Quando falamos em avaliações, precisamos ser precisos.
Temos avaliações somativas, formativas e diagnósticas. Temos avaliações abertas e objetivas. Temos diversas etapas do processo. Ao falarmos em avaliações de forma genérica, não conseguimos discernir onde estão os bons e maus casos de uso de tecnologia nessa cadeia de valor.
Para discutirmos esse tema, trouxe para o papo um empreendedor que mergulhou a fundo na questão.
Luiz Gonzaga, CEO da Lize Edu, edtech do Rio Grande do Norte, chegou a trabalhar como fiscal de prova e suas experiências trouxeram o início da empresa, focada na aplicação da avaliação em si.
Mas, com uma curiosidade fora do comum, foi se aprofundando em toda cadeia avaliativa, detalhes que levam da construção de um item até os diagnósticos e intervenções gerados a partir dele.
Em nosso papo, falamos sobre a trajetória da empresa (que envolve até uma sanfona…), o que IA já impacta nas avaliações (e o que devemos preservar), os desafios de implantar sua tecnologia em contextos muito diversos e um insight peculiar para alguém atuando no setor de avaliações.
1 – Conte sobre sua trajetória até aqui
Minha jornada começou de um jeito bem empreendedor e, curiosamente, com uma relação direta com o meu nome também rsrs.
Assim que terminei o ensino médio, coloquei o curso de Direito para o período da noite porque queria trabalhar durante o dia e começar a ter minha própria renda. A primeira oportunidade veio dentro da própria escola onde eu tinha estudado. Os professores não aplicavam as provas e comecei a trabalhar como fiscal de prova.
Foi ali que comecei a enxergar algo além daquele trabalho pontual. Eu via os coordenadores extremamente sobrecarregados com a rotina da escola e, nos períodos de prova, ainda precisavam recrutar pessoas, organizar escalas, substituir faltas, treinar e acompanhar toda aquela operação. Pensei: por que não transformar isso em um serviço?
Fiz uma proposta para as diretoras da escola: eu assumiria a responsabilidade de selecionar, capacitar e gerenciar os aplicadores. Elas aceitaram de primeira. E aí entra a brincadeira com meu nome. Sendo Luiz Gonzaga, eu tinha comprado uma sanfona para tentar honrar meu nome kkk. Vendi a sanfona, usei o dinheiro para abrir a empresa, comprar os primeiros materiais e contratar uma consultoria para desenvolver uma formação específica para pessoas que aplicariam avaliações para menores de idade.
Foi assim que nasceu a Fiscallize.
O que começou dentro de uma escola cresceu e se transformou em uma operação que hoje realiza mais de 120 mil aplicações por ano em diferentes regiões do Brasil.
Mas talvez o principal resultado dessa jornada não tenha sido somente construir uma empresa. Foi ter a oportunidade de acompanhar muito de perto como as avaliações aconteciam dentro das escolas. Com o tempo, comecei a perceber que a aplicação era apenas uma pequena etapa de uma jornada muito maior.
Antes da prova existe planejamento, matriz, elaboração e organização. Depois dela existem correção, dados, diagnóstico e, principalmente, a necessidade de transformar tudo isso em direcionamento pedagógico.
Foi dessa inquietação que nasceu a Lize Edu.
A Lize representa justamente essa evolução do meu pensamento. Se na Fiscallize começamos resolvendo uma etapa operacional da avaliação, na Lize passamos a olhar para a jornada inteira. Nossa tese hoje é conectar processos, dados e direcionamentos para ajudar escolas e redes a tomarem decisões melhores e potencializarem a aprendizagem de forma cada vez mais inteligente e personalizada.
Ao longo desses nove anos empreendendo no setor, tive a oportunidade de acompanhar processos avaliativos que passaram por mais de 5 mil escolas públicas e privadas. E quanto mais me aprofundo, mais percebo o quanto ainda existe para transformar.
Inclusive, hoje faço Pedagogia justamente por isso. Comecei essa história olhando para uma oportunidade de negócio dentro de uma operação. Com o tempo, fui entendendo que, para construir soluções realmente relevantes em educação, precisava me aprofundar cada vez mais no processo pedagógico e no impacto que queremos gerar na aprendizagem.
Acho que essa é a linha que melhor resume minha trajetória até aqui: comecei aplicando provas, depois passei a organizar a aplicação, em seguida comecei a entender toda a jornada avaliativa e hoje estou construindo tecnologia para tentar conectar essa jornada àquilo que realmente importa, que é melhorar a aprendizagem.
