Encontro em Zurique reúne pesquisadores e organizações brasileiras para discutir como tecnologia pode apoiar professores e aprendizagem em redes com diferentes condições de infraestrutura
A expansão da inteligência artificial na educação pública coloca uma questão que vai além da adoção de novas ferramentas: como fazer a tecnologia funcionar em redes com diferentes condições de infraestrutura, conectividade e capacidade de implementação? Esse desafio estará no centro do Matching Workshop 2026, realizado nos dias 2 e 3 de setembro, na Universidade de Zurique, na Suíça.
O encontro reunirá lideranças e pesquisadores brasileiros e internacionais para discutir problemas concretos da educação pública, incluindo sobrecarga docente, defasagens de aprendizagem e acesso desigual à tecnologia. A proposta parte da aproximação entre experiências desenvolvidas no campo educacional e pesquisadores interessados em produzir evidências sobre sua implementação e seus resultados.
A discussão ganha relevância porque a incorporação da IA ocorre em sistemas educacionais muito diferentes entre si. Enquanto algumas redes dispõem de conectividade, equipamentos e equipes especializadas, outras ainda enfrentam limitações básicas de infraestrutura. Nesse cenário, uma solução tecnicamente sofisticada pode ter pouco efeito se não considerar as condições reais de uso.
O debate também desloca a discussão sobre IA do campo das ferramentas para o das políticas educacionais. Automatizar tarefas, identificar dificuldades de aprendizagem e apoiar professores pode gerar ganhos operacionais, mas exige acompanhamento dos resultados. Para gestores públicos, a questão passa a envolver evidências, modelos de implementação, formação e capacidade de escala.
O Matching Workshop integra as primeiras atividades da Lemann Collaborative, iniciativa criada pela Universidade de Zurique e pela Fundação Lemann, em conjunto com o J-PAL e a ADEPT. A iniciativa busca aproximar problemas identificados na implementação de políticas e projetos sociais da produção científica, criando oportunidades para novas pesquisas e colaborações.
Inteligência artificial na educação pública exige diferentes modelos
Na programação dedicada à educação, a Letrus e a Fundação 1Bi apresentarão experiências relacionadas ao uso de tecnologia para apoiar estudantes, professores e redes de ensino. As organizações chegam ao encontro com desafios distintos, mas convergentes: adaptar soluções digitais às condições concretas das escolas e produzir evidências sobre seus efeitos.
Sofia Fernandes, CRO e sócia da Letrus, levará à discussão experiências de implementação de soluções de inteligência artificial para leitura e escrita em escolas com diferentes níveis de infraestrutura. A organização trabalha com alternativas on-line, híbridas e de baixa conectividade para ampliar o alcance de suas soluções em redes públicas.
A experiência coloca um problema relevante para gestores: conectividade não pode ser tratada como uma condição uniforme dentro de uma rede de ensino. Modelos de implementação precisam considerar território, equipamentos disponíveis, perfil das escolas e capacidade das equipes. A tecnologia, nesse contexto, depende tanto da solução quanto da arquitetura criada para sustentá-la.
“A pergunta central é como fazer com que a IA aplicada à educação pública ajude a reduzir desigualdades, em vez de ampliá-las”, afirma Sofia Fernandes, CRO e sócia da Letrus. A questão resume uma das tensões centrais do debate: ampliar o acesso à tecnologia sem transformar diferenças de infraestrutura em novas diferenças de aprendizagem.
Segundo a Letrus, seu programa curricular combina inteligência artificial e pedagogia para apoiar o ensino de leitura e escrita nos anos finais do Ensino Fundamental e no Ensino Médio. A organização informa que a solução já alcançou mais de 1 milhão de estudantes em 5,9 mil escolas públicas e privadas de todas as regiões do país.
IA pode apoiar professores, mas precisa de evidências
A Fundação 1Bi levará ao workshop outra frente de discussão: o uso da inteligência artificial para apoiar o trabalho docente. Entre as possibilidades estão a automação de tarefas, o diagnóstico de defasagens educacionais e o suporte a estratégias de recomposição da aprendizagem.
