Existem algumas pessoas que precisamos manter por perto para nos dar ocasionais choques de realidade. Para mim, a entrevistada da semana, Fernanda Patriota, diretora de educação da Motriz, é uma dessas pessoas.
Tendo mais de uma década de atuação na implementação de tecnologias educacionais no setor público, articulou estratégias para trazer ferramentas do exterior, criar ferramentas no Brasil em diferentes estados e municípios. E hoje tem uma visão muito concreta sobre onde realmente podemos ver valor sendo gerado por tecnologias educacionais no setor público, bem como seus desafios.
Na coluna de hoje falamos sobre os fatores determinantes para o sucesso de implementação de tecnologia, os casos que realmente geram valor e quais não geram e como sua experiência transformou sua forma de ver essas aplicações.
E exploramos edtechs de 3 continentes, construídas por ONGs, governos, organismos multilaterais e setor privado e que atuam em temas que vão do monitoramento de conectividade até sistemas de gestão, passando por avaliações.
1 – Conte sobre a sua trajetória até aqui.
Eu fiz curso técnico em Eletrônica durante o ensino médio, e essa formação foi muito importante para mim. Depois, fiz Economia na USP, mestrado em Economia na FGV e, hoje, faço doutorado em Economia também na FGV.
Academicamente, sempre me envolvi muito com a agenda de políticas públicas, mesmo antes de trabalhar no terceiro setor. Essa sempre foi uma veia forte para mim. Também acabei entrando bastante no mundo dos dados.
Ainda na faculdade, trabalhei durante bastante tempo com o professor Naercio, ajudando a construir o Centro de Políticas Públicas do Insper. Mesmo estudando na USP, fiz estágio com ele e apoiei esse processo de construção.
Lembro que, logo no segundo ano da faculdade, quando comecei a trabalhar com o Naercio, ele me apresentou ao Stata. Foi a primeira linguagem de programação com a qual tive mais contato, ainda no universo da estatística. Depois, fui evoluindo para R, Python e outras ferramentas.
Então tenho alguma familiaridade com ciência de dados, que uso bastante na minha vida acadêmica até hoje. Mas o meu envolvimento com tecnologia, academicamente, foi muito por esse caminho. Não fiz nada muito além disso no mundo acadêmico.
Profissionalmente, meu primeiro estágio foi justamente na construção do Centro de Políticas Públicas. Depois de um tempo, estagiei em banco e trabalhei na área de planejamento estratégico do Santander. Em seguida, fui para a consultoria econômica, onde fiquei por cerca de cinco anos, na Tendências, na área de projetos econômicos.
No dia a dia, eu trabalhava basicamente com modelagem econômica, microeconometria e temas relacionados. Fui muito feliz lá, mas tinha receio de fechar minha carreira completamente no mundo dos economistas. É um universo muito interessante, mas também muito nichado.
Depois de um bom tempo na Tendências, e com esse medo de ficar restrita ao mundo da economia, fui trabalhar em uma holding importante de empresas farmacêuticas no país. Fui para uma diretoria de planejamento estratégico, mas dentro da área de riscos.
Também fui muito feliz lá e adorava o trabalho. Na época, eu brincava que tinha uma vida paralela, que era estudar políticas públicas. Eu estava publicando os trabalhos do mestrado e chegamos a fazer uma publicação muito bacana em uma revista inglesa, que foi bastante importante para mim.
Então eu sempre tinha essa pulga atrás da orelha. Políticas públicas eram o que mais me envolvia e interessava, mas eu não encontrava um lugar de trabalho que me parecesse interessante nessa área.
Até que abriu um processo seletivo na Fundação Lemann. Eu tinha um grande amigo que trabalhava lá, o Ernesto Faria (atualmente diretor do IEDE). A gente tinha trabalhado junto com o Naercio Menezes (atualmente professor no IBMEC) no começo da minha carreira como economista, e o Ernesto sempre brincava que eu deveria ir trabalhar na Lemann, porque eu gostava de políticas públicas e de educação.
Com essa provocação, fiquei intrigada, participei do processo seletivo, passei e comecei a trabalhar na Lemann em janeiro de 2015.
Quando entrei, trabalhei durante bastante tempo com tecnologia educacional. No começo da minha passagem pela Fundação, meu primeiro papel foi coordenar a implementação de edtechs em campo, em dezenas de territórios.
Foi assim que conheci a equipe da Sincroniza (empresa focada em implementação de tecnologias educacionais). A Ana Paula (fundadora da Sincroniza) era minha parceira nessa frente e coordenava o time de formadores. Tínhamos quase 20 formadores, e trabalhávamos implementando tecnologias educacionais em vários territórios.
Em São Paulo, atuamos em lugares como Mogi das Cruzes, Osasco e Santo André. Também trabalhamos no Nordeste, em Sobral, e em Pelotas, no Rio Grande do Sul. Eram muitos territórios diferentes.
A principal tecnologia era a Khan Academy. Também implementávamos o Programaê, que usava Scratch, além de outras ferramentas. Testamos algumas tecnologias novas e até uma solução própria da Fundação.
A hipótese era que essas tecnologias poderiam impulsionar a aprendizagem em sala de aula. Elas poderiam ir além dos limites do conhecimento que o professor conseguia oferecer sozinho e tinham um grande potencial de personalização do ensino.
Estudantes que estavam muito à frente poderiam adquirir novos conhecimentos usando essas ferramentas. Aqueles que estavam em defasagem poderiam encontrar uma trilha para recuperar conhecimentos e avançar no ritmo adequado. E o professor teria uma ferramenta capaz de dar mais visibilidade sobre o progresso dos estudantes.
Também fizemos pesquisas de avaliação de impacto. Chegamos a realizar dois RCTs. Um deles, feito com Stanford, teve problemas de implementação e não foi concluído. O segundo foi realizado com o CLEAR da FGV, com a Khan Academy, e conseguimos levá-lo até o fim.
Esse trabalho trouxe várias descobertas sobre a implementação de tecnologias educacionais. Foram períodos bastante intensos e que acabaram gerando um livrão de aprendizados. É um material interno, porque fala muito do dia a dia das redes, mas foi muito bacana ter participado da sua construção.
Esse também foi o princípio da Sincroniza. Quando o projeto começou a diminuir dentro da Fundação, acabamos impulsionando o nascimento da empresa, com um espírito empreendedor enorme da Keyla e da Ana Paula e com a vocação que elas tinham para integrar tecnologia e processos pedagógicos.
Essa foi a minha história inicial com tecnologia. Depois, ainda na Lemann, fui para a área de gestão escolar, até participar da construção do Formar, um programa de gestão para a aprendizagem que continua sendo o carro-chefe da Motriz.
Também passei bastante tempo como gerente da área interna de desenvolvimento institucional da Fundação Lemann. Participei da construção do Instituto Gestos e, depois, da fusão do Gestos com o Vetor Brasil.
Hoje sou diretora de Educação e estou muito dedicada a essa área, trazendo cada vez mais tecnologia para dentro da Motriz. A diferença é que, atualmente, meu foco está muito mais nos aspectos de gestão do que na tecnologia usada diretamente em sala de aula.
Tenho trabalhado principalmente em como melhorar a gestão pedagógica usando inteligência artificial e outras tecnologias que possam nos ajudar a ganhar velocidade, criar ciclos mais rápidos de feedback e apoiar professores, equipes técnicas das secretarias de educação, profissionais de acompanhamento pedagógico e todos os envolvidos no dia a dia da gestão de uma rede.
2 – A Motriz atua em uma grande diversidade de redes de educação. Que fatores acredita que são mais determinantes para o sucesso do uso adequado de tecnologia educacional?
Se eu pensar em tecnologia para a sala de aula, há algumas pré-condições que precisam ser tratadas com bastante rigor. O professor não pode perder tempo porque a internet não conecta, porque não há computadores suficientes ou porque o tablet não tem memória adequada. Tudo isso gera uma perda de tempo enorme.
Para mim, a primeira pré-condição é ter conectividade e dispositivos funcionando. E isso não é óbvio.
O Brasil hoje tem mais conectividade, o que é muito positivo. O cenário está melhor. Mas ainda vemos desafios importantes, principalmente em relação à disponibilidade de computadores e tablets em boas condições de funcionamento.
Se a gente trouxer isso para a realidade de uma casa, já percebe que não é simples manter um computador funcionando bem, um tablet em boas condições e uma rede de internet estável. É preciso algum conhecimento técnico e cuidado com os equipamentos.
Agora imagine ter um volume grande desses dispositivos dentro de uma escola, sendo manuseado por estudantes que ainda estão aprendendo a utilizá-los. Não dá para subestimar a necessidade de existirem condições adequadas nos territórios e dentro das escolas para que a tecnologia entre em funcionamento sem consumir um tempo absurdo.
Eu vi muito isso quando implementávamos tecnologias educacionais em sala de aula. Às vezes, metade da aula era consumida pelo professor tentando fazer com que todos os estudantes conseguissem usar o computador no momento necessário.
Quando as condições não são boas, você perde muito tempo. Então, para mim, é essencial que existam conectividade e dispositivos funcionando adequadamente para o uso daquela tecnologia.
Também não dá para esperar que o professor precise aprender sozinho, quebrar a cabeça e gastar seu tempo tentando descobrir onde ligar cada cabo ou como fazer determinado equipamento funcionar. Essas coisas são trabalhosas, exigem conhecimentos específicos e, muitas vezes, os equipamentos mudam. No fim, perde-se tempo pedagógico, e o tempo é um dos fatores mais importantes para garantir a aprendizagem.
Superada essa questão de infraestrutura, acho que, para fazer um bom uso da tecnologia em sala de aula, o professor precisa estar muito bem preparado para entender o que aquela ferramenta significa e como fazer a melhor integração pedagógica possível.
Não é a ferramenta que deve ditar como o professor vai dar aula. É o contrário. O professor define o que vai acontecer, qual é o seu planejamento pedagógico e qual é o plano de aula. A tecnologia entra para potencializar esse plano.
Para isso, o professor precisa entender o que a tecnologia faz, qual é o potencial dela, que problema ela resolve dentro daquele plano de aula e o que ela não resolve.
Isso exige uma formação de professores que leve em consideração o uso daquela tecnologia específica. É como acontece com o material didático. Adianta oferecer uma formação completamente desconectada do material que o professor vai usar? Não adianta. O material chega à escola e não conversa com o que o professor está pensando para aquele plano de aula.
Com a tecnologia, é a mesma coisa. A formação precisa estar relacionada ao uso daquela ferramenta.
Quando penso em tecnologias voltadas para a gestão, vejo um cenário diferente. Já existe muita coisa nos territórios. As redes usam sistemas, as secretarias de educação acessam diferentes plataformas e há muitos processos acontecendo ao mesmo tempo.
Quando você chega à escola, também encontra a secretaria escolar, vários sistemas, muitos relatórios e uma série de tarefas já estabelecidas.
Então, para a tecnologia apoiar a gestão, ela precisa estar integrada ao que já existe ou, pelo menos, exercer um papel integrador. Caso contrário, gera muito retrabalho.
É aquela situação em que você está trabalhando e aparece um link para fazer uma tarefa, depois uma planilha para preencher outra, um sistema diferente para acessar e uma nova senha para memorizar. Não dá para pensar em tecnologia para a gestão como simplesmente inserir mais uma ferramenta em um cenário que já está sobrecarregado.
É preciso olhar para o que já existe e perguntar: o que estou substituindo? Que nova tarefa estou trazendo para dentro desse cenário?
