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Na primeira coluna Educação Global de 2026, Lara Crivelaro analisa como IA e internacionalização redefinem a função da escola no século 21

O início de um novo ano costuma ser um bom momento para revisitar perguntas fundamentais. No campo da educação básica, uma delas se impõe com cada vez mais força: qual é, afinal, o papel da escola em um mundo atravessado pela inteligência artificial e por dinâmicas globais cada vez mais complexas? A resposta a essa pergunta não pode ser superficial, nem limitada à adoção de ferramentas tecnológicas ou à oferta de experiências internacionais pontuais. Trata-se de repensar a própria função institucional da escola na formação de sujeitos capazes de compreender, interpretar e atuar em um contexto global e tecnologicamente mediado.

Ao longo do século XX, a escola foi concebida como o espaço legítimo de organização e transmissão do conhecimento. O acesso à informação era restrito, os percursos educacionais relativamente previsíveis e as expectativas sociais em relação à educação estavam alinhadas a um mundo mais estável, no qual profissões, fronteiras e modelos de trabalho eram mais claramente definidos. Esse modelo, ainda que tenha cumprido um papel importante em seu tempo, encontra hoje limites evidentes. A abundância de informação, a velocidade das transformações tecnológicas e a intensificação das conexões globais alteraram profundamente a relação entre conhecimento, aprendizagem e futuro.

A inteligência artificial se insere nesse cenário como um catalisador dessas mudanças. Ao ampliar exponencialmente as possibilidades de acesso à informação, produção de conteúdo e personalização de percursos de aprendizagem, a IA desloca a centralidade da escola como detentora exclusiva do saber. Ferramentas baseadas em algoritmos de linguagem, sistemas adaptativos e análise de dados educacionais já impactam a forma como estudantes pesquisam, escrevem, resolvem problemas e aprendem. No entanto, esse impacto não é neutro nem automaticamente pedagógico. Ele exige intencionalidade, reflexão ética e mediação qualificada.

Diversos estudos internacionais têm destacado que a principal contribuição da inteligência artificial para a educação não está na substituição do professor, mas na reorganização do processo de ensino e aprendizagem. Quando bem integrada, a IA pode apoiar práticas de avaliação formativa, oferecer feedback contínuo, identificar padrões de aprendizagem e liberar tempo docente para atividades de maior valor pedagógico. Ao mesmo tempo, seu uso acrítico pode aprofundar desigualdades, reforçar vieses algorítmicos e fragilizar a formação ética dos estudantes. Nesse sentido, a questão central não é se a escola deve ou não utilizar inteligência artificial, mas que tipo de sujeito ela pretende formar em um mundo no qual essa tecnologia já faz parte da vida cotidiana.

É justamente nesse ponto que a educação internacional assume um papel estruturante. Enquanto a inteligência artificial redefine o “como” se aprende, a educação internacional contribui para redefinir o “para quê” se aprende. Ao ampliar repertórios culturais, promover o

contato com diferentes formas de pensar, viver e produzir conhecimento, e estimular a comunicação intercultural, a internacionalização da educação oferece uma dimensão formativa que nenhuma tecnologia, isoladamente, é capaz de garantir. Ela introduz complexidade, contexto e sentido ao processo educativo.

A educação internacional, entendida de forma ampla, vai muito além de programas de mobilidade ou parcerias pontuais. Trata-se de uma abordagem que atravessa o currículo, a cultura escolar e o projeto institucional, incorporando perspectivas globais às práticas pedagógicas e às experiências de aprendizagem. Pesquisas conduzidas por organismos como a OECD e a UNESCO indicam que estudantes expostos a experiências educacionais com dimensão internacional tendem a desenvolver maior capacidade de pensamento crítico, empatia cultural e compreensão de problemas globais, competências consideradas centrais para o século 21.

Quando a escola consegue articular de forma coerente a inteligência artificial e a educação internacional, abre-se a possibilidade de um novo paradigma educacional. Nesse paradigma, a aprendizagem deixa de ser um processo centrado na acumulação de conteúdos e passa a ser orientada pela construção de trajetórias formativas significativas. A tecnologia, nesse contexto, atua como mediadora inteligente, apoiando a personalização e o acompanhamento do percurso do estudante, enquanto a educação internacional amplia o horizonte de sentido, conectando o aprendizado a contextos reais, desafios globais e possibilidades futuras.

Essa convergência redefine o papel da escola. Mais do que transmissora de conteúdos, a instituição educacional passa a exercer a função de mediadora de trajetórias. Cabe à escola organizar experiências de aprendizagem, oferecer orientação qualificada, apoiar processos de escolha e criar condições para que os estudantes desenvolvam autonomia, responsabilidade e visão de mundo. Esse papel exige uma mudança profunda na lógica institucional, que envolve desde o desenho curricular até a formação das equipes pedagógicas e de gestão.

No entanto, o que se observa em muitas escolas, especialmente no contexto brasileiro, é a presença de boas intenções acompanhadas por pouca estrutura. Iniciativas de uso de tecnologia e ações de internacionalização frequentemente surgem de forma fragmentada, dependentes de pessoas específicas e sem articulação com um projeto institucional mais amplo. Nessas condições, a inteligência artificial tende a ser reduzida a uma ferramenta pontual, enquanto a internacionalização se transforma em evento, viagem ou diferencial de marketing, sem impacto consistente na formação dos estudantes.

A virada necessária passa pelo reconhecimento da internacionalização como um projeto institucional de longo prazo, integrado ao currículo, sustentado por pessoas formadas e orientado por processos claros. Essa mudança exige decisões estratégicas por parte dos mantenedores e gestores escolares, que precisam compreender que a relevância da escola no século 21 não será definida apenas pela adoção de tendências, mas pela coerência entre discurso, prática pedagógica e visão de futuro.

Outro aspecto central dessa discussão diz respeito à equidade. Tanto a inteligência artificial quanto a educação internacional carregam o risco de ampliar desigualdades se não forem pensadas  de  maneira  inclusiva.  Ao  mesmo  tempo,  quando  estruturadas  com

intencionalidade, essas dimensões podem ampliar o acesso à informação, organizar caminhos possíveis e reduzir assimetrias de oportunidade. A escola tem, portanto, um papel decisivo na construção de políticas internas que garantam que tecnologias e experiências globais estejam a serviço da formação de todos os estudantes, e não apenas de uma parcela privilegiada.

Chegamos, assim, a um ponto crucial. O novo papel da escola na era da inteligência artificial e da educação internacional não é técnico, nem instrumental. Ele é profundamente pedagógico, institucional e ético. Trata-se de assumir a responsabilidade de formar cidadãos capazes de compreender a complexidade do mundo, dialogar com a diversidade, utilizar tecnologias de forma crítica e construir trajetórias formativas com sentido. Isso exige mais do que ferramentas ou programas isolados; exige um projeto educativo consistente, sustentado por visão estratégica e compromisso com a formação humana.

Ao iniciar 2026, a pergunta que se coloca para educadores, gestores e mantenedores não é o que a escola oferece em termos de tecnologia ou experiências internacionais, mas quem ela forma e para qual mundo. A resposta a essa pergunta será determinante para o lugar que cada escola ocupará no cenário educacional que se desenha.

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