Kelly Baptista, presidente da Fundação 1Bi, defende que a aproximação com pesquisadores pode ajudar a avaliar os efeitos dessas iniciativas com maior rigor. “Queremos aprofundar, com uma abordagem científica, a discussão sobre melhorias operacionais e impacto”, afirma a executiva.
A experiência da organização também evidencia a dimensão de escala do desafio. A Fundação 1Bi mantém soluções digitais gratuitas, incluindo o AprendiZAP, que reúne conteúdos, planos de aula, avaliações e formações para professores. Segundo a instituição, suas soluções já alcançaram 6,5 milhões de pessoas, entre 1,5 milhão de educadores e 5 milhões de estudantes.
No workshop, a Fundação 1Bi pretende comparar uma implementação totalmente digital, inclusive pelo WhatsApp, com um modelo chamado “figital”, que combina tecnologia e formações presenciais. A comparação pode contribuir para responder uma questão prática para redes públicas: em quais contextos cada formato produz melhores condições de uso e aprendizagem?
Essa preocupação também envolve equidade. Kelly afirma que a organização pretende avaliar caminhos para levar inovações em IA a comunidades com maiores vulnerabilidades, incluindo escolas com baixa conectividade. Para a gestão pública, isso significa incorporar critérios de acesso, implementação e impacto às decisões sobre tecnologia, em vez de avaliar apenas funcionalidades.
Pesquisa aproxima tecnologia das decisões das redes
A proposta do Matching Workshop é criar uma ponte entre quem enfrenta problemas de implementação e quem produz métodos para investigá-los. Para isso, o encontro reunirá mais de dez pesquisadores de diferentes partes do mundo e lideranças brasileiras envolvidas em desafios estratégicos de políticas públicas.
A Letrus pretende aprofundar uma agenda de pesquisa a partir dos dados acumulados em suas implementações em redes públicas. A organização já teve sua atuação analisada em uma avaliação aleatorizada apoiada pelo J-PAL, experiência que pode contribuir para ampliar a discussão sobre evidências e modelos de implementação.
A Fundação 1Bi, por sua vez, pretende utilizar a aproximação acadêmica para aprimorar sua teoria da mudança e avaliar os efeitos de suas soluções sobre a aprendizagem. A organização também busca analisar caminhos para ampliar parcerias com redes municipais e estaduais, considerando diferentes formatos de oferta.
Para Claudia Macias, diretora-executiva interina do J-PAL, a colaboração entre pesquisadores e lideranças pode ampliar a capacidade de enfrentar problemas complexos de políticas públicas. A perspectiva reforça uma mudança importante no debate educacional: inovação passa a ser acompanhada pela necessidade de medir resultados e compreender condições de implementação.
Flávia Schmidt, diretora de Conhecimento, Dados e Pesquisa da Fundação Lemann, também destaca a possibilidade de colocar desafios brasileiros no diálogo com especialistas internacionais. O objetivo, nesse caso, não é importar respostas, mas ampliar a capacidade de formular perguntas e produzir conhecimento conectado às necessidades do país.
A agenda terá continuidade nos dias 4 e 5 de setembro, quando pesquisadores convidados pelos parceiros participarão da Conferência BREAD-CEPR, simpósio de economia do desenvolvimento realizado também na Universidade de Zurique. A conexão entre os encontros amplia o espaço para discutir evidências, políticas públicas e desenvolvimento.
Para os gestores educacionais, o debate deixa uma questão concreta: a inteligência artificial na educação pública precisará ser avaliada não apenas pela capacidade tecnológica, mas pela possibilidade de produzir resultados em contextos reais. Isso envolve infraestrutura, formação, evidências, equidade e desenho de implementação. A discussão em Zurique coloca esses fatores no mesmo campo de análise, aproximando inovação tecnológica das condições que determinam seu impacto nas escolas.










