Lara Crivelaro analisa por que o domínio de um segundo idioma precisa estar integrado a currículo, formação docente e práticas de internacionalização
Há uma equação simples que circula com frequência entre escolas e famílias: quanto mais cedo e mais intensamente uma criança aprende inglês, mais preparada ela estará para o mundo. A lógica tem uma parte verdadeira — o domínio de um segundo idioma é, de fato, uma competência relevante em qualquer projeto de internacionalização. O problema está na parte que essa equação deixa de fora: falar inglês com fluência não faz de ninguém, automaticamente, um cidadão global.
A distinção parece sutil, mas tem consequências práticas diretas na forma como as escolas desenham seus programas internacionais. Um currículo bilíngue bem estruturado ensina uma criança a se comunicar em outro idioma. Isso não equivale a ensiná-la a interpretar uma notícia internacional com espírito crítico, a negociar com alguém de outra cultura sem impor os próprios pressupostos, ou a reconhecer que sua própria formação escolar é uma entre várias formas legítimas de organizar o conhecimento. Essas são competências distintas, que exigem desenho pedagógico próprio — e que um currículo de idiomas, por mais robusto que seja, não se desenvolve sozinho.
O risco de tratar bilinguismo como sinônimo de formação global é duplo. Por um lado, escolas que investem pesadamente em inglês e param por aí correm o risco de formar alunos linguisticamente competentes, mas sem repertório para atuar de fato em contextos internacionais — sem capacidade de análise, sem experiência de mobilidade real, sem prática de colaboração intercultural. Por outro lado, esse mesmo enquadramento reduz a discussão de internacionalização a uma questão de proficiência linguística, o que empobrece o debate justamente no momento em que ele deveria se tornar mais amplo, envolvendo currículo, formação docente e cultura institucional como um todo.
Formar um cidadão global supõe outras camadas de trabalho, que costumam receber menos atenção do que o ensino de idiomas por não gerarem um resultado tão facilmente mensurável quanto um certificado de proficiência. Uma delas é o que se chama, em contextos curriculares mais recentes, de currículo invisível: atividades extracurriculares, voluntariado, engajamento comunitário e projetos de cidadania ativa, que constroem repertório e abrem caminho para bolsas e oportunidades internacionais tanto quanto — em muitos casos, mais do que — o desempenho acadêmico isolado.
Outra camada é a formação de professores para atuar com uma perspectiva internacional dentro das próprias disciplinas que já lecionam, sem depender de um departamento de idiomas separado do restante do currículo. E há ainda a dimensão de gestão: um projeto internacional que não tenha respaldo da liderança da escola, e que não esteja integrado ao planejamento pedagógico geral, tende a permanecer restrito à sala de aula de inglês, sem irradiar para o resto da experiência escolar.
Essa discussão ganhou espaço recente em fóruns dedicados à internacionalização escolar, nos quais especialistas têm reforçado que o domínio de um idioma, isoladamente, não é suficiente para formar cidadãos globais — é preciso associá-lo a outras dimensões da experiência escolar para que produza esse efeito. O argumento não desqualifica o valor do bilinguismo; qualifica seu papel. Um segundo idioma é uma ferramenta poderosa de acesso — à informação, a redes, a oportunidades de estudo e trabalho no exterior.
Mas uma ferramenta, por definição, serve a um propósito que não é ela mesma. O propósito, nesse caso, é a capacidade de compreender e atuar em um mundo plural, e essa capacidade se constrói por meio de currículo, de formação docente e de práticas pedagógicas que vão além da aula de idiomas.
Para escolas que avaliam seus próprios programas de internacionalização, a pergunta relevante não é apenas “nossos alunos falam inglês fluentemente?”. É também: “o que mais, além do idioma, estamos construindo para que essa fluência se converta em capacidade real de atuação global?”.
Currículo com perspectiva internacional, atividades extracurriculares com intenção formativa, professores preparados para trabalhar essa perspectiva em suas disciplinas e uma gestão que sustente esse projeto ao longo do tempo são as peças que faltam quando bilinguismo é tratado como fim, em vez de meio.
Formar cidadãos globais é um projeto mais amplo do que ensinar um segundo idioma — e tratá-lo como tal é o primeiro passo para que a internacionalização produza os resultados que promete.

Doutora em Sociologia pela Unesp, Lara Crivelaro foi diretora de cursos de graduação e pós-graduação, pró-reitora, coordenadora geral de educação à distância e consultora de diversas universidades do Brasil.
Fundou a Efígie ao identificar uma lacuna na educação internacional e atualmente é CEO da empresa e também diretora-executiva do Instituto Educbank de Educação e Cultura.
Lara é avaliadora do Ministério da Educação (MEC) para credenciamento e autorização de cursos a distância e autora de cinco livros, sendo o último “A educação básica no palco internacional”.










