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Visitas em Xangai mostram como escola e indústria articulam currículo, inteligência artificial e robótica na formação dos estudantes

Na Missão Educacional Malásia & China 2026, gestores brasileiros conheceram dois lados de uma mesma questão em Xangai: como preparar estudantes para um cenário em que a inteligência artificial já modifica a relação com o conhecimento. Pela manhã, a visita à Pudong Lingang Experimental School mostrou uma organização escolar centrada no aluno. À tarde, a WhalesBot apresentou a infraestrutura tecnológica que permite transformar estudantes em criadores de soluções.

Na escola particular vinculada à rede da Escola Secundária nº 2 afiliada à East China Normal University (ECNU), o grupo conversou por mais de uma hora com o diretor. A instituição atende cerca de 1.800 alunos e organiza sua proposta a partir de formação ampla, acompanhamento próximo e uso da tecnologia como parte da experiência dos estudantes.

A poucos quilômetros dali, a visita à WhalesBot deslocou a discussão para o outro lado da cadeia. A empresa de inteligência artificial e robótica educacional mostrou showroom, escritórios, linha de produção e fábrica, permitindo observar como pesquisa, desenvolvimento, fabricação e aplicação pedagógica se conectam.

As duas experiências produziram uma mesma provocação para os gestores: qual papel a escola pretende dar ao aluno diante da tecnologia? Em Xangai, a resposta observada pelo grupo passa pela aprendizagem ativa, pela autoria e por uma organização escolar que procura colocar o estudante no centro das decisões.

Na escola, gestão e currículo partem do estudante

Na Pudong Lingang, cada turma conta com uma professora titular, uma auxiliar e dois professores especialistas. A titular permanece com os alunos durante toda a jornada, inclusive no almoço. A jornada docente chega a nove horas diárias, enquanto a formação continuada combina cursos do governo e da própria escola, sempre com caráter prático.

A estrutura de gestão é enxuta, com diretor, vice-diretor e coordenadores. As reuniões seguem dois princípios apresentados pelo diretor: nenhuma acontece sem preparação e todas devem ser curtas e eficientes. A organização procura concentrar o tempo dos profissionais nas necessidades concretas da escola e dos estudantes.

O período é integral, com aulas das 8h às 16h no ensino médio, uma hora de almoço e atividades extracurriculares depois das 16h. O projeto pedagógico reúne esporte, línguas estrangeiras, com inglês e japonês, e desenvolvimento de habilidades e competências pessoais. STEAM, oratória, artes e música também integram uma formação com forte ênfase prática.

A tecnologia entrou de forma sistemática na escola em 2023. O trabalho, inicialmente concentrado no ensino de Java, migrou para a inteligência artificial, que passou a ser tratada como parte da vida dos estudantes. Os alunos podem utilizar IA nas tarefas de casa, desde que aprendam com a ferramenta em vez de apenas copiar respostas. Professores também recebem apoio de um grupo dedicado ao uso dessas tecnologias.

A escola mantém ainda orientação para escolhas acadêmicas e profissionais. Segue currículo internacional e prepara estudantes para universidades do Canadá, Estados Unidos, Reino Unido e Austrália. Estudantes de universidades chinesas e estrangeiras atuam como counselors individuais, apoiando esse processo.

Da produção de robôs à autoria dos estudantes

Na tarde do mesmo dia, a WhalesBot apresentou outra dimensão dessa transformação. Fundada em março de 2018 e sediada em Minhang, Xangai, a empresa produz componentes como chips, sensores e motores e possui mais de 270 patentes. Seus robôs educacionais atendem pessoas de 3 a 22 anos, distribuídos em cinco séries que incluem blocos de montar, drones e robôs biomiméticos.

Segundo as informações apresentadas ao grupo, os produtos estão em mais de 30 mil escolas de mais de 80 países. A empresa também forma mais de 20 mil educadores por ano e organiza a ENJOY AI, competição de robótica certificada pelo Guinness, que já reuniu mais de 1 milhão de participantes. Em 2024, concluiu uma rodada de investimento Série B e foi reconhecida pelo governo de Xangai como empresa unicórnio.

Conduzidos por um engenheiro, os gestores conheceram showroom, escritórios, linha de produção e fábrica. A visita permitiu acompanhar diferentes etapas do desenvolvimento dos produtos e perceber a dimensão industrial de uma tecnologia que também chega às escolas. Ao final, o grupo pôde testar diferentes soluções em uma área de experimentação.

A empresa trabalha com duas frentes. Uma oferece soluções prontas, com currículo e atividades estruturadas. A outra disponibiliza ferramentas abertas para que professores criem aulas e desenvolvam projetos personalizados com os estudantes. A combinação atende escolas em diferentes estágios de preparação para o trabalho com robótica e inteligência artificial.

O princípio apresentado pela WhalesBot amplia essa perspectiva: crianças e jovens não devem apenas utilizar ferramentas tecnológicas, mas construir seus próprios robôs com inteligência artificial integrada. O aluno passa, assim, da posição de usuário para a de autor de soluções.

Duas visitas, uma questão para as escolas brasileiras

A aproximação entre as duas experiências ajuda a deslocar o debate sobre IA. Na Pudong Lingang, o diretor defendeu que os estudantes aprendam com a inteligência artificial, e não apenas a utilizem para obter respostas. Na WhalesBot, o grupo conheceu uma estrutura tecnológica baseada na criação de sistemas, projetos e soluções pelos próprios alunos.

A distância em relação à realidade da maioria das escolas brasileiras, portanto, não está apenas na disponibilidade de equipamentos. A experiência observada em Xangai envolve formação docente, tempo curricular, projetos práticos e uma concepção de estudante capaz de produzir conhecimento e tecnologia.

As visitas também recolocam perguntas de gestão. Quantos adultos acompanham cada turma? As reuniões são preparadas e objetivas? A escola oferece tempo para projetos? Os professores estão preparados para orientar o uso da IA? E os estudantes estão aprendendo apenas a utilizar ferramentas ou também a compreender, criar e transformar tecnologias?

Em Xangai, escola e indústria apresentaram respostas diferentes para uma mesma questão. De um lado, a organização escolar procura proteger o tempo, a concentração e a formação ampla do estudante. De outro, a tecnologia educacional cria condições para que esse estudante assuma maior autoria. Para as escolas brasileiras, o desafio começa antes da escolha de equipamentos: está na definição do papel que o aluno terá diante da tecnologia.

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