Marcel Costa analisa como avaliações podem revelar onde a aprendizagem se interrompe e orientar intervenções mais precisas
Os resultados mais recentes do Pisa voltaram a colocar a educação brasileira diante de números difíceis de ignorar. Em Matemática, o Brasil alcançou 377 pontos; em Leitura, 408; e, em Ciências, 409. Na Matemática, apenas 28% dos estudantes brasileiros atingiram pelo menos o nível 2 de proficiência, enquanto a média da OCDE foi de 65%. Em Leitura, 49% chegaram a esse patamar, contra 69% na média dos países da organização.
Os números são importantes. Mas talvez a pergunta mais importante esteja em outro lugar.
Quando uma avaliação mostra que um aluno não aprendeu, precisamos descobrir mais do que quanto ele errou. Precisamos entender onde, quando e por que a aprendizagem deixou de acontecer.
Essa mudança de pergunta altera a maneira como olhamos para o problema. Uma nota baixa mostra que existe uma dificuldade, mas não revela necessariamente sua origem. Dois estudantes podem chegar ao mesmo resultado e precisar de caminhos completamente diferentes.
Um pode não ter compreendido determinado conceito. Outro pode carregar uma lacuna anterior que dificulta aquele conteúdo. Um terceiro pode até conhecer o assunto, mas não conseguir utilizá-lo diante de uma situação diferente daquela trabalhada em aula. O resultado pode ser parecido. O problema educacional, não.
O que os números realmente revelam
O Pisa não procura apenas verificar se o estudante conhece determinado conteúdo. A avaliação busca identificar sua capacidade de utilizar conhecimentos e habilidades para resolver problemas e lidar com situações do mundo real.
Isso nos leva a uma distinção fundamental: saber um conteúdo não significa necessariamente saber utilizá-lo.
Um estudante pode memorizar uma definição ou resolver um exercício semelhante aos exemplos apresentados em aula. O aprendizado aparece de maneira mais profunda quando ele consegue reconhecer aquele conhecimento em uma situação nova, estabelecer relações, interpretar informações, formular hipóteses, perceber um erro e buscar uma solução.
É justamente aí que os resultados do Pisa merecem atenção. O relatório aponta dificuldades em competências como avaliar informações, refletir criticamente e integrar diferentes evidências, além de situações em que respostas rápidas acabam prevalecendo sobre uma leitura cuidadosa e uma atenção mais prolongada.
Não estamos falando apenas de desempenho em uma prova. Estamos olhando para uma questão maior: como o conhecimento está sendo construído e utilizado.
A dificuldade pode ter começado muito antes
Quando um estudante não consegue avançar em um conteúdo mais complexo, é natural tentar resolver o problema exatamente ali, naquele assunto.
Mas nem sempre é ali que está a origem da dificuldade.
Uma dificuldade em equações pode esconder uma fragilidade anterior em operações matemáticas. Um problema para compreender Física pode estar relacionado à leitura do enunciado. Uma dificuldade para escrever uma redação pode ter relação com repertório, organização das ideias ou compreensão de textos.
Por isso, antes de perguntar “como ensinar isso?”, talvez seja mais importante perguntar:
“O que este aluno precisa saber ou conseguir fazer para aprender isso?”
A pergunta muda o ponto de partida. Em vez de organizar a resposta apenas a partir do conteúdo que deveria ser ensinado, começamos pelo que o estudante efetivamente consegue fazer.
Mais informação não significa mais aprendizagem
O relatório do Pisa traz outro alerta relevante. Em um ambiente marcado por excesso de informação, telas e inteligência artificial, ter acesso ao conteúdo não garante aprendizagem.
A tecnologia pode ajudar a ampliar o esforço cognitivo, mas também pode criar atalhos que eliminam justamente o esforço necessário para aprender.
O mesmo vale para a educação. Podemos oferecer mais aulas, exercícios, vídeos, plataformas, simulados e materiais. Tudo isso pode ser útil. Mas a pergunta essencial continua sendo: o que está acontecendo com aquele estudante durante esse processo?
Ele está compreendendo? Consegue relacionar conhecimentos? Percebe os próprios erros? Está conseguindo avançar?
Para responder a essas perguntas, é preciso acompanhar a aprendizagem.
É aqui que entra a Engenharia Educacional
A Engenharia Educacional parte dessa necessidade: observar, analisar e acompanhar a aprendizagem para compreender melhor o estudante.
Não significa transformar a educação em números. Significa usar as informações disponíveis para enxergar melhor aquilo que está acontecendo.
Uma avaliação, por exemplo, pode ser muito mais do que uma nota. O erro pode mostrar um caminho. Uma dificuldade pode revelar uma lacuna. E o acompanhamento pode ajudar a definir qual deve ser o próximo passo.
Esse olhar vale para a escola, para o reforço escolar e também para o acompanhamento individual.
Reforçar, nesse sentido, não deveria significar simplesmente explicar novamente aquilo que já foi explicado. Às vezes, será preciso retomar um conhecimento anterior. Em outras, mudar a forma de apresentar o conteúdo. Pode ser necessário trabalhar leitura, interpretação ou raciocínio antes de voltar ao assunto específico. O caminho precisa partir do diagnóstico.
É por isso que dois estudantes com a mesma nota podem precisar de percursos diferentes. E é também por isso que o acompanhamento individual pode revelar aspectos que uma estrutura coletiva nem sempre consegue identificar com a mesma precisão.
O que fazemos com os dados?
Os resultados do Pisa e de outras avaliações são importantes porque ajudam a enxergar tendências que dificilmente seriam percebidas apenas pela observação cotidiana.
Mas nenhum indicador substitui o olhar sobre o estudante. O próprio debate recente sobre Pisa e Ideb mostra que avaliações diferentes podem produzir retratos diferentes da educação. Isso não significa que uma esteja certa e a outra errada. Elas utilizam instrumentos e objetivos distintos. O desafio é compreender o que cada uma consegue revelar sobre a aprendizagem.
Talvez essa seja uma das grandes questões da educação brasileira neste momento.
Já produzimos muitos dados. O próximo passo é transformar esses dados em compreensão e ação pedagógica.
Porque uma avaliação cumpre plenamente seu papel quando ajuda alguém a decidir o que fazer a seguir. E o aluno que não aprendeu não precisa apenas de uma nota que mostre isso, mas de alguém que consiga olhar para aquela informação e perguntar:
Onde a aprendizagem deixou de acontecer? Quando isso aconteceu? Por que aconteceu? E o que precisamos fazer agora para que ela volte a acontecer?
É desse movimento, que permeia do ponto do resultado para o diagnóstico, e do diagnóstico para a ação e da ação para o acompanhamento que podemos começar a construir caminhos mais precisos para que o aluno volte a aprender.

Marcel Raminelli Costa é CEO da IntegralMind, professor e engenheiro formado na Poli-USP.










