar com tecnologias anteriores.

Com tudo isso, meu medo não é que ela, um dia, use essas ferramentas. É que ela não tenha o privilégio de ter o tempo adequado de introspecção e reflexão que lhe permita entender quem ela é em sua relação com o mundo sem ser atropelada. Meu objetivo é garantir que minha filha possa ser a tecelã, não um tecido industrializado.

Minha filha terá acesso a teares mais poderosos e a mais fios do que eu tive. Mas talvez o que lhe falte seja o tempo para aprender a tecer.

É meu compromisso como pai preservá-lo. No mundo em que vivemos, nada é mais valioso.


¹ A imagem é de Neil Postman, em Technopoly (1992). O ponto dele: uma tecnologia nova não é um acréscimo ao que já existia, é uma mudança de ambiente inteiro. 

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