Skip to main content

Betina von Staa apresenta três perfis de estudantes para discutir como o uso crítico da inteligência artificial, a capacidade de avaliar informações e a formação universitária se relacionam em um cenário de desafios complexos

Joaquim, João e Clara são primos. Estudantes universitários com histórias de vida e expectativas diversas, e parece que com um curso bastante diverso, também!

Vejam o que aconteceu quando se encontraram em uma reunião de família:

João: Acho que vai chover. Tomara que não atrapalhe a festa.

Clara: Pois é, estou preocupada com a festa e com o verão. Como será que vai ser esse super El Niño?

Joaquim: Ai, relaxa. Esse negócio de mudança climática é intriga da oposição.

Clara: Não é, não. Você não estudou o fenômeno?

Joaquim: Eu não. Eu faço jornalismo. Quero ser influenciador de futebol. Não preciso estudar isso.

Clara: Mas eu também faço jornalismo e, esse semestre, tivemos um super projeto sobre mudanças climáticas. Foi muito intenso! Tivemos que pesquisar fontes relevantes sobre o fenômeno, conversar com o público e criar perfis com o apoio de IA, participar de um debate simulado sobre os impactos das mudanças climáticas na nossa cidade, conhecemos diferentes modelos preditivos e elaboramos peças informativas para disparar nas redes sociais que pudessem sensibilizar cada perfil. Elaborar as peças foi uma loucura! Usamos IA e tivemos que lidar com imagens preconceituosas que não representavam o nosso público, com informações enviesadas, foi um tal de ajustar prompt e montar contexto até que os materiais ficassem aceitáveis, que nem sei te contar! Mas, no final, saiu peça com música, desenho animado, entrevista com pessoas reais, um monte de material bacana! Acho que a gente vai conseguir até promover uma conscientização sobre o fenômeno e descobrir forma de cobrar atitudes das lideranças políticas! 

Joaquim: Eu hein! Eu peço para a IA fazer umas peças divertidas e pronto. Vou captando seguidores desse jeito. Que você sabe, né, quero ser influenciador, ter muito seguidor e ganhar muito dinheiro.

Clara: Mas, e a faculdade, como vai?

Joaquim: Cara, teve um trabalho lá até sobre esse negócio de clima e aquecimento global. Pedi para a IA fazer o trabalho, entreguei e tirei uma nota que deu para passar. Está ótimo. Com IA, a gente não precisa, mesmo ficar fazendo as paradas.

João: Mas pode usar IA na sua faculdade? Eu estou começando jornalismo agora, e na minha escola não podia usar tecnologia. Não sei nem como começar a fazer esses trabalhos.

Clara: Mas ainda não te orientaram sobre como usar IA na faculdade?

João: Não. A gente até teve uma matéria de atualidades, e o professor deixou uns textos sobre mudanças climáticas na xerox e pediu uns fichamentos. Entreguei todos, depois teve prova. Tirei 10.

Clara: E você não está preocupado com o que vem por aí?

João: Eu não. Esse negócio de mudanças climáticas não depende de nós. É coisa de político, e não gosto de política. Tem que ir vivendo. Vou continuar estudando e vou dar um jeito de ter um bom emprego e morar em locais que não sejam afetados.

Clara: Mas se você quer um bom emprego, é bom aprender um pouco de IA, os momentos em que ela te engana e quando ela ajuda. Senão, como você vai saber lidar com viés? Como você vai conseguir influenciar um público maior? Como você vai escolher as melhores ferramentas para análise dos mais variados modelos complexos? Como você vai saber se a ferramenta de predição que você usa é confiável e relevante? Eu já nem sei mais trabalhar sem essas ferramentas. E não paro de ler – livros, artigos científicos, matérias jornalísticas dos jornais que defendem diferentes visões, pesquisas – para entender onde estou e validar o material da IA. Acho que está tudo mais difícil e mais complexo!

Joaquim: Relaxa! Deixa a IA fazer o trabalho para você. Aproveita o dia que eu acho que a gente vai ficar aqui em baixo do toldo com a chuva lá fora. A farofa está maravilhosa, quer um pouquinho?

Prezada leitora, prezado leitor: Qual dos três você contrataria? Qual está mais pronto para abrir o próprio negócio? Qual deles pode seguir para a ciência? Quem tem as ferramentas para não ser vítima de fake news?

Qual é o perfil de faculdade que queremos proporcionar aos nossos jovens em tempos de IA?

Compartilhe: