No primeiro dia do International Education Summit, debates sobre currículo, tecnologia e equidade mostraram que conectar a escola ao mundo exige mudanças dentro dela
O primeiro dia do International Education Summit 2026 colocou o currículo no centro da discussão sobre internacionalização da educação básica. Realizada nesta quinta-feira (10), no Centro Paula Souza (CPS), em São Paulo, a programação questionou uma concepção ainda comum nas escolas: a de que educação internacional se resume ao ensino de inglês, intercâmbios ou programas estrangeiros.
Na cerimônia de abertura, representantes do CPS defenderam que a dimensão global precisa partir da realidade vivida pelos estudantes. A proposta é ampliar repertórios sem substituir referências locais por modelos externos. “Internacionalizar a educação não significa afastá-la da nossa realidade local; significa ampliar a capacidade de compreender o território e conectá-lo ao mundo”, afirmou Maycon Geres, vice-presidente da instituição.
A discussão também expôs o risco de transformar a internacionalização em produto. Lara Crivelaro, CEO da Efígie Academy, idealizadora do Summit e colunista do educador21 na Coluna Educação Global, defendeu que idioma e mobilidade sejam tratados como meios dentro de uma proposta pedagógica mais ampla. “Internacionalização não é idioma; o idioma é ferramenta. E não é viagem, porque a viagem é consequência; é a capacidade de olhar para o mundo e entender o local”, afirmou Lara.



Na keynote sobre internacionalização dos currículos da Educação Básica, Juares da Silva Thiesen, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), levou a discussão para o currículo. “É praticamente impossível você falar de internacionalização na educação básica sem colocar o currículo como centralidade, como núcleo fulcral de toda a formação humana”, disse. Para o pesquisador, a internacionalização não deve chegar à escola como um pacote pronto de conteúdos ou modelos externos.
O argumento ganhou dimensão prática no painel “O currículo que o mundo exige e a escola ainda não tem”. Mediado por Rita Ladeia, o debate reuniu Cris Mori, do Singularidades, Bruna Tadross, da Changemaker, e Andrea Camiña, fundadora e educadora da Robolae. Letramento, formação docente, tecnologia e autoria apareceram como sinais de uma distância entre o currículo formal e as demandas vividas pelos estudantes. Bruna citou uma pesquisa com jovens de 13 a 15 anos: a maioria não se considera agente de transformação na vida real.
Tecnologia entre acessibilidade e inteligência artificial
A tecnologia entrou no primeiro dia do Summit como parte de uma discussão sobre as condições para tornar a educação global acessível e significativa. As sessões abordaram barreiras de acesso e participação, além dos efeitos da inteligência artificial sobre o trabalho pedagógico. O debate mostrou que incorporar ferramentas digitais exige infraestrutura, formação docente e intencionalidade.
Na palestra “Inovação e Tecnologia a serviço da educação global acessível”, Eduardo Leite (Rocas/ReadSpeak) destacou que os recursos de acessibilidade beneficiam toda a comunidade escolar. “Não é só quem tem a dificuldade que vai se beneficiar da tecnologia de acessibilidade”, afirmou. E Beatriz Zancaner (Grão Edu) chamou atenção para os obstáculos que ainda estão no cotidiano das escolas: “Vemos muita barreira na prática, o chão da escola precisa aderir à tecnologia”.
A infraestrutura, porém, não resolve sozinha a questão. Conectividade, preparo dos professores e apoio da gestão apareceram como condições para que a tecnologia reduza barreiras, em vez de criar novas dificuldades. A discussão também apontou que a escola precisa reconhecer obstáculos que nem sempre são percebidos por quem não enfrenta diretamente essas limitações.


No painel “IA e Educação: o que continua sendo humano?”, George Stein (PedagogIA), Gisele Pinheiro (Singularidades) e Rita Márcia Tacia (Unifesp) discutiram o impacto da inteligência artificial na aprendizagem. Para Gisele, a velocidade proporcionada pelas ferramentas não pode ser confundida com qualidade. “O que faz a sala de aula ser um espaço vivo são as relações humanas; e a intencionalidade pedagógica é de responsabilidade estritamente docente”, disse.
Stein, autor da Coluna Transformação Continuada no educador21, destacou que a expansão da IA aumenta a responsabilidade da escola em desenvolver repertório e critério nos estudantes. Rita Márcia Tacia acrescentou que uma ferramenta pode responder ao “não sei”, mas não identifica sozinha a origem da dificuldade. “O afeto é insubstituível na aprendizagem”, afirmou.
Internacionalização precisa chegar à escola inteira
A equidade ampliou o debate sobre internacionalização para além do intercâmbio. As experiências apresentadas mostraram caminhos para criar contato com outras culturas dentro da própria escola, inclusive na rede pública. A questão deixou de ser apenas quem consegue viajar e passou a envolver quem pode ter acesso a experiências globais no cotidiano escolar.
No painel “Internacionalização para todos?”, Lidiane Cirillo apresentou o Conexão São Paulo, desdobramento do programa estadual Prontos pro Mundo. A iniciativa recebe estudantes do Canadá, da Irlanda, Nova Zelândia e Itália em escolas públicas paulistas. “O grande desafio foi dizer: agora queremos trazer alunos do mundo para as escolas públicas do Estado de São Paulo”, afirmou a chefe do DPIN na Seduc-SP.
A experiência também alterou a dinâmica das escolas participantes. Segundo Lidiane, a chegada dos estudantes estrangeiros mobilizou professores e funcionários e despertou interesse por idiomas e culturas. A meta apresentada para 2030 é receber mil estudantes internacionais por ano na rede pública paulista, igualando o número de alunos enviados ao exterior.


Os desafios de transformar essa agenda em prática apareceram também nos relatos de Anderson Leal, da Rede Salesiana, e Márcia Pedro’Ângelo, da Unicus. Os gestores destacaram diferenças entre redes, pressão das famílias e necessidade de buscar referências em missões internacionais. “Quanto maior a capilaridade da rede, maior a dificuldade de fazer um projeto funcionar totalmente”, afirmou Anderson.
Já no painel “Papel do Counselor: de orientador a agente de transformação institucional”, Nicole Ribeiro (Sphere International School), Michel Franklin (Centro Paula Souza) e Cibele Alonso (Miguel de Cervantes) discutiram uma função que ultrapassa a orientação para universidades estrangeiras.
O counselor articula projeto de vida, orientação acadêmica, famílias e parcerias internacionais, inclusive para estudantes que não viajarão. “Internacionalizar não é só fazer intercâmbio cultural para aprender idioma; é criar mobilidade virtual e experiências dentro da escola para quem não quer ou não pode viajar”, afirmou Michel.
Ao final do primeiro dia, o debate deixou uma questão concreta para as escolas: como ampliar a dimensão internacional sem transformar a agenda em produto ou experiência restrita. Currículo, tecnologia, equidade e gestão apareceram como partes de uma mesma mudança. A internacionalização, nesse cenário, começa dentro da escola e depende das escolhas que ela faz sobre formação, acesso e participação.
Nota da Redação: Viajamos Para São Paulo a convite da Efígie Academy. As coberturas especiais do educador21 contam com o apoio da Samsung, que disponibilizou para nossa equipe o uso de tablets nas reportagens em campo. A parceria envolve exclusivamente a cessão de equipamentos, e não interfere na independência editorial do portal.










