Amábile Pacios analisa dados da TALIS 2024 para discutir os desafios da formação inicial e continuada diante das demandas da realidade escolar
A formação de professores costuma ser discutida como se houvesse um momento para aprender e outro para ensinar. Primeiro vem a licenciatura; depois, a entrada na escola; ao longo da carreira, cursos e capacitações complementam aquilo que foi aprendido. A realidade da profissão, porém, é muito menos linear.
A escola muda, os estudantes mudam e o próprio conhecimento se transforma. Por isso, a formação docente não pode ser compreendida como uma etapa que se encerra com a graduação. Ela precisa acompanhar o professor ao longo de toda a carreira, em um processo permanente de desenvolvimento profissional e, felizmente, esse é um entendimento cada vez mais claro tanto para os docentes quanto para as instituições de ensino superior.
Os dados da TALIS 2024, pesquisa da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), ajudam a dimensionar esse desafio. Realizada desde 2008, a pesquisa acompanha professores e gestores escolares em diferentes sistemas educacionais, reunindo informações sobre formação, condições de trabalho, práticas pedagógicas e percepção sobre a profissão. O Brasil participou de todas as quatro edições realizadas até agora, em 2008, 2013, 2018 e 2024.
Essa perspectiva histórica permite olhar para além de uma fotografia. A cada edição, a TALIS ajuda a compreender como a profissão se transforma e quais desafios permanecem. A edição mais recente mostra que há motivos para reconhecer avanços na formação inicial. Entre os professores brasileiros que concluíram a graduação nos cinco anos anteriores à pesquisa, 91% avaliaram positivamente a qualidade geral da formação recebida. Ao mesmo tempo, apenas 56% disseram que ela os preparou bem para ensinar em contextos multiculturais ou multilíngues, e 60% fizeram essa avaliação em relação ao apoio ao desenvolvimento social e emocional dos estudantes.
A questão, portanto, não parece ser simplesmente se a formação inicial funciona ou não. O desafio está em compreender como ela se articula com aquilo que o professor encontrará ao longo da carreira.
É justamente nesse ponto que a formação continuada ganha importância. E os dados brasileiros trazem uma informação bastante positiva. 90% dos professores afirmaram que as atividades de desenvolvimento profissional das quais participaram nos 12 meses anteriores tiveram impacto positivo sobre sua prática, percentual muito superior à média de 55% registrada pela OCDE.
Há, portanto, uma disposição clara para aprender e uma percepção de que a formação produz efeitos concretos. O desafio está em criar condições para que esse processo aconteça de maneira consistente.
Entre as principais barreiras apontadas pelos professores brasileiros estão a falta de apoio do empregador, mencionada por 57%, o conflito entre a formação e o horário de trabalho, citado por 52%, e o custo, também indicado por 52%.
Esses dados merecem uma reflexão que vai além da oferta de cursos. Se os professores reconhecem que a formação profissional melhora sua prática, a questão passa a ser como incorporar o desenvolvimento à própria organização do trabalho.
Não parece suficiente oferecer mais oportunidades de capacitação se o professor precisa encontrar, fora de sua jornada, o tempo para participar delas. A formação precisa estar relacionada ao cotidiano da escola, aos desafios concretos das turmas e às necessidades identificadas pelos próprios docentes.
A escola também pode ser um espaço de formação. Planejamento colaborativo, mentoria, troca de experiências e discussão sobre situações concretas da sala de aula permitem transformar experiências profissionais em conhecimento compartilhado. A TALIS mostra que essas práticas já fazem parte da realidade de muitos professores brasileiros, embora ainda haja espaço para fortalecê-las.
Essa necessidade se torna ainda mais evidente diante das novas demandas que chegam à escola. Em 2024, 56% dos professores brasileiros disseram ter utilizado inteligência artificial em seu trabalho, contra 36% na média da OCDE. Ao mesmo tempo, 39% apontaram alta necessidade de formação em competências relacionadas ao uso de IA para ensino e aprendizagem.
A tecnologia é apenas um dos exemplos. Educação inclusiva, gestão da sala de aula, desenvolvimento socioemocional e novas formas de avaliação também exigem atualização permanente. Nenhuma formação inicial consegue antecipar todos os desafios que um professor encontrará ao longo de décadas de carreira.
Por isso, é preciso construir uma ponte entre formação inicial e desenvolvimento profissional. A graduação deve oferecer fundamentos sólidos, domínio dos conhecimentos específicos e pedagógicos e experiências práticas consistentes. A formação ao longo da carreira deve permitir que esses conhecimentos sejam aprofundados, atualizados e confrontados com os desafios da realidade escolar.
A TALIS nos oferece, nesse sentido, algo mais valioso do que uma lista de problemas. Ao acompanhar o Brasil desde 2008, a pesquisa permite observar uma profissão em transformação e identificar tanto avanços quanto questões que permanecem abertas. Seus dados mostram professores que querem aprender, reconhecem o valor da formação e desenvolvem novas competências, mas que também precisam de tempo, apoio e condições para transformar esse aprendizado em desenvolvimento profissional contínuo.
No mês dedicado aos professores, essa talvez seja uma das formas mais concretas de falar em valorização. Não apenas reconhecer a importância de quem ensina, mas construir uma profissão em que aprender faça parte do trabalho, e não seja mais uma tarefa que o professor precisa encontrar espaço para cumprir.
Porque uma escola que espera que seus professores preparem os estudantes para um mundo em constante transformação precisa também garantir que esses profissionais tenham condições de continuar se preparando para ele.

Amábile Pacios é presidente da Federação Nacional das Escolas Particulares (Fenep) e ex-conselheira Nacional de Educação, com atuação destacada na Câmara de Educação Básica. Educadora com mais de 30 anos de experiência, é autora de livros didáticos e presidente do Grupo Educacional Dromos. Reconhecida por sua liderança no setor educacional, recebeu o título de Cavaleiro da Ordem Nacional do Mérito Educativo em 2022, em homenagem aos seus serviços prestados à educação brasileira.