Acho que existe também um lugar importante de empatia. É preciso entender exatamente qual é o problema que o gestor, especialmente o gestor público, enfrenta, em vez de fragmentar o trabalho em milhares de soluções que acabam sobrecarregando ainda mais o dia a dia.
3- Que casos de uso são realmente úteis na visão das redes públicas brasileiras. E quais não são?
Essa pergunta é desafiadora. Então vou falar a partir do meu ponto de vista. Eu não estou em sala de aula; sou uma observadora de várias redes públicas de ensino.
Olhando para as tecnologias que chegam à sala de aula, acho que existem alguns casos de uso bastante interessantes hoje. Um deles envolve soluções que dão mais visibilidade ao professor e apoiam suas decisões sobre como avançar com o conteúdo.
Estou pensando especialmente em ferramentas relacionadas à avaliação, que tragam rapidamente informações sobre o que está acontecendo com os estudantes ao longo do processo de ensino e aprendizagem. Com isso, o professor consegue aperfeiçoar seus planos de aula a partir do nível de absorção e compreensão demonstrado pelos estudantes.
Não estou falando de avaliações padronizadas em larga escala, mas de avaliações que possam ajudar o professor no dia a dia da sala de aula.
Quando pensamos em um plano de aula baseado em planejamento reverso, uma das primeiras etapas é definir o que se quer avaliar nos estudantes. Quanto mais rápida e precisa for essa avaliação, mais fácil será entender se aquela aula foi suficiente para desenvolver determinado conhecimento.
Mas é importante não trabalhar essa visibilidade de forma desconectada das outras etapas do trabalho docente. O professor ainda precisa preparar o plano de aula e conduzir a aula de maneira didática, para que os estudantes realmente compreendam o conteúdo ou o conceito apresentado.
Na prática, se você perguntar a um professor se ele sabe quais estudantes estão aprendendo ou não determinado conteúdo, ele provavelmente sabe. O professor conhece a própria turma.
O que essas ferramentas podem trazer é mais assertividade e velocidade. Elas podem ajudar a agrupar estudantes, identificar padrões e pensar no próximo passo necessário para garantir a aprendizagem.
Não podemos subestimar o fato de que o professor tem domínio da sala e sabe quem está compreendendo e quem está com dificuldade. Muitas vezes, o desafio não é apenas ter mais visibilidade, mas reorganizar o plano de aula e os próximos passos a partir do que os estudantes demonstraram.
Vejo, então, um caso de uso interessante na integração entre avaliação e planejamento pedagógico. A avaliação precisa fazer um ciclo de retorno com o plano de aula e com o planejamento do bimestre ou do mês.
Pensando em gestão, também existem casos de uso muito interessantes. Hoje, porém, ainda temos uma gestão pedagógica bastante analógica nas redes.
Os dados de aprendizagem dos estudantes e as informações do acompanhamento pedagógico, tanto nas regionais quanto nas secretarias, circulam de forma muito lenta. Às vezes, estão digitalizados, mas dependem de avaliações em larga escala e de processos demorados. Em outros casos, ainda estão no papel.
Por exemplo: o sistema pode mostrar que determinado estudante está faltando muito, mas, na prática, quem tem essa informação é o diretor. Ela não circula com a velocidade necessária.
Então existe uma oportunidade importante de tornar a gestão pedagógica mais ágil. Identificar quem está em risco de abandono ou quais estudantes não estão apresentando a progressão esperada são tarefas que a tecnologia pode ajudar a acelerar.
Isso pode ser feito integrando diferentes tipos de dados, inclusive informações que a secretaria já precisa ou já possui, como matrícula, frequência e trajetória escolar.
Esse é um campo bastante interessante para o uso de tecnologia. Essas ferramentas podem ajudar secretarias, regionais e diretores a planejarem melhor o que precisa acontecer ao longo do ano, porque terão mais informações para retroalimentar as decisões.
A partir desses dados, será possível entender qual deve ser o próximo passo, que tipo de formação é necessário oferecer aos professores, quais estudantes precisam ser procurados e que intervenções precisam ser feitas.
