Tatiana Rodrigues Carneiro, especialista em Educação Online e Tecnologias de Aprendizagem e coordenadora dos cursos de graduação da Faculdade Unimed, mostra por que avaliar respostas de IA é tão importante quanto saber utilizá-la
Tatiana Rodrigues Carneiro*
A inteligência artificial já chegou ao cotidiano das organizações. Está presente na produção de conteúdo, na análise de dados, no atendimento ao cliente, na tomada de decisões e em uma infinidade de tarefas que, até pouco tempo atrás, dependiam exclusivamente da capacidade humana. A velocidade dessa transformação, no entanto, criou um paradoxo: quanto mais fácil se torna produzir respostas, maior é a necessidade de saber fazer perguntas, avaliar informações e reconhecer quando uma resposta está errada.
O Brasil acompanha a expansão global da tecnologia. Segundo o relatório State of AI in the Enterprise, da Deloitte, 34% das organizações pesquisadas já utilizam Inteligência Artificial para promover mudanças estruturais em seus negócios. Entre as empresas brasileiras, o percentual chega a 42%. Outro levantamento, realizado pela Leadership IQ com 1.251 executivos, diretores e gerentes, mostra que 79,5% utilizam ferramentas de IA semanalmente.
O avanço da adoção, porém, não significa necessariamente maturidade no uso. O Relatório de Proficiência em IA 2026, da plataforma de educação executiva Section, aponta uma distância significativa entre percepção e competência: enquanto 54% dos profissionais se consideram proficientes no uso da tecnologia, apenas 10% demonstraram esse domínio em avaliações práticas. A questão que esses números colocam é maior do que a capacidade de operar uma ferramenta. O desafio está em formar pessoas capazes de conviver com sistemas que produzem respostas cada vez mais convincentes, inclusive quando estão erradas.
A IA generativa democratizou o acesso à informação, acelerou processos e ampliou a produtividade. Mas também trouxe um novo risco: o da terceirização do pensamento. Quando uma resposta aparece pronta, bem escrita e aparentemente coerente, a tentação de aceitá-la sem questionamento é grande. O problema é que fluência não é sinônimo de verdade, assim como velocidade não é sinônimo de qualidade.
Nesse cenário, o pensamento crítico deixa de ser uma competência desejável e passa a ser uma condição para o uso responsável da tecnologia. Saber utilizar Inteligência Artificial significa também compreender seus limites, questionar suas respostas, verificar fontes, identificar vieses e reconhecer inconsistências. O profissional mais preparado para o futuro não será necessariamente aquele que sabe produzir o melhor comando para uma ferramenta, mas aquele que consegue avaliar o resultado que recebe e decidir o que fazer com ele.
Essa discussão ganha contornos ainda mais relevantes quando observamos modelos de organização baseados na participação e na construção coletiva de decisões, como o cooperativismo. Em uma sociedade na qual algoritmos passam a mediar cada vez mais escolhas, preservar a autonomia humana e a capacidade de deliberação coletiva torna-se estratégico.
Foi a partir dessa perspectiva que conduzi, ao lado do diretor acadêmico da Faculdade Unimed, Fábio Gastal, e da superintendente de Educação, Projetos e Comunicação da instituição, Natalia Krohling, uma experiência com 145 estudantes da graduação em Gestão de Cooperativas. A proposta era utilizar a Inteligência Artificial não como atalho para respostas prontas, mas como instrumento de investigação e aprendizagem.
Divididos em 21 grupos, os alunos receberam o desafio de enfrentar um problema organizacional e, por meio da IA generativa, simular uma entrevista com um dos Pioneiros de Rochdale, grupo de pensadores e fundadores do cooperativismo moderno, na Inglaterra de 1844. Para construir a atividade, precisaram pesquisar o contexto histórico, compreender a trajetória dos personagens e desenvolver comandos capazes de orientar a ferramenta na reprodução de suas características, linguagem e perspectivas.
A experiência, entretanto, não terminou quando a IA apresentou suas respostas. Foi justamente naquele momento que começou a parte mais importante do trabalho. Os estudantes tiveram de confrontar o conteúdo produzido pela tecnologia com referências históricas, legislação brasileira e literatura especializada. Ao fazer isso, identificaram inconsistências, imprecisões e as chamadas “alucinações” — informações incorretas ou inventadas apresentadas pelos sistemas de IA com aparência de veracidade.
Esse exercício revela uma mudança fundamental no processo de aprendizagem. Se, no passado, o acesso à informação era um dos principais desafios da educação, hoje o problema é também saber o que fazer diante do excesso de informação disponível. A formação não pode se limitar à transmissão de conteúdos. Precisa ensinar a investigar, comparar, contextualizar, questionar e construir argumentos.
O mesmo vale para o ambiente corporativo. Organizações que incorporam Inteligência Artificial sem preparar suas equipes para avaliar criticamente seus resultados correm o risco de apenas automatizar erros em escala. A tecnologia pode acelerar decisões ruins com a mesma eficiência com que acelera decisões acertadas.
Por outro lado, quando utilizada com método e responsabilidade, a IA pode ampliar justamente as competências que continuam sendo essencialmente humanas. A experiência com os estudantes mostrou isso. Mesmo distribuídos em diferentes regiões do país, eles trabalharam de maneira colaborativa, dividiram responsabilidades, negociaram interpretações, construíram consensos e buscaram soluções coletivas para problemas complexos. A tecnologia, nesse caso, não substituiu o pensamento. Provocou-o.
Essa talvez seja uma das principais questões que a sociedade precisa enfrentar diante da expansão da Inteligência Artificial. O debate não deveria se restringir a quantas profissões serão transformadas ou a quantas tarefas poderão ser automatizadas. Precisamos discutir que tipo de profissional e, sobretudo, que tipo de cidadão queremos formar em um mundo no qual máquinas são capazes de produzir respostas em poucos segundos.
A educação tem papel central nessa transição. Será cada vez mais necessário desenvolver pessoas capazes de formular perguntas relevantes, analisar diferentes perspectivas, reconhecer limites, validar informações e tomar decisões orientadas por princípios éticos.
A Inteligência Artificial pode escrever, calcular, sintetizar, comparar e criar. Mas a responsabilidade por definir propósitos, avaliar consequências e fazer escolhas continua sendo humana. Quanto mais inteligentes forem as máquinas, portanto, maior será a responsabilidade de formar pessoas capazes de pensar.
O verdadeiro diferencial da era da Inteligência Artificial não estará apenas em quem dominar a tecnologia, mas em quem souber dialogar com ela sem abrir mão do próprio julgamento. Afinal, em um mundo de respostas instantâneas, talvez a competência mais valiosa seja justamente aquela que nos permite parar, duvidar e perguntar: isso está certo?
*_Especialista em Educação Online e Tecnologias de Aprendizagem e coordenadora dos cursos de graduação da _Faculdade Unimed










