Visita à Beijing Foreign Studies University mostra como idiomas, conhecimento e orientação acadêmica podem compor uma formação voltada à atuação internacional
A Missão Educacional Malásia & China 2026 chegou à Beijing Foreign Studies University (BFSU), em Pequim, para conhecer uma instituição cuja trajetória está ligada à formação em línguas e à atuação internacional. Universidade pública administrada pelo Ministério da Educação chinês, a BFSU reúne cerca de 10 mil estudantes, oferece 101 línguas estrangeiras e mantém 122 cursos de bacharelado.
A história da universidade ajuda a explicar essa vocação. Criada em 1941 como uma equipe de língua russa vinculada a uma escola militar, a instituição passou pelo Ministério das Relações Exteriores antes de chegar ao Ministério da Educação. Hoje, mais de 500 egressos atuam ou atuaram como embaixadores e mais de 3 mil como conselheiros, consolidando sua relação com a diplomacia chinesa.
Para os gestores brasileiros, há ainda uma aproximação direta: a BFSU mantém graduação em Língua Portuguesa e forma profissionais bilíngues chinês-português. A visita permitiu observar como uma universidade especializada em idiomas amplia esse conhecimento para diferentes campos de atuação e para uma trajetória acadêmica internacional.
Missão Ásia 2026 observa a língua além da disciplina
O ingresso na BFSU combina o resultado do Gaokao, exame nacional de acesso ao ensino superior, responsável por 70% da avaliação, com uma entrevista que representa os outros 30%. Nessa etapa, os candidatos apresentam vídeos em inglês e demonstram seu interesse pela área. Segundo a professora que conduziu a apresentação, esse componente permite considerar a motivação do estudante. Assim, um candidato com desempenho menor no Gaokao pode ser aprovado se demonstrar interesse genuíno pela formação em línguas.
A escolha chama atenção em um sistema marcado pela centralidade de uma prova nacional. Para os gestores, a experiência abre uma discussão sobre o espaço destinado à orientação acadêmica e ao perfil do estudante nos processos de acesso ao ensino superior.




Na BFSU, a língua também não aparece isolada do conhecimento. O modelo de formação parte da combinação entre língua estrangeira e área de conhecimento, com bacharelados conjuntos desenvolvidos em parceria com outras universidades nas áreas em que a instituição possui reconhecida excelência acadêmica.
A Plataforma de Excelência em Governança Global segue essa lógica. O programa combina intensificação em inglês e francês, orientação acadêmica e prática, seminários, certificados de honra e oportunidades de estudo e pesquisa para estudantes de destaque.
A mesma concepção chega à educação básica por meio da escola afiliada à universidade. A instituição oferece sete línguas estrangeiras e trabalha com o modelo SEE, que articula aprendizagem sistemática em sala, experiências para além do currículo regular e aprendizagem experiencial. O currículo bilíngue de ciências amplia essa proposta. Nesse caso, a língua estrangeira deixa de ser apenas objeto de estudo e passa a funcionar como meio para a aprendizagem de outro conteúdo.
Formação internacional também passa por mobilidade e tecnologia
A internacionalização aparece ainda na mobilidade estudantil. A BFSU envia estudantes para outros países e recebe estrangeiros em cursos de verão e programas de estudante visitante, com opções em inglês e chinês nas áreas de negócios na China, estudos culturais, comunicação global e língua chinesa.
Para os brasileiros na imersão, esse conjunto de experiências reforça uma questão relevante para escolas que ampliam programas bilíngues ou internacionais: a língua pode ser pensada como parte de um percurso acadêmico mais amplo, conectado a interesses, conhecimentos e projetos futuros. A inteligência artificial, porém, trouxe um contraponto inesperado. Segundo a professora, a tecnologia ainda não provocou mudanças na prática de ensino da universidade, apesar de a instituição formar profissionais de tradução e interpretação diretamente relacionados ao avanço dos modelos de linguagem.
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O movimento aparece primeiro no currículo. O catálogo de 2026 inclui um bacharelado em Ciência da Computação com ênfase em inteligência de linguagem, indicando que a IA começa a ganhar espaço como área de formação, antes de transformar as práticas pedagógicas da universidade.
A visita à BFSU deixou, assim, três questões para o grupo da Missão Ásia 2026. A primeira é como integrar línguas estrangeiras a áreas de conhecimento e projetos de vida, em vez de tratá-las como disciplinas isoladas. A segunda envolve o espaço da orientação acadêmica diante das escolhas dos estudantes. A terceira diz respeito ao ritmo de incorporação da inteligência artificial e às expectativas que as escolas podem construir em torno dela. Para os gestores brasileiros, o desafio está em pensar como essa integração pode ganhar sentido dentro das diferentes realidades escolares.