Vejo, portanto, um caso de uso muito relevante na construção de uma infraestrutura de dados dentro da rede pública de ensino. Uma infraestrutura que informe o trabalho pedagógico, e não apenas reúna dados administrativos, como os de matrícula.
4 – Que dica você daria para quem quer implementar tecnologia na educação?
Acho que o primeiro passo é verificar as pré-condições. É preciso entender que tipo de infraestrutura aquela tecnologia exige e se a rede ou a escola realmente tem as condições necessárias para utilizá-la.
Aqui existe um ponto de atenção muito importante. Quando falamos de tecnologia para a sala de aula, podemos imaginar, por exemplo, uma ferramenta para trabalhar a defasagem dos estudantes. Mas, se o professor gastar mais tempo tentando fazer a tecnologia funcionar do que utilizando-a em favor da aprendizagem, ela pode acabar gerando defasagem justamente em quem não tinha esse problema.
Por isso, é fundamental verificar as condições de infraestrutura antes de implementar a tecnologia.
Também é preciso entender qual problema a escola quer resolver e como a ferramenta será integrada ao projeto pedagógico e ao plano de aula. Nesse processo, diretores e professores são essenciais.
Como os estudantes vão usar a tecnologia? Será em casa ou na escola? Em que momento da aula? Com qual objetivo?
Não adianta predefinir um formato de uso, como estabelecer que a ferramenta deverá ser utilizada uma hora por semana. Isso normalmente não funciona. Pode ser que, em determinado momento, o professor não veja sentido em usar a tecnologia. Em outro, talvez precise de mais de uma hora.
É necessário escutar ativamente professores e diretores para entender como aquela ferramenta pode ser útil dentro da realidade da escola.
O mesmo vale para tecnologias voltadas à gestão. É preciso entender quais sistemas já existem, como as equipes acessam essas ferramentas e qual é o nível de familiaridade delas com tecnologia. Não dá para levar uma solução que se transforme em mais trabalho, em vez de resolver um problema.
Então, para mim, há duas condições básicas: escutar a escola e garantir a infraestrutura necessária.
E eu nem acho que a conectividade seja hoje o maior problema. O que temos visto é que o principal desafio de infraestrutura está na existência de computadores e tablets em boas condições de uso.
Às vezes, a escola tem uma lista de computadores disponíveis, mas, quando você verifica, muitos não estão funcionando. Então é importante conferir o estado real desses equipamentos, e não apenas sua existência no inventário.
Além disso, a tecnologia precisa entrar como parte de um processo pedagógico que já existe. O professor terá de integrá-la ao projeto pedagógico e ao plano de aula. Para isso, precisa conhecer a ferramenta. Caso contrário, ela será usada de maneira artificial, talvez apenas para ocupar os estudantes enquanto o professor corrige provas.
Nesse caso, não conseguimos extrair o melhor que a tecnologia pode oferecer.
A mesma lógica vale para a tecnologia de gestão. Ela precisa estar integrada às práticas de gestão da secretaria.
Imagine que você crie uma tecnologia para capturar dados de aprendizagem e enviá-los para a equipe da Secretaria de Educação. Mas essa secretaria não tem uma rotina de análise desses dados, não faz acompanhamento pedagógico e não existe nenhuma consequência prática a partir das informações.
Nesse cenário, a equipe pode até olhar para os resultados, mas nada vai acontecer. A formação de professores não vai mudar, o acompanhamento não vai mudar e a gestão não vai tomar decisões diferentes.
No fim, é a mesma história de sempre quando falamos de tecnologia: precisamos falar dos processos que a tecnologia vai impulsionar. Não adianta simplesmente colocar uma ferramenta no território e esperar que ela, sozinha, transforme a realidade.
5 – Alguma crença forte que tinha e sua experiência demonstrou estar errada?
Vou trazer uma polêmica, mas acho que ela é importante.
