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Guilherme Cintra analisa os dilemas da inteligência artificial na educação a partir de experiências e debates no Uruguai, abordando aprendizagem, relações humanas, soberania cognitiva e valorização dos professores

Estive este mês em Montevidéu, no Uruguai, para o evento EduIA, do Ceibal, organização uruguaia que é o centro de inovação educacional do país. Criada em 2007, é uma referência mundial em inclusão digital e fez do nosso país vizinho o primeiro do mundo a garantir um computador a cada estudante do primário da rede pública.

O sucesso da política é derivado de alguns fatores-chave: desde o início a instituição tem uma visão de que a tecnologia pode ser uma propulsora de desigualdades. Por isso, o Ceibal sempre teve como propósito reduzir as “brechas digitales”, em suas palavras. Além disso, o país tem uma invejável estabilidade política e uma governança que dá autonomia à organização que visitamos.

Isso permite aos nossos anfitriões se posicionarem para pensar a próxima década. Em uma era de tamanha instabilidade em tantos sentidos, a visita ao Ceibal nos permitiu parar e olhar adiante. 

O evento EduIA, que está em sua terceira edição, ilustra um arco claro de como as discussões em torno da Inteligência Artificial (IA) têm mudado. Após o lançamento do ChatGPT, em novembro de 2022, todo evento a que eu ia era sobre as maravilhas que a IA promoveria na educação,em um momento em que estávamos começando a compreender a IA generativa. Não à toa, em 2024 houve uma conferência centrada em entender a tecnologia e em 2025 já se começou a discutir casos de uso práticos. Mas agora, em 2026, a discussão tornou-se mais sistêmica: quais capacidades são necessárias para adoção, com propósito, da IA?

O que o encontro reforçou foi que, quanto mais a IA avança, menos a discussão cabe apenas no plano técnico. As perguntas que dominaram o evento foram sobre o esforço de aprender, as relações entre pessoas, a autonomia de países e indivíduos e a desigualdade.

O que as evidências já mostram

Alguns estudos passaram a ser citados tantas vezes que começam a tornar-se canônicos. Juntos, representam um corpo que, se ainda traz muito mais dúvidas que certezas, começa a mostrar que, em diversos contextos, alguns padrões se repetem. Em resumo: IA generativa sem qualquer tipo de salvaguarda leva à redução da aprendizagem¹ ², algo relacionado ao que tenho chamado na coluna de Fricção Cognitiva Ótima. Simultaneamente, existe potencial, principalmente em países com poucos recursos humanos, onde a IA, usada com a mediação de professores, amplia o apoio aos estudantes³ ⁴. E essa é outra evidência: os bons resultados vêm de desenhos com um humano por perto, em que a IA apoia educadores em vez de substituí-los.⁵ ⁶

A ideia por trás da Fricção Cognitiva Ótima é simples: aprender exige esforço na medida certa, e a tecnologia útil calibra esse esforço sem eliminá-lo. O exemplo mais claro do evento veio do Paquistão. Com um assistente de IA, professores passaram a planejar uma aula em um ou dois minutos, em vez de cerca de uma hora.⁷ Uma primeira leitura leva à conclusão de que foi um ótimo resultado. Entretanto, os próprios responsáveis pelo projeto reconheceram o custo: com a eficiência, diminuiu também a reflexão do professor sobre a aula que ia dar. É essa reflexão que permite a ele  não só se desenvolver como atender seus alunos com um contexto que só ele domina.

A relação no centro

Mercedes Mateo, chefe da Divisão de Educação do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), resumiu a relevância da manutenção das relações humanas como centro da educação da seguinte forma: “a IA nunca deve ser o adulto na sala”. Foi muito explícita ao afirmar que a IA usada por estudantes não deve ter nenhum traço de vínculo emocional ou função de companhia. Chama atenção, portanto, a declaração de um estudante uruguaio de cerca de 13 anos, que alertou os adultos na sala de que, por vezes, a IA soa muito mais empática do que seus próprios professores. O mesmo estudante defendeu preservar o espaço das relações com pessoas, porque há questões que vão além das acadêmicas. Sua fala traz duas reflexões. Regular a IA pode ser fundamental para evitar a disrupção das relações humanas. Mas, se uma máquina parece mais acolhedora que os adultos, também precisamos nos perguntar que lições tirar daí. Em uma das conversas que tive, um colega colombiano trouxe o princípio que norteia sua organização de inclusão digital: “tanta tecnologia quanto for útil;tanta conexão humana quanto possível.”

Soberania, do país à pessoa

Soberania aqui se dá em diferentes níveis. Usualmente, ouvimos esse tema relacionado a geopolítica, o que também foi discutido. Com representantes de 15 países, da América Latina, da América do Norte, da Europa, da Ásia e da África, o consenso foi de que soluções não contextualizadas têm utilidade limitada. Por isso, usar modelos de IA treinados para a cultura e o idioma de cada lugar, em soluções desenhadas para o Sul Global, é visto como necessário desde o início.

Mas há também a soberania cognitiva. Esse termo se refere à capacidade de, ao interagir com modelos de IA, conseguir ser crítico, o que exige educação e letramento digital. Um exemplo de como esses elementos se misturam foi uma conversa que tive com um colega do Sri Lanka. Ele me contou que, se você buscar informações sobre seu país, provavelmente encontrará informações que focam muito na questão da Guerra Civil que assolou o país entre 1983 e 2009. Entretanto, o que você não saberia, segundo o meu interlocutor, é que a visão ali representada é de um grupo específico, a diáspora tâmil, que deixou o país durante a guerra e se concentrou em países ricos, como Canadá e Reino Unido, com maior representatividade no corpus de treinamento das IAs generativas. Isso gera questões geopolíticas e afeta diretamente a compreensão dos próprios srilanqueses sobre sua história. É aqui que a soberania do país e a da pessoa se encontram. Sem formação crítica, quem pergunta à IA sobre a própria história não tem como saber de quem é a versão que recebe.