2 – Em sua experiência, o que já mudou com a chegada da IA em relação a avaliações? O que deveria mudar? E o que deveríamos preservar?
Trazendo especificamente para o meu contexto, que é avaliação, eu gosto de separar o impacto da IA em duas grandes frentes.
A primeira é uma frente mais processual. Existe uma quantidade enorme de tempo do educador que ainda é consumida por tarefas como diagramação, criação de diferentes modelos de prova, ajustes de fonte e formato, organização de conteúdos, adaptação de questões e revisão de padrões.
Nesse sentido, a IA já começou a mudar bastante a dinâmica. Ela consegue reduzir retrabalho, acelerar etapas e devolver tempo para o professor. E acho que esse é um ponto importante: muitas vezes falamos de IA pensando somente em geração de conteúdo, mas existe um potencial enorme simplesmente em tornar os processos educacionais mais eficientes.
A segunda frente, e para mim talvez a mais relevante, é pedagógica.
Começamos a ter capacidade de correlacionar uma quantidade de informações que antes era muito difícil de analisar de maneira prática. Objetos do conhecimento, competências, habilidades, desempenho histórico, questões, turmas e avaliações podem começar a conversar entre si.
Isso permite sair de um relatório que simplesmente diz que um aluno acertou 60% de uma prova e começar a responder perguntas mais relevantes: em quais habilidades ele está com dificuldade? Essa dificuldade aparece também em outros conteúdos? É um problema individual, da turma, da escola ou da rede? Qual intervenção pode fazer sentido a partir daquele diagnóstico?
E isso pode acontecer em diferentes camadas, desde uma visão mais macro de uma rede de ensino, passando pela escola e pela turma, até chegar no detalhe de um aluno.
O que ainda precisa mudar bastante, na minha visão, é a nossa própria relação com a IA.
Quando converso com educadores e acompanho isso na prática, percebo que muitas vezes ainda existe uma postura muito fiscalizadora em relação à tecnologia. O primeiro movimento é procurar onde a IA errou, qual questão ficou ruim ou qual resposta ela não conseguiu entregar.
Claro que precisamos ter senso crítico, principalmente em educação. Mas acredito que o olhar deveria mudar de “a IA consegue fazer exatamente o que eu faço?” para “como essa tecnologia consegue potencializar aquilo que eu faço?”.
Para mim, a IA entra principalmente em três pilares: tempo, qualidade e processo.
Ela pode ajudar o educador a produzir mais rápido, diminuir trabalhos repetitivos, identificar padrões que seriam difíceis de enxergar manualmente e sugerir caminhos. Mas a responsabilidade pela decisão precisa continuar sendo humana.
E é justamente isso que eu acho que devemos preservar: o educador no controle.
A IA pode apoiar na organização das informações, na análise dos dados, na identificação de padrões e na geração de recomendações, mas o direcionamento pedagógico precisa continuar considerando contexto, experiência e intenção do educador.
Então, resumindo, vejo a IA como uma camada de apoio à decisão e à execução. O objetivo não deveria ser substituir o educador, mas aumentar sua capacidade de trabalhar com mais eficiência, mais informação e melhores ferramentas para tomar decisões pedagógicas
3 – Quais as condições para que avaliações sejam um instrumento pedagógico efetivo?
Aí é que tá… acho que o primeiro passo é entender qual é a finalidade daquela avaliação dentro de um planejamento.
Nem toda avaliação precisa necessariamente ter como objetivo medir profundamente o nível de aprendizagem. Eu posso, por exemplo, aplicar uma avaliação com a finalidade de acompanhar engajamento, participação ou recorrência de determinadas dificuldades. E esse indicador, quando cruzado com outros dados, pode ajudar a entender melhor o próprio processo de aprendizagem.
Por isso, para mim, uma avaliação efetiva não começa na prova em si. Ela precisa estar conectada a um calendário, a um currículo, a uma matriz de referência e, principalmente, a uma expectativa clara de aprendizagem: quais competências, habilidades ou conhecimentos eu espero que aquele aluno desenvolva?
É isso que permite gerar os metadados corretos e transformar o resultado em algo útil.
A avaliação não pode terminar apenas dizendo se o aluno acertou ou errou, ou qual nota ele tirou. Ela precisa me ajudar a entender o que ele já desenvolveu, onde estão as lacunas e qual direcionamento eu preciso dar a partir dali.
Então acho que precisamos caminhar cada vez mais de uma avaliação apenas descritiva para uma avaliação mais prescritiva.