Quando comecei a trabalhar com tecnologia para a sala de aula e vi, pela primeira vez, uma edtech que personalizava a trajetória dos estudantes, pensei: “Pronto, agora todos os problemas vão ser resolvidos”.
A gente sempre teve salas de aula com uma diversidade muito grande. Há estudantes muito defasados, outros mais avançados, e é muito difícil para o professor planejar e conduzir uma aula que alcance todos. Então pensei que a tecnologia resolveria esse problema.
Hoje, porém, não tenho mais essa crença. Não acredito que a tecnologia, sozinha, consiga superar esse desafio. Ela pode ajudar a resolver um problema que o professor não conseguiu solucionar até então, mas não substitui o trabalho docente.
A tecnologia pode apoiar o professor no enfrentamento da diversidade em sala de aula, oferecendo informações mais rápidas, ajudando a organizar os próximos planos de aula e orientando as decisões sobre o que fazer na aula seguinte.
Ela é uma ferramenta de apoio à personalização do ensino, e o professor precisa saber calibrar seu uso ao longo do ano. Não acredito que oferecer, por exemplo, uma hora por mês de uma ferramenta personalizada vá automaticamente corrigir as defasagens de um estudante ou garantir sua recomposição da aprendizagem.
Quando olhamos para estudantes do ensino fundamental, mesmo nos anos finais, vemos alunos de 14 ou 15 anos que ainda não desenvolveram plenamente a autonomia, a capacidade de aprender sozinhos e a resiliência necessárias para usar uma tecnologia e organizar conscientemente seu próprio processo de aprendizagem.
Eles precisam da interação com um adulto e com o professor. É o professor que vai inserir a ferramenta no momento adequado e ajudar o estudante a transformar aquele recurso em uma oportunidade concreta de aprendizagem.
Quando conheci as primeiras soluções, fiquei encantada. Como adulta, inclusive, usei algumas delas e continuo usando. Para um adulto, às vezes, é muito útil recorrer a uma ferramenta para resolver uma lacuna específica de conhecimento, especialmente quando não se sabe exatamente o que sabe e o que não sabe.
Mas não podemos esquecer que, quando falamos de escola, especialmente no ensino fundamental, estamos falando de crianças e adolescentes que ainda estão construindo sua forma de estudar e de aprender.
Muitas vezes, determinado conteúdo parece não ter conexão com nada para o estudante e, por isso, não produz aprendizagem. Nesse processo, a interação com um adulto é fundamental.
Então, quando falamos de ferramentas de personalização do ensino, especialmente agora, com o potencial enorme da inteligência artificial, não podemos esquecer que é necessário ter alguém capaz de conduzir o processo de aprendizagem usando a tecnologia.
É essa pessoa que dá concretude à ferramenta e faz com que ela realmente funcione. A tecnologia, sozinha, não é capaz disso. Ela precisa estar integrada ao planejamento pedagógico e ao trabalho do professor.
Essa compreensão também traz várias implicações práticas. Para implementar uma tecnologia, é preciso envolver os professores, formá-los e entender como eles conseguirão usar aquela ferramenta. Também é necessário garantir as condições de infraestrutura para que o uso aconteça sem exigir que o professor aprenda, ao mesmo tempo, tudo sobre computadores, redes e internet.
Então, hoje, depois de alguns anos acompanhando a implementação de tecnologias e observando mais de perto o dia a dia de redes públicas em uma escala maior, é assim que enxergo essa questão. A tecnologia pode ajudar bastante, mas não substitui a interação humana nem o papel do professor.
Edtechs
Brasil
Aplicativo estadual de correção de avaliações diagnósticas pela câmera do celular
Lançado em 2019 pela Secretaria de Estado da Educação do Paraná, o Corrige foi desenvolvido pelo Departamento de Tecnologia e Inovação Educacional da própria secretaria e permite corrigir provas em poucos segundos pelo celular. Foi construído em parceria com a Secretaria de Educação de São Paulo, que mantinha um aplicativo com a mesma finalidade. Roda em Android e está disponível na rede estadual para diretores, diretores auxiliares, pedagogos, secretários e docentes.
A avaliação que ele corrige também é construída internamente. A Prova Paraná é elaborada pela própria Seed-PR e serve ao trabalho de professores, equipes gestoras e secretarias municipais. Na segunda edição de 2025 alcançou mais de 1,1 milhão de estudantes, na rede estadual e nas redes dos 397 municípios que aderiram, com aplicação em formato impresso.
A arquitetura é o ponto interessante: papel na aplicação, digital na devolutiva. A escola não precisa de laboratório funcionando nem de banda estável no dia da prova, e ainda assim o dado chega rápido a quem vai reorganizar o plano de aula.
Busca Ativa Escolar
Plataforma intersetorial de identificação e reinserção de crianças fora da escola
Estratégia composta por uma metodologia social e uma ferramenta tecnológica, oferecidas gratuitamente a estados e municípios, desenvolvida pelo UNICEF em parceria com a Undime e com apoio do Congemas e do Conasems, lançada em 2017. O Instituto TIM participou da construção da solução tecnológica original que foi lançada como software livre.
A plataforma permite que qualquer pessoa envie informações sobre crianças e adolescentes fora da escola pela internet, por aplicativo ou por SMS, e uma equipe intersetorial local assume as medidas necessárias para matrícula, permanência e aprendizagem. A composição intersetorial reúne educação, saúde, assistência social e planejamento, o que permite tratar as causas da exclusão que estão fora da escola.
Até agosto de 2025, 300 mil crianças e adolescentes tinham voltado à escola por meio da iniciativa. A estratégia conta com parceria de EDP e Instituto BRK, do Instituto Solea, e apoio da B3 Social e da Fundação Bracell, esta com foco em educação infantil.
Brasil
Software de medição contínua da qualidade da internet em escolas públicas
Desenvolvido pelo Ministério da Educação em parceria com o NIC.br, usa a tecnologia do SIMET, sistema de medição de tráfego criado pelo Ceptro.br. É instalado em um computador da escola, de preferência um que fique ligado e conectado à mesma rede usada por estudantes e professores. As medições rodam automaticamente a cada 3 horas em média, sem necessidade de interferência do usuário, e registram velocidade de download e upload, latência e estabilidade. A instalação é gratuita.
Em 2025, o país chegou a 109,9 mil escolas públicas com o medidor instalado, das quais 102,9 mil registraram medições ativas ao longo do ano, cerca de 74,7% do total. O medidor é hoje o instrumento de acompanhamento da Estratégia Nacional de Escolas Conectadas, lançada em 2023, e a MegaEdu participou do processo de construção da Estratégia: um estudo de conectividade que a organização produziu com o Boston Consulting Group serviu de referência para sua elaboração, e desde 2023 ela colabora com o Ministério da Educação em ações estruturais de conectividade, com apoio técnico a escolas e secretarias. (A Fundação Lemann financia a MegaEdu e sou conselheiro da organização.)
Como vimos na conversa com a Fernanda, ter dados que informem e permitam acompanhar as pré-condições é algo fundamental e por isso a relevância da tecnologia criada para esse monitoramento.
Rapor Pendidikan
Plataforma governamental de diagnóstico escolar alimentada por bases de dados já existentes
Indonésia
Construída pelo GovTech Edu, time de produto dentro do Ministério da Educação da Indonésia, e lançada oficialmente em abril de 2022. A unidade escolar não faz nenhum preenchimento de dados na aplicação: as informações são puxadas de sistemas e fontes que já existem, como o Dapodik, o SIMPKB, a Avaliação Nacional e o instituto de estatística. A plataforma opera em três recortes: o boletim da escola, acessível apenas a ela; o do governo local, acessível à secretaria; e o nacional, aberto a qualquer cidadão.
