Na Coluna Tecnologia que Humaniza de maio, Guilherme Cintra propõe critérios para orientar decisões sobre automatização na escola e o uso da IA no equilíbrio entre eficiência e aprendizagem
Em março, escrevi aqui sobre Fricção Cognitiva Ótima, o nível de esforço que deve ser buscado no equilíbrio entre eficiência e preservação de nossa capacidade de aprender. Vale lembrar por que essa fricção importa: é dela que nasce o aprendizado. O esforço de buscar uma palavra, de organizar um argumento, de corrigir o próprio raciocínio é o que constrói repertório, autonomia e pensamento crítico. A coluna terminou com uma provocação: o ponto ótimo não é fixo, muda com a tecnologia, com os objetivos de aprendizagem, ao longo da vida. Além disso, não é um elemento fixo para todos: cada indivíduo tem objetivos e funções diferentes. Portanto, sua fricção ótima também varia em cada ação exercida.
Voltei ao tema porque, ao falar sobre o assunto nos últimos meses, percebi um problema básico. Conceitualmente funciona. Mas, quando um(a) diretor(a) escolar me pergunta se deve permitir IA na redação do nono ano, ou quando um coordenador quer saber se a prova vale com consulta a chatbot, uma bússola não basta. Falta o mapa. Quais fatores, na prática, deslocam o ponto ótimo de fricção que cada aluno precisa para aprender?
Comecei a construir esse mapa. O que segue é uma primeira versão, organizada em três eixos com dez fatores. Não é receita, é vocabulário para tornar a decisão pedagógica mais consciente.
O mapa
Eixo 1. Capacidade. O que a tecnologia faz hoje e o que acontece com o aluno se a escola autorizar a delegação de maneira acrítica.
- Evolução tecnológica: o que a IA fazia há seis meses não é o que faz hoje.
- Reversibilidade da atrofia: algumas habilidades, se não exercitadas no tempo certo do desenvolvimento, são difíceis de reconstruir depois.
- Capacidade de avaliar o resultado: se o aluno não tem repertório para julgar se a resposta está certa, terceirizar significa necessariamente a ausência de verificação.
Note que, nesse eixo, há uma interseção entre a capacidade tecnológica em evolução e o desenvolvimento do próprio aluno. Assim, a compreensão das competências cognitivas e críticas dos alunos deve ser levada em consideração, bem como a revisão do posicionamento sobre as tecnologias ao longo de sua evolução.
Eixo 2. Propósito. Qual é o objetivo daquela atividade na escola.
- Objetivo pedagógico: a tarefa de execução pode ser otimizada, a de aprendizado não, porque o atalho compromete o objetivo.
- Valor formativo do processo: algumas atividades têm valor no próprio fazer, e o produto final é menos importante que o caminho.
- Identidade em construção: o aluno está se tornando alguém — autor, leitor, pensador, cientista — e atividades que constituem essa identidade pedem proteção diferente.
Aqui, a interseção é entre os conteúdos e competências que devem ser desenvolvidos e o próprio senso de identidade do aluno, em formação. O fazer é parte fundamental do que constrói o ser. E, portanto, preservar a possibilidade de o aluno se entender como sujeito e desenvolver autoeficácia é essencial. Um exemplo é a preservação de espaços para exercício da criatividade dos alunos sem uso de IA, para que estes se entendam como seres criativos, como discutido nesta coluna.
Eixo 3. Consequência. O que a decisão da escola produz para além daquela atividade.
- Custo do erro de aprendizagem: compreensões equivocadas que viram base para o resto são caras de corrigir depois.
- Pressão por produtividade versus formação no longo prazo: a escola sente pressão real de calendário e de volume, e reduzir fricção é uma tentação legítima.
- Efeito sobre o ecossistema: o que a escola autoriza ou proíbe forma cultura, e famílias e alunos leem as escolhas como sinal.
- Coordenação entre professores e séries: políticas inconsistentes confundem, e a fricção ótima de uma sala não se decide isoladamente.
Aqui vemos elementos que vão além da atividade em si: tanto os impactos na comunidade de aprendizagem quanto efeitos de médio e longo prazo que devem ser considerados ao tomar decisões.
Quatro fatores que merecem aprofundamento
Listar os dez é fácil. Decidir o que fazer com eles, não. Escolho quatro para mostrar como esse vocabulário muda a conversa pedagógica.
Evolução tecnológica
Esse fator é o que torna qualquer política escolar sobre IA instável. Nunca foi fácil se manter atualizado, mas isso se torna ainda mais desafiador com o ritmo da evolução tecnológica. O que era impossível há seis meses hoje é trivial. A consequência prática é que a discussão pedagógica não pode ser pontual. Precisa ser cíclica. De forma ritualística, a coordenação precisa olhar para o que mudou nas ferramentas, no comportamento dos alunos, nos resultados das avaliações, e ajustar. E é necessário maior conforto com o não saber. Lidar com ambiguidades e incertezas é uma competência essencial para nossa era. E isso não se restringe aos nossos alunos. Nós precisamos liderar pelo exemplo.
Objetivo pedagógico
Esse é o fator mais central de todos, e o mais negligenciado na prática escolar cotidiana. Toda atividade pedagógica tem dois resultados possíveis: o produto entregue e a aprendizagem produzida. Na maior parte das vezes, a escola pede o produto como pretexto para a aprendizagem. A redação não existe pelo texto, existe pelo pensamento que escrever produz. O exercício de matemática não existe pela resposta, existe pelo raciocínio. O resumo de livro não existe pelo resumo, existe pela leitura atenta que ele exige.
Quando a IA entra em cena, ela tensiona exatamente esse desacoplamento. Ela entrega o produto sem que a aprendizagem tenha necessariamente acontecido, muitas vezes com qualidade aparentemente superior à do aluno. O resultado pode ser uma armadilha pedagógica: do ponto de vista do produto, está tudo certo. Do ponto de vista do objetivo real da escola, pode haver falha, e uma falha pouco visível, porque o produto bem feito é exatamente o que a escola está acostumada a valorizar.
A pergunta que esse fator obriga a escola a fazer, antes de cada atividade, é simples e pouco respondida: o que esse aluno precisa levar daqui, o produto ou o desenvolvimento de uma competência ou de um conteúdo? Quando o objetivo é o produto, a IA pode ajudar, e, em muitos casos, deve. Um relatório administrativo do grêmio, um e-mail formal para um parceiro externo, uma apresentação para feira de ciências de tema já dominado são exemplos em que o apoio da IA não compromete a aprendizagem. Quando o objetivo é a habilidade, a IA precisa ser cuidadosamente regulada, ou o atalho pode comprometer o propósito da atividade. A escola que não diferencia essas situações tende, no longo prazo, a perder capacidade formativa.
Identidade em construção
Esse é, talvez, o fator mais subestimado nas discussões sobre IA na escola. Quando se debate o que liberar e o que restringir, a conversa quase sempre fica no plano da habilidade técnica, escrita, cálculo, pesquisa. Mas o que está em jogo na escola não é apenas habilidade, é identidade. O aluno do oitavo ano que escreve sua primeira dissertação está fazendo mais do que treinar coesão e coerência, está descobrindo se é alguém que tem o que dizer. O aluno do ensino médio que conduz uma investigação científica está descobrindo se é alguém capaz de produzir conhecimento.
Quando a IA escreve a dissertação ou estrutura a investigação, o produto pode até sair melhor. Mas a descoberta, a de que aquele aluno é capaz, pode não acontecer. Em alguns casos, pode ocorrer o oposto: o aluno passa a depender da ferramenta para demonstrar competência. Os dados de criatividade mencionados na coluna anterior apontam nessa direção: a queda mais relevante não é necessariamente de desempenho, mas de autoconfiança. O que está em jogo nessas atividades vai além do pedagógico, toca dimensões formativas profundas.
Pressão por produtividade versus formação no longo prazo
Esse é o fator que mais separa decisão pedagógica de decisão administrativa, e por isso é central para gestores. A pressão por entregar mais conteúdo, mais provas corrigidas, mais relatórios prontos é real. A IA promete dar conta disso, e em muitos casos vai dar.
O risco para o aluno já apareceu antes: ao reduzir a fricção do trabalho do professor, a escola pode acabar reduzindo também a do trabalho do aluno, sem perceber que são coisas diferentes. Mas o risco para o professor merece atenção semelhante. Corrigir o trabalho de um aluno não é só uma tarefa operacional, é o momento em que o professor entende como aquele aluno pensa, onde encontra dificuldades e o que ainda não fez sentido. Automatizar toda correção pode parecer ganho de produtividade e ser, na prática, perda de diagnóstico, de vínculo e de calibragem do ensino.
Há valor real na redução de tempo com tarefas burocráticas. Mas há valor real também no esforço do professor de ler o que o aluno escreveu. E há valor real no esforço do aluno de receber uma correção feita por alguém que conhece sua trajetória.
Os dois precisam de fricção preservada, não pelos mesmos motivos, mas pela mesma lógica: a relação pedagógica é, ela própria, território de aprendizagem, dos dois lados.
O que muda quando o mapa existe
Esses três eixos não esgotam o tema, e os fatores se sobrepõem. O mapa é provisório, e talvez sempre seja.
Mas há uma mudança importante nas conversas onde essa estrutura é aplicada. Antes, sabíamos que precisávamos preservar fricção. Mas também reconhecíamos o valor de ganhos de eficiência. Faltava, entretanto, um “como” para incorporar esse tema à prática escolar.
Agora, antes de cada decisão sobre IA na escola, conseguimos perguntar: estamos equilibrando eficiência com o propósito formativo? Com o desenvolvimento das competências dos alunos para agir por si ou usar ferramentas de forma crítica? Com as consequências para a comunidade escolar e para o longo prazo? Essas são algumas das perguntas que podemos começar a fazer.
Conceitos só viram prática quando ganham vocabulário. Espero que esse mapa, ainda que imperfeito, ajude as escolas a aterrissar o seu. Na próxima coluna, dou o passo seguinte: trago seis heurísticas concretas, construídas a partir desse mapa, para apoiar decisões do dia a dia da escola sobre como equilibrar fricção cognitiva e eficiência.

Guilherme Cintra é Diretor de Inovação e Tecnologia da Fundação Lemann. Economista formado pela PUC-RJ, iniciou sua trajetória na educação aos 18 anos como professor de matemática para jovens de comunidades próximas à universidade. Atuou em fundos de investimento e tornou-se sócio do Gera, focado em educação. No Grupo Eleva, foi diretor de unidade escolar, liderou uma rede de escolas e cofundou o Pátio, área de novos negócios (hoje Grupo Salta). Trabalhou na Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro como Coordenador de Inovação e Tecnologia, onde criou os Ginásios Experimentais Tecnológicos, a Olimpíada Carioca de Matemática e sistemas de gestão escolar. Atualmente, dedica-se a escalar qualidade educacional por meio da tecnologia em estados e municípios do país.