Mais do que dizer que uma turma ta mal, eu quero entender quais competências estão abaixo da expectativa, quais padrões aparecem nesses resultados e qual ação pedagógica eu preciso priorizar.
No fim, para mim, uma avaliação é realmente efetiva quando conecta três coisas: o que eu esperava que o aluno aprendesse, o que as evidências mostram que ele aprendeu e o que eu vou fazer a partir dessa diferença. Mas deixando claro que isso é bem complexo e estamos em uma fase de bastante descobertas e aprofundamentos hahaha.
4 – Você já atuou em diversas regiões do país. O que facilita e dificulta implementar sua tecnologia?
Acho que, de cara, uma das maiores facilidades que eu vejo é a capacidade de interoperabilidade e integração que pensamos desde a construção da plataforma.
Ter nascido com uma estrutura de APIs bem organizada nos dá uma vantagem grande na hora de implantar, porque reduz barreiras e faz com que a Lize consiga conversar mais rápido com o ecossistema que a instituição já utiliza.
Claro que existem níveis de maturidade diferentes. No setor privado, vejo que boa parte das instituições já superou uma primeira etapa de digitalização e conectividade das informações. No setor público, isso ainda acontece de forma muito desigual entre redes e regiões. Então chegar preparado para integrar com diferentes realidades facilita bastante.
Mas acho que implantação não é só tecnologia.
Tecnologia é feita por pessoas, para pessoas, e isso sempre vai ser uma parte central. Ter clareza sobre métricas de sucesso, SLAs, responsabilidades, treinamento e suporte muitas vezes impacta mais a implantação do que uma funcionalidade específica. Clareza, acompanhamento e um bom suporte conseguem, inclusive, compensar limitações tecnológicas em vários momentos.
O que mais dificulta, na minha visão, é a falta de uma dor única e previsível para todas as instituições.
Educação é um organismo muito vivo. A realidade muda bastante de uma rede para outra, de uma região para outra e até entre escolas de uma mesma rede.
Eu posso entrar em uma instituição em que o processo de elaboração e aplicação de provas já funciona muito bem, mas o grande problema está na demora para gerar e interpretar os resultados. Em outra, a correção pode ser rápida, mas o processo de elaboração é completamente descentralizado e gera muito retrabalho.
Além disso, não existe uma única pessoa que precisa ser engajada. Normalmente estamos falando de gestores, coordenadores, professores, equipes de tecnologia e, em alguns casos, diferentes níveis da administração pública.
Então, para mim, o principal desafio de escala está justamente aí: construir uma tecnologia suficientemente padronizada para ganhar eficiência, mas flexível o bastante para se adaptar a diferentes níveis de maturidade, dores e contextos educacionais.
5 – Alguma crença forte que tinha que sua experiência provou errada?
Essa a gente já conversou em algum dos nossos cafés rsrs. Acho que a primeira que me vem à cabeça, e talvez seja até um pouco polêmica para alguém que empreende com avaliação, é que avaliação, por si só, não melhora aprendizagem.
Ela pode gerar evolução do aluno em relação a ele mesmo, até porque existem fatores ligados ao próprio ato de fazer uma prova, como gestão de tempo, estratégia, nervosismo e familiaridade com o formato. Tudo isso influencia o resultado.
Mas quando eu vou mais a fundo e olho para proficiência, percebo que a evolução depende muito mais do ponto de partida do aluno e das lacunas de aprendizagem que ele acumulou ao longo do caminho.
Então, para mim, a avaliação é muito mais um meio do que um fim.
O valor está em conseguir estruturar bem esse instrumento, gerar bons dados e usar inteligência não só artificial mas de dados para interpretar onde estão as lacunas, quais competências ainda precisam ser desenvolvidas e qual intervenção faz sentido a partir dali.
E acho que entra um outro aprendizado importante: essas etapas não podem ficar desconectadas.
Planejamento, estruturação, criação, aplicação, análise e intervenção precisam fazer parte de uma mesma jornada, de forma clara e simples para o educador. Quando essas etapas conversam entre si, a avaliação deixa de ser apenas um registro do que aconteceu e passa a ajudar no direcionamento do que precisa acontecer depois.
Acho que minha crença mudou justamente aí. Antes eu dava mais peso para a avaliação como instrumento em si. Hoje vejo que o impacto está muito mais na capacidade de conectar essa jornada e transformar o resultado em ação.
E não estou dizendo que já chegamos lá. Pelo contrário. Acho que esse é justamente o caminho que estamos começando a construir e que, na minha visão, pode virar o jogo para gerar um impacto mais concreto na aprendizagem.
A avaliação ajuda a localizar o problema. O ganho real acontece quando conseguimos conectar esse diagnóstico à intervenção certa.
Edtechs
Lize Edu
Solução ponta a ponta para avaliação escolar
Brasil
A Lize nasceu da Fiscallize, empresa criada dentro de uma escola para resolver um problema operacional específico: recrutar, capacitar e gerenciar as pessoas que aplicam provas. A operação cresceu e hoje realiza mais de 120 mil aplicações por ano em diferentes regiões do país. Recentemente, sua operação deu um salto incluindo a aplicação de mais de 4 milhões de provas em um estado.
A empresa saiu de um problema específico para olhar o ciclo todo pela compreensão de que a aplicação é uma fatia pequena de uma jornada bem maior. Antes dela existem calendário, matriz de referência, elaboração e diagramação. Depois dela existem correção, dados, diagnóstico e a necessidade de transformar tudo isso em direcionamento pedagógico. A plataforma passou a cobrir essa jornada inteira, da geração de itens à análise de resultados, com a contratação de fiscais permanecendo como parte da entrega.
Super Professor
Banco de questões para elaboração de provas
Brasil
Ocupa as duas primeiras etapas da cadeia avaliativa, a guarda de itens e a montagem do caderno. Começou em 1993, fundada por um grupo de professores com o mesmo problema: preparar muitas provas, simulados e listas com pouco tempo e material insuficiente. O banco declarado hoje passa de 200 mil questões vindas de vestibulares, ENEM e Enade, todas resolvidas e comentadas, com questões anuladas ou adaptadas pelas bancas sinalizadas.
O professor filtra por ano, assunto, palavra-chave e grau de dificuldade e escolhe o destino: gerar um documento Word totalmente editável para imprimir ou disponibilizar as questões online e receber os resultados consolidados, incluindo o índice de acerto por questão na turma. Existe plano individual e plano para instituições, com ambiente de coordenação para distribuir créditos entre professores e acompanhar relatórios.
O modelo de cobrança é por questão utilizada, a navegação pelo banco é ilimitada e só o uso consome saldo. Essa precificação, em vez de assinatura por aluno, indica onde está o valor percebido nessa etapa. A empresa endereça exatamente a frente processual descrita na entrevista, o tempo do educador consumido por diagramação, formato e montagem, há mais de trinta anos.
Proctorio
Fiscalização automatizada de provas online
Estados Unidos
Resolve a mesma etapa que a Lize resolve com operação humana, a aplicação, por outro caminho. O software monitora o estudante pela câmera, pelo microfone e pelo comportamento no navegador, e devolve ao docente uma pontuação de suspeita para revisão. A empresa acumula histórico de falsos positivos, de falha de detecção facial com estudantes de tons de pele mais escuros e de disputas judiciais com pesquisadores e alunos que a criticaram publicamente.
O desenho da implantação muda o que a ferramenta significa. Falarei sobre avaliações na Estônia em um card adiante e estudando sobre o tema, descobri que, no ensino superior estoniano, o uso do Proctorio integrado ao ambiente virtual exige consentimento do estudante, porque a solução grava imagem, som, tela e localização, e o professor revisa o que foi marcado antes de qualquer consequência. A arquitetura de decisão é outra, e é interessante notar que é uma nação que se preocupa muito com o tema de cybersegurança e privacidade.
Enquanto isso, a regulação europeia já classificou essa categoria inteira. No AI Act, sistemas para monitorar e detectar comportamento proibido de estudantes durante provas figuram como alto risco, ao lado de admissão, avaliação de resultados de aprendizagem e definição do nível de ensino do aluno. As obrigações correspondentes são gestão de risco, documentação técnica, registro de logs e supervisão humana, e passam a ser exigíveis a partir de dezembro de 2027.
Numbas
Sistema aberto de avaliação em matemática
Reino Unido
Desenvolvido pela unidade de e-learning da Escola de Matemática, Estatística e Física da Universidade de Newcastle, roda inteiramente no navegador sob licença aberta. Cada questão é randomizada por variáveis matemáticas, o que gera versões diferentes para alunos diferentes a partir do mesmo enunciado, e a correção avalia expressão algébrica em vez de comparar texto com gabarito.
O sistema se conecta ao ambiente virtual que a instituição já usa e devolve a nota direto para lá, sem o professor precisar transportar resultado de um lugar para outro. O acervo público reúne milhares de questões abertas, que qualquer docente pode reaproveitar e adaptar. O uso se concentra no ensino superior.
Na cadeia, ocupa a etapa da correção e serve para separar duas coisas que costumam aparecer juntas no debate atual. A correção automática de itens objetivos está resolvida há mais de uma década e sem IA generativa. O julgamento de resposta construída é onde há potencial de modelos de linguagem.
ACER
Instituto de pesquisa e operador de avaliações em larga escala
Austrália
Fundado em 1930, o Australian Council for Educational Research virou operador de tecnologia de avaliação. O conjunto PAT funciona em plataforma própria com testes adaptativos, correção automática e relatórios na conta da escola, e a organização afirma que mais da metade das escolas australianas o utiliza.
Fora da Austrália, opera avaliações regionais inteiras, entre elas a PILNA no Pacífico e a SEA-PLM no sudeste asiático, além de trabalhar com UNESCO, UNICEF e Banco Mundial. O produto central é a escala de progressão de aprendizagem, que permite comparar o mesmo aluno ao longo de anos e comparar sistemas educacionais entre si.
Ocupa a última etapa da cadeia, a psicometria. Quando a entrevista afirma que a evolução do estudante depende mais do ponto de partida e das lacunas acumuladas do que da prova em si, é dessa camada que se está falando. Sem escala calibrada, o resultado volta a ser percentual de acerto e a comparação entre anos deixa de ter significado para transformações pedagógicas.
1EdTech
Consórcio que mantém os padrões abertos de dados educacionais
Estados Unidos
O 1EdTech escreve as regras que permitem que informação circule entre as ferramentas que uma escola usa. São acordos sobre formato: como uma questão de prova sai de uma plataforma e entra em outra, como a lista de turmas e matrículas chega às ferramentas sem alguém redigitar, como uma nota volta para o sistema onde o professor lança. Nada disso é visível para quem está na sala de aula, mas é o que separa uma integração de duas semanas de um projeto de seis meses.
O consórcio também certifica os produtos que seguem essas regras, o que muda a conversa na hora da compra. A escola deixa de depender do que o fornecedor diz sobre a própria ferramenta podendo conferir certificações. Vários registros que já estão neste repositório dependem desses acordos, uma camada silenciosa para geração de confiança.
Na cadeia da avaliação, é a costura entre todas as etapas. Quando a entrevista atribui a facilidade de implantação ao fato de ter nascido com uma estrutura de APIs bem organizada, o que está por trás é isso: existir um formato comum. A existência de formatos comuns entre diferentes edtechs e sistemas de gestão poderia evoluir a forma como operamos no ecossistema.
Software da agência estatal estoniana que opera o sistema nacional de exames
Estônia
O Exams Information System é a plataforma pública onde as provas nacionais estonianas são montadas, aplicadas e corrigidas. A gestão passou a ser interna à agência em 2025 e a hospedagem foi movida para a nuvem do governo. Os testes padronizados de matemática são corrigidos de forma totalmente automática desde 2022, e no exame de nono ano as respostas construídas são distribuídas para correção humana entre avaliadores que não corrigem alunos da própria escola.
Em paralelo, o país roda desde setembro de 2025 o AI Leap, programa que levou IA generativa ao aprendizado de dezenas de milhares de estudantes e professores, com a Universidade de Tartu acompanhando efeitos cognitivos de longo prazo. Ainda assim, a pontuação por IA ficou fora dos exames previstos para 2027 e não está na agenda de curto prazo.
O contraste ajuda a organizar o debate, porque separa duas coisas que costumam andar juntas. Uma é o tipo de questão: na objetiva a resposta é única e verificável, na dissertativa existem caminhos diferentes que exigem julgamento. A outra é a consequência: há avaliação que vira nota e define trajetória, e há avaliação que serve para o professor decidir o que fazer na próxima aula, a formativa. O mesmo país aparece fazendo escolhas distintas em três situações. Onde a resposta é fechada, automatiza. Onde o software levanta suspeita, alguém confere antes de virar consequência. Onde a nota define trajetória, mantém a decisão com o professor.

O educador21 amplia sua parceria com Guilherme Cintra, colunista da Tecnologia que Humaniza, ao trazer para o portal os conteúdos do EdTech da Semana. A iniciativa realiza um mapeamento contínuo das principais tendências, tecnologias e empresas que transformam a educação no Brasil e no mundo. Todos os textos são reproduzidos do site original.










