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Documento assinado no encerramento sintetiza dois dias de debates sobre currículo, IA, equidade, bilinguismo, formação docente e gestão escolar

A educação global deixou o campo das iniciativas pontuais e terminou o International Education Summit 2026 como uma discussão sobre cultura institucional. Após dois dias de debates em São Paulo, gestores, pesquisadores, counselors e representantes das redes pública e privada assinaram a Carta pela Educação Global e Inovação Sustentável, documento que sintetiza uma das principais conclusões do encontro: internacionalizar uma escola não significa instalar um programa, mas construir uma perspectiva que atravesse currículo, formação e gestão.

A quarta edição do Summit reuniu mais de 450 pessoas no Centro Paula Souza, nos dias 10 e 11 de setembro, em discussões que passaram por inteligência artificial, currículos globais, equidade, bilinguismo, orientação acadêmica e atividades extracurriculares. A diversidade de temas trouxe um ponto comum para o encerramento: soluções isoladas não respondem às mudanças que já pressionam a escola. O resultado depende da articulação entre decisões pedagógicas, formação das equipes e liderança institucional.

Para Lara Crivelaro, CEO da Efígie Academy, doutora em Ciências Sociais e colunista do educador21 na Coluna Educação Global, a síntese apareceu na própria forma como os dois dias trataram a internacionalização. Em vez de apresentar modelