Formação docente, neurociência e experiências com estudantes mostram por que a tecnologia exige novas decisões pedagógicas e não substitui o vínculo entre professor e aluno
A inteligência artificial já produz textos, exercícios e apresentações em segundos, mas sua presença nas escolas não elimina a necessidade de compreender como os estudantes aprendem. Para os professores, o desafio é avaliar os recursos disponíveis, orientar o pensamento crítico e reconhecer dificuldades individuais. Para gestores educacionais, a questão envolve garantir formação e condições de trabalho para que a tecnologia contribua para a aprendizagem.
Os desafios começam antes mesmo da chegada dessas ferramentas às salas de aula. O Anuário Brasileiro da Educação Básica 2026 aponta que apenas 14,7% dos ingressantes em licenciaturas estavam entre os 20% com melhor desempenho no Enem de 2024. Entre os concluintes avaliados pelo Enade e pela Prova Nacional Docente, cerca de um em cada cinco alcançou o nível adequado, enquanto mais de 40% ficaram abaixo do básico. Os indicadores colocam em pauta a qualidade da formação inicial e a atratividade da carreira docente.
A necessidade de atualização continua depois da graduação. Em levantamento divulgado em abril de 2026 pela European School Education Platform, 87% dos participantes consideraram que a inteligência artificial exigirá formação contínua dos professores. A pesquisa reuniu 1.130 respostas, majoritariamente de docentes, de mais de 50 países. O resultado reforça a importância de preparar profissionais não apenas para operar ferramentas, mas para avaliar sua pertinência pedagógica.
No Brasil, as diretrizes nacionais para o uso da inteligência artificial na educação, aprovadas pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) em setembro, acrescentam parâmetros a essa discussão. As orientações tratam da mediação docente, da responsabilidade humana sobre decisões acadêmicas e da formação para o uso pedagógico e ético dessas tecnologias. A questão passa a ser como incorporar novos recursos sem transferir a sistemas automatizados decisões que dependem do conhecimento sobre os estudantes e seus processos de aprendizagem.
Formação docente exige compreender como os alunos aprendem
Para Janaína Mourão, diretora pedagógica do IntraAct Brasil, conhecimentos sobre atenção, memória e automatização ajudam os professores a interpretar dificuldades e escolher estratégias pedagógicas. A inteligência artificial amplia os recursos disponíveis, mas a observação do estudante continua essencial para decidir como intervir.
Na alfabetização, compreender os mecanismos envolvidos na leitura pode ajudar o professor a acompanhar o desenvolvimento de cada criança. O Método IntraAct, desenvolvido na Alemanha e aplicado no Brasil, utiliza princípios da Neurociência Cognitiva para estruturar atividades e observar as respostas dos estudantes. Segundo a instituição, a metodologia oferece recursos para identificar dificuldades e ajustar o trabalho pedagógico ao longo do processo.
O IntraAct informa que sua metodologia pode acelerar a alfabetização e apresenta resultados próprios: segundo o material institucional, 80% dos alunos podem aprender a ler em quatro a cinco meses. A instituição também afirma que até 80% de uma turma pode estar alfabetizada ao final do primeiro ano. Esses números são declarações da organização e precisam ser interpretados à luz das condições de aplicação e de evidências independentes sobre os resultados.
A mesma necessidade de avaliação se aplica à inteligência artificial. Ferramentas que produzem exercícios, textos e avaliações rapidamente podem apoiar o planejamento, mas o professor precisa verificar a adequação dos materiais aos objetivos pedagógicos e às necessidades da turma. “Quanto mais recursos tecnológicos chegam à escola, maior é a necessidade de professores preparados para avaliar quando, como e por que utilizá-los”, explicou Janaína.
Vínculo com os alunos continua no centro da docência
A preparação tecnológica não esgota as competências exigidas pela profissão. Vicente Delorme, diretor da unidade Jockey do Colégio pH, destaca a importância de compreender as necessidades emocionais e comportamentais dos estudantes. “Nosso olhar para os alunos tem sido ampliado para horizontes emocionais, afetivos e atitudinais. A dedicação ao suporte emocional e a possíveis conflitos escolares exigem, do professor atual, habilidades que talvez passassem batidas ao professor do passado, mas que hoje são fundamentais a um bom educador”, disse.
Delorme também associa dificuldades de concentração e organização dos estudos ao excesso de telas e aos efeitos da pandemia. Para ele, esses desafios reforçam a necessidade de conciliar formação acadêmica, autonomia e vínculos em sala de aula. Essa dimensão aparece nas expectativas de jovens que pretendem seguir a carreira docente.
Vitória Marques, de 17 anos, aluna do Colégio pH Recreio e interessada em Licenciatura em Letras, deseja combinar acolhimento e criatividade. Já Lara Monteiro, de 17 anos, aluna da unidade Botafogo que pretende cursar História, vê na docência uma oportunidade de transformar vidas. “O que me despertou a vontade de ser professora foi a esperança de que a educação muda vidas”, disse Lara.
A aprendizagem também acontece na relação entre professores e estudantes diante das novas tecnologias. Alan Dantas, professor, especialista em design instrucional e diretor da EBAC Business, relata que alunos apresentam ferramentas de inteligência artificial que ele ainda não havia experimentado. A troca o levou a rever atividades de apresentações profissionais, explorando com a turma o processo de criação, as escolhas envolvidas e o uso da IA para testar versões e simular entrevistas. “O professor continua responsável pela qualidade da aprendizagem, mas não precisa ser a única pessoa da sala que descobre coisas novas”, afirmou.
Essa abertura à aprendizagem contínua, porém, depende também de condições de acesso. Em Juruti, no Pará, o programa Rede Amazônia +Conectada, realizado pelo Grupo +Unidos, reúne conectividade, equipamentos e formação digital em comunidades rurais, com participação da EBAC na oferta de bolsas de cursos. A iniciativa evidencia que ampliar as possibilidades educacionais exige mais do que ferramentas: requer infraestrutura, formação e mediação pedagógica. Nesse cenário, o novo lugar da docência está em articular conhecimento, pensamento crítico e vínculos com os alunos, sem transferir à inteligência artificial a responsabilidade pelas decisões que orientam a aprendizagem.