Quem ganha e quem perde

Um dos grandes pontos de reflexão tem relação com os resultados das evidências que já comentei: os locais com resultados mais positivos são, precisamente, aqueles onde as condições iniciais de formação e acesso a professores são mais frágeis. Nesses casos, a IA é um importante instrumento de apoio a esses educadores. Entretanto, uma preocupação necessária é que o uso de tecnologia não seja uma justificativa para que não se corrijam os elementos mais estruturantes desses sistemas educacionais. Em um cenário distópico levantado durante uma discussão, o contato humano torna-se um bem de luxo. Num mundo com falta de professores, isso não parece ficção científica, e é um risco a se evitar.

Ben Gomes, chefe de Aprendizagem e Sustentabilidade do Google, contou que o pedido que mais ouve dos professores é que o tempo poupado pela IA não vire mais trabalho. A preocupação é que, no lugar de liberar tempo para que o professor possa efetivamente descansar, se criem novas funções. É um fenômeno usual chamado de Paradoxo de Jevons⁸. Eu sempre refleti sobre a liberação de tempo dos professores para que pudessem dedicar-se mais às relações com os alunos, algo fundamental. Entretanto, é importante refletir que talvez tão relevante quanto isso seja conseguir liberar tempo para o professor ter uma vida mais equilibrada. Como disse acima, faltam professores, e pesquisas mostram que o estresse e a carga de trabalho estão entre os fatores ligados à vontade de deixar a profissão.⁹

Volto do Uruguai com uma sensação ambivalente. Feliz em ver o quanto a discussão está mais madura do que o entusiasmo acrítico do início desse debate. Mas também com a clareza de que temos muito mais perguntas que respostas.

A certeza que tenho, entretanto, é que essas respostas virão exatamente do tipo de discussão global da qual tive o privilégio de fazer parte. E com a clareza de que as soluções serão locais.

Mercedes Mateo encerrou sua fala dizendo que é na educação que a sociedade vai decidir o que é ser humano. Saí de Montevidéu convencido de que essa é a conversa sobre IA que realmente importa.

Notas

  1. Turquia, cerca de mil estudantes do ensino médio. Com o ChatGPT comum, foram 48% melhor nos exercícios e 17% pior na prova feita sem IA. A versão que dava pistas em vez de respostas evitou a perda. Bastani e colegas, PNAS, 2025
  2. MIT, 54 participantes. 83% dos que escreveram redações com o ChatGPT não conseguiram citar um trecho do próprio texto minutos depois, contra 11% nos outros grupos. Preprint, 2025
  3. Nigéria, estado de Edo. Seis semanas de tutoria com IA em duplas, com um professor conduzindo cada sessão. Efeito de cerca de 0,3 desvio padrão. VoxDev, Banco Mundial, 2026
  4. Gana. Tutor de matemática por WhatsApp em celulares básicos, com efeito de 0,37 desvio padrão. Henkel e colegas, 2024
  5. Estados Unidos. Uma IA que sugere a tutores humanos como conduzir a sessão elevou em 9 pontos percentuais o domínio do conteúdo entre os alunos dos tutores menos qualificados. Wang e colegas, 2024
  6. Reino Unido, 165 estudantes. O modelo do Google redigia as mensagens e tutores humanos revisavam cada uma. Com esse apoio, 66% resolveram problemas novos, contra 61% só com tutores humanos. Estudo feito pela própria empresa. arXiv, 2025
  7. Paquistão, com a Taleemabad. Mais de 200 professores ajudaram a desenhar um assistente no WhatsApp que monta planos de aula alinhados aos livros didáticos. Segundo os próprios professores, o tempo de planejamento caiu de cerca de uma hora para um ou dois minutos. A ressalva sobre a perda de reflexão foi feita pelos apresentadores no evento, e o programa não mediu aprendizagem. EdTech Hub, 2026
  8. Paradoxo de Jevons. Em 1865, no livro A questão do carvão, o economista inglês William Stanley Jevons observou que máquinas a vapor mais eficientes não reduziram o consumo de carvão na Inglaterra. Ao baratear o uso, a eficiência multiplicou as aplicações, e o consumo total subiu. Por extensão, ganhos de eficiência tendem a ser absorvidos por mais demanda. Na escola, a hora que a IA poupa no planejamento pode virar mais uma planilha, mais um relatório, mais uma reunião. Verbete
  9. TALIS 2024, pesquisa da OCDE com professores. Na média da OCDE, 19% dos professores relatam muito estresse no trabalho, e o trabalho administrativo é fonte de estresse para 52%. Professores mais estressados têm maior intenção de deixar a profissão: 17% dos que não estão perto da aposentadoria pretendem sair em até cinco anos, e 20% entre os com menos de 30 anos. A satisfação com o trabalho e o sentimento de ser valorizado pesam mais nessa intenção do que o salário. No Brasil, 21% relatam muito estresse, contra 14% em 2018, e o impacto na saúde mental supera a média da OCDE. OCDE · Internacional da Educação · Agência Brasil

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