Para 2027, escolas precisam integrar rastreabilidade, critérios ambientais e uso equilibrado de recursos físicos e digitais às decisões de compra
Débora Thomé
A escolha do material didático para 2027 exige dos gestores escolares uma análise que vai além do preço, do prazo de entrega e da qualidade pedagógica. A sustentabilidade também passa a integrar essa decisão, com atenção à origem das matérias-primas, às práticas ambientais dos fornecedores e à eficiência no uso de recursos. O desafio é incorporar esses critérios à rotina de compras sem comprometer o orçamento nem a experiência de aprendizagem dos estudantes.
Essa mudança amplia a responsabilidade das lideranças educacionais. Além de selecionar soluções alinhadas ao projeto pedagógico, diretores e mantenedores precisam avaliar como os materiais são produzidos e quais evidências sustentam as alegações de responsabilidade socioambiental dos fornecedores. A coerência entre o discurso institucional e as práticas efetivas também ganha relevância diante de famílias que valorizam a formação integral dos estudantes e esperam que as escolas traduzam seus princípios em decisões concretas.
Para Morgana Batistella, diretora de Soluções Complementares e da plataforma par na Cogna Educação, a escolha deve combinar aprendizagem, eficiência operacional e responsabilidade socioambiental. “A escolha de uma solução educacional deve considerar não apenas o que ela entrega em sala de aula, mas também como contribui para a gestão da escola, para a experiência de aprendizagem e para uma utilização mais consciente dos recursos”, afirma.
A perspectiva para 2027, segundo a executiva, é consolidar uma visão de longo prazo. Isso significa avaliar o conjunto de benefícios de cada solução, considerando as necessidades pedagógicas, a previsibilidade financeira e os impactos associados à produção e ao uso dos materiais. Para escolas de pequeno e médio porte, a adoção desses critérios não precisa começar com auditorias complexas. Procedimentos objetivos e documentos verificáveis podem ajudar a qualificar as decisões.
Rastreabilidade e fornecedores entram na rotina de compras
Um dos primeiros passos é verificar a procedência dos insumos utilizados na produção dos materiais didáticos. No caso do papel, Morgana recomenda que as escolas solicitem documentos que comprovem a origem das matérias-primas e a regularidade das certificações ambientais apresentadas pelos fornecedores.
A análise, porém, não deve se limitar à presença de um selo na embalagem ou em materiais institucionais. “É importante conferir a validade da certificação, identificar a empresa ou unidade produtiva abrangida e verificar se existe uma relação demonstrável entre o insumo certificado e o produto adquirido”, disse. Declarações formais e informações de rastreabilidade também podem contribuir para essa avaliação.
A mesma lógica pode orientar a seleção de fornecedores de outras categorias. Além de preço, prazo de entrega e qualidade, as escolas podem incluir critérios relacionados à origem das matérias-primas, à redução de desperdícios, ao uso eficiente de recursos e à destinação de resíduos. A recomendação é estabelecer requisitos compatíveis com a realidade da instituição e com as características de cada contratação, incorporando as perguntas ambientais ao processo de cotação.
Na Cogna e na plataforma par, de acordo com Morgana, 100% dos fornecedores envolvidos na cadeia de papel mantêm certificação. A exigência está relacionada à produção de livros e materiais didáticos das editoras Saraiva, Atual, Ática e Scipione. A executiva também informa que o relatório integrado de 2025 da Cogna registra a adoção de critérios de rastreabilidade para verificar a origem responsável dos insumos utilizados nos materiais didáticos.
O exemplo mostra como critérios ambientais podem integrar os processos de uma organização de grande porte. Para gestores escolares, a aplicação prática consiste em solicitar evidências, estabelecer requisitos proporcionais à contratação e comparar fornecedores com base em um conjunto de critérios, em vez de considerar apenas o menor preço ou declarações genéricas de sustentabilidade.
Hibridismo exige equilíbrio entre aprendizagem e recursos
A digitalização também faz parte dessa discussão, mas a redução do consumo de papel não deve ser tratada como objetivo isolado. A escolha entre materiais físicos e digitais precisa considerar a finalidade pedagógica de cada recurso, a faixa etária dos estudantes e as condições de uso na escola.
O material impresso continua relevante para atividades que envolvem leitura aprofundada, escrita manual, resolução de exercícios e construção de repertório. Os recursos digitais, por sua vez, podem complementar o trabalho com conteúdos interativos, simulações, vídeos, atividades adaptativas e ferramentas de acompanhamento da aprendizagem.
Na avaliação de Morgana, o hibridismo permite combinar essas possibilidades conforme as necessidades da instituição. “A plataforma par reúne recursos multimodais e oferece flexibilidade para o uso de materiais físicos e digitais”, pontuou Morgana. A decisão, portanto, deve partir dos objetivos educacionais, e não de uma substituição indiscriminada de um formato por outro.
Essa abordagem também ajuda a evitar uma interpretação simplificada da sustentabilidade. A adoção de ferramentas digitais não elimina a necessidade de avaliar seus impactos, assim como o uso de papel não determina, por si só, que uma solução seja ambientalmente inadequada. O critério central é a adequação dos recursos à aprendizagem, acompanhada de escolhas conscientes sobre produção, consumo e operação.
Para evitar o greenwashing — quando uma organização apresenta uma imagem ambientalmente responsável sem evidências suficientes para sustentá-la —, Morgana recomenda que os gestores procurem informações verificáveis sobre a origem dos materiais, os processos produtivos e os resultados alcançados. “Também é importante distinguir iniciativas pontuais de políticas consistentes, com critérios definidos e acompanhamento”, orientou a executiva.
Checklist de compra: quatro critérios para 2027
Ao planejar as compras para 2027, as escolas podem transformar a sustentabilidade em um componente objetivo da governança. Isso exige documentar critérios, fazer perguntas aos fornecedores e avaliar as respostas em conjunto com as necessidades pedagógicas e financeiras.
A sustentabilidade no material didático ganha consistência quando deixa de ser apenas uma declaração de princípios e passa a orientar decisões verificáveis de gestão. Mosgana Batistella deixou algumas das orientações pirncipais em formato de checklista para os gestores que acompanham o educador21.
- Origem do papel
Solicite informações sobre a procedência das matérias-primas e os documentos que comprovem as alegações ambientais dos fornecedores. - Rastreabilidade
Confira a validade e o escopo das certificações. Verifique se elas abrangem a empresa ou unidade produtiva responsável e se há relação demonstrável com o material adquirido. - Práticas ambientais dos fornecedores
Inclua na cotação critérios proporcionais à contratação, como redução de desperdícios, uso eficiente de recursos e destinação adequada de resíduos. - Digitalização e hibridismo
Avalie quando o material físico favorece a aprendizagem e em quais situações os recursos digitais podem complementar as atividades. Não trate a redução do papel como único indicador de sustentabilidade.

Editora-chefe e cofounder do portal Educador21










