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Marcos Santos Mourão (Marcola), coordenador dos especialistas e professor de Corpo em Movimento, apresenta uma experiência de formação continuada baseada na observação entre pares e na análise das aprendizagens das crianças

Marcos Santos Mourão (Marcola)*

Há algum tempo, venho me perguntando qual é o melhor lugar para começar uma formação de professores. Em geral, quando pensamos em formação continuada, partimos de um tema: avaliação, inclusão, tecnologia, relações étnico-raciais, novas metodologias. A partir daí, buscamos textos, especialistas, cursos e organizamos encontros. No trabalho que estamos desenvolvendo com os professores especialistas dos anos iniciais do espaço ekoa, fizemos uma escolha um pouco diferente. Começamos por aquilo que acontece nas aulas.

A proposta deste semestre é que os próprios professores possam observar uns aos outros em situações reais de trabalho. Primeiro, construímos coletivamente uma pauta de observação. Depois, nos horários de trabalho pedagógico, um professor acompanha a aula de um colega. Nas reuniões pedagógicas, essa experiência retorna para o grupo e é discutida entre os pares. A observação não tem caráter avaliativo. Esse ponto foi importante desde o início, porque sabemos que a presença de outro adulto em uma sala de aula pode facilmente ser entendida como uma forma de acompanhamento ou julgamento. O que estamos tentando construir é outra relação com a observação: olhar para a aula para compreender melhor o que acontece nela.

Quem observa passa a prestar atenção em aspectos que nem sempre consegue perceber quando está conduzindo sua própria aula. Quem é observado tem a oportunidade de explicar escolhas, comentar situações que aconteceram e, algumas vezes, perceber aspectos de seu trabalho que não havia considerado.

No plano de formação dos especialistas, chamamos esse primeiro eixo de “Observar a prática para aprender com ela”. Um dos aspectos que têm aparecido nas nossas conversas é a dificuldade de olhar para a própria aula enquanto estamos dando aula. O professor está envolvido com o planejamento, com a organização do espaço, com os materiais, com as intervenções e com as respostas das crianças. Muitas coisas acontecem simultaneamente. Por isso, observar a aula de um colega pode uma oportunidade de aprendizagem. É possível perceber como uma intervenção favoreceu a participação de uma criança, como uma mudança no encaminhamento alterou a dinâmica do grupo ou como algumas crianças encontraram maneiras diferentes de se envolver com a proposta.

A conversa deixa, então, de ser apenas sobre o professor. Passa a envolver também as crianças e seus processos de aprendizagem. Esse aspecto é especialmente importante no trabalho dos especialistas. No ekoa, estamos falando de professores de Artes do Corpo, Corpo em Movimento, Música, Linguagens Visuais e Línguas Estrangeiras. São áreas com características próprias e, ao mesmo tempo, com uma questão comum: como reconhecer e documentar aquilo que as crianças estão aprendendo? Em muitas situações, é mais fácil registrar aquilo que a criança produziu do que compreender o processo que levou até aquela produção. Uma fotografia, um desenho, uma apresentação, uma sequência de movimentos ou uma atividade realizada mostram parte do que aconteceu, mas não necessariamente mostram o que a criança aprendeu.

Por isso, o segundo eixo da formação está relacionado a tornar mais visíveis as aprendizagens. Estamos conversando sobre critérios de avaliação, avaliação formativa, registros e portfólios, procurando entender de que maneira esses instrumentos podem contribuir para a análise do percurso das crianças. Tenho percebido que essa discussão sobre avaliação muda quando parte de situações concretas. Em vez de começar perguntando qual instrumento vamos utilizar, podemos começar perguntando o que queremos compreender sobre a aprendizagem. O que estamos observando? Que evidências temos? São perguntas que ajudam a orientar o planejamento das próximas atividades e a perceber que a avaliação está presente em diferentes momentos do trabalho docente: quando observamos uma criança, interpretamos uma resposta, decidimos intervir ou modificamos uma proposta a partir do que percebemos.

Para mim, essa discussão também reforça a importância do coletivo. Não considero que a formação de professores seja uma responsabilidade exclusiva de quem coordena. Cabe à coordenação organizar o percurso, trazer referências, provocar discussões e ajudar a equipe a manter alguns focos. Mas uma parte importante do conhecimento necessário para o trabalho está na própria equipe. Um professor conhece situações que outro ainda não viveu. Um especialista pode ter encontrado uma solução para um problema que outro está começando a enfrentar.

Para isso, é preciso que exista espaço para falar sobre o trabalho sem transformar cada experiência em uma apresentação de bons resultados. Nas reuniões pedagógicas, temos procurado reservar esse espaço para estudar situações da prática, observar registros, conversar sobre as experiências dos professores e construir alguns referenciais comuns.

Os produtos desse percurso são importantes: uma pauta institucional de observação entre pares, referências para documentação pedagógica, princípios para os portfólios e um repertório de práticas dos especialistas. Mas, neste momento, tenho mais interesse em perceber se estamos conseguindo mudar a maneira como conversamos sobre o trabalho. Mais do que produzir esses materiais, queremos que as trocas entre os professores contribuam para rever escolhas, identificar aprendizagens e repensar o planejamento das aulas.

Tenho trabalhado com formação de professores há bastante tempo e, ao longo desse percurso, fui entendendo que a formação docente depende muito das condições que a escola oferece para que os professores possam estudar, conversar, observar o trabalho dos colegas e analisar aquilo que estão fazendo. Essa não é uma questão pequena no cenário educacional brasileiro. Dados do Inep mostram que, em 2024, 42,7% dos professores da educação básica haviam realizado algum curso de formação continuada, considerando cursos com carga horária mínima de 80 horas. Em 2013, esse percentual era de 30,6%. Houve, portanto, um avanço, mas o dado também mostra que a formação continuada ainda precisa ocupar um lugar mais permanente na organização do trabalho educativo.

No fim, a questão que temos discutido com os especialistas é bastante concreta: o que estamos aprendendo enquanto ensinamos? Ainda não temos uma resposta pronta. E talvez seja importante que continue assim por algum tempo.

_*Coordenador dos especialistas e professor de Corpo em Movimento no _espaço ekoa

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