Ricardo Aguirre, head de Marketing do Colégio Bandeirantes, relata como uma imersão na China levou estudantes a refletir sobre tecnologia, educação, mérito e futuro profissional
Ricardo Aguirre*
Em Pequim, entrei em um carro autônomo. O volante girava sozinho, respeitava faixas e fazia conversões com precisão. Levei quatro minutos para deixar de achar aquilo extraordinário. Os dez alunos do Colégio Bandeirantes que me acompanhavam na imersão por Xangai, Pequim e Frankfurt levaram menos: para eles, veículos sem motorista não são milagres, são o cotidiano.
Atravessei 18 mil quilômetros para mostrar a esses jovens o amanhã. No entanto, descobri no banco de trás que a distância mais instigante da viagem não era a geográfica, mas a geracional. Antes do embarque, planejei observar como reagiriam a um ecossistema tão distinto. Mas o plano se inverteu: a China virou pano de fundo e os estudantes tornaram-se o verdadeiro objeto de análise.
Nas escolas, mede-se o ano todo o que o aluno sabe. Raras são as oportunidades de observar o que ele percebe. Vinte dias fora do país proporcionam esse diagnóstico — e o que emerge é desconfortável na medida certa.
A primeira quebra de expectativa ocorreu na BOKE Technology, em Xangai, gigante de games cujos produtos somam mais de 40 milhões de downloads no Brasil. Fomos entender a engenharia de um jogo digital — a fusão de programação, arte e dados. Porém, o que fascinou os meninos foi o Skill Master, um jogo de tabuleiro de papel, sem telas. Diante de uma potência tecnológica, adolescentes hiperconectados preferiram a negociação presencial e o olho no olho. Voltei com uma inquietação: Do que esses jovens têm fome? Talvez não seja de mais tecnologia.
O momento mais denso ocorreu em uma mesa-redonda em Xangai com executivos, liderada por Alexandre Liu, ex-aluno do Colégio Bandeirantes e General Manager da Citrosuco na China. Ao ouvir a trajetória de um brasileiro consolidado no ecossistema asiático, a percepção dos estudantes se expandiu em três dimensões.
A primeira foi geográfica: perceberam que o horizonte profissional não se limita aos Estados Unidos. A segunda foi econômica: compreenderam a dinâmica do capital na China, onde regras de remessa estimulam o reinvestimento local. A terceira foi cultural: na sociedade chinesa, quem prospera sem zelar pela família perde credibilidade. A ética familiar opera como infraestrutura de reputação.
Entretanto, o tema que paralisou a sala foi o sistema educacional. Liu explicou que, no exame nacional (Zhongkao), apenas cerca de metade dos estudantes avança para o ensino médio regular; o restante é direcionado ao ensino técnico. Mais de 15 milhões de jovens fazem essa prova aos 15 anos. Muitos pais o consideram mais determinante que o Gaokao (o vestibular chinês).
Ali, os alunos compreenderam que o avanço chinês cobra um preço alto de seus pares. Reconhecer o próprio privilégio e assimilar que o alto desempenho exige rigor foi a maior lição. Levei dez jovens para ver robôs; eles voltaram refletindo sobre mérito.
Buscando as raízes dessa disciplina, visitamos a East China Normal University, voltada à formação de professores. Os resultados do PISA 2018 comprovam que, onde há investimento sistemático no docente, a aprendizagem se consolida.
Em 2025, 79% das exportações brasileiras de soja tiveram a China como destino (ANEC). Compreender a mentalidade chinesa deixou de ser adendo cultural e tornou-se alfabetização básica para os futuros líderes.
Na Grande Muralha, lembrei do ditado: quem planta tamareiras não colhe tâmaras. A China é tradicionalmente inovadora — seu passado foi erguido em pedra; seu presente, em dados. Não trouxe um modelo a ser copiado, mas dez estudantes cientes de que o mundo é vasto e exigente. Resta a provocação: quanto da seriedade asiática podemos absorver sem pagar o mesmo preço social? A resposta começa a ser formulada agora, ainda na escola.
*Head de Marketing do Colégio Bandeirantes. Em julho de 2026, acompanhou dez alunos em uma imersão de 20 dias por Xangai, Pequim e Frankfurt