A integração é deliberada. O diretor de tecnologia do GovTech Edu descreve que a plataforma de formação docente, o Rapor Pendidikan e o aplicativo de orçamento escolar estão integrados por pertencerem ao mesmo ecossistema, e que quando o resultado de numeracia de uma escola aparece baixo no boletim, o caminho de melhoria já se conecta à plataforma de formação. A tela do diagnóstico traz recomendações de melhoria que já estão integradas à plataforma de ensino.
Diagnóstico, formação de professores e orçamento no mesmo fluxo é a resposta mais direta que existe hoje à multiplicação de sistemas, senhas e planilhas nas redes. Vale registrar que a Indonésia montou um time de engenharia interno para isso, em vez de contratar plataforma pronta.
EUA
Software livre de avaliação e observação de aula, offline, em tablets de baixo custo
Criado pela RTI International a partir da experiência de aplicar avaliações de leitura e matemática dos anos iniciais em papel, com todos os problemas de qualidade e demora que isso gerava. Foi lançado em 2011 como software livre sob licença GNU General Public License. O piloto original aconteceu no Quênia, dentro de uma iniciativa de leitura e matemática financiada pela USAID.
São três produtos conforme o público: o Class, usado por professores para acompanhar aprendizagem com avaliações formativas curtas ao longo do período letivo, e o Tutor, usado por coaches e tutores em avaliações rápidas e observações de aula durante visitas de apoio à escola, cujos dados alimentam a devolutiva que o coach dá ao professor. A coleta acontece offline e sincroniza com o servidor quando há conexão disponível.
Foi usado por mais de 80 organizações em 65 países e mais de 100 idiomas, somando mais de 2 milhões de avaliações e pesquisas. A RTI oferecia assinatura cobrindo hospedagem e suporte, mas o código pode ser baixado do GitHub e instalado em servidor próprio gratuitamente. Em novembro de 2025, a RTI transferiu a gestão da plataforma para a Tangerine Central, empresa criada pelas próprias autoras da ferramenta, que passa a oferecer gestão centralizada de dados, painéis personalizáveis e armazenamento em nuvem a ministérios da educação, organizações e pesquisadores. A versão voltada a coaches, usada em observações de aula durante visitas de apoio à escola, é o exemplo mais direto de tecnologia construída para o acompanhamento pedagógico, e não para a sala de aula.
Zeraki
Análise de dados acadêmicos e gestão administrativa para escolas
Quênia
Fundada em 2014 em Nairóbi. Começou como plataforma digital de aprendizagem para o ensino médio, com quizzes e acompanhamento de desempenho, e ganhou tração durante a pandemia, quando o centro de gravidade migrou para dados e administração escolar.
O Zeraki Analytics acompanha frequência ao longo do período, permite lançar resultados de avaliação pelo aplicativo, gera planilhas e boletins em PDF, envia mensagens de texto para várias famílias de uma vez e dá acesso às famílias aos registros acadêmicos e ao saldo de mensalidade. Complementam o catálogo o Zeraki Finance, para contas da escola, e o Zeraki Timetables, ferramenta de grade horária integrada ao Analytics.
Mais de 4 mil escolas no Quênia usam o Zeraki Analytics. A empresa captou US$ 2,2 milhões no total, com rodada seed de US$ 1,8 milhão em 2022 liderada pela Acumen, com participação do Save the Children Impact Investment Fund, e opera em Quênia, Uganda e Guiné. Vale a nota final: a própria empresa aponta a falta de acesso a dispositivos digitais nas escolas como um de seus maiores desafios, já que a maioria proíbe celular e não tem oferta de um computador por estudante.

O educador21 amplia sua parceria com Guilherme Cintra, colunista da Tecnologia que Humaniza, ao trazer para o portal os conteúdos do EdTech da Semana. A iniciativa realiza um mapeamento contínuo das principais tendências, tecnologias e empresas que transformam a educação no Brasil e no mundo. Todos os textos são reproduzidos do site original.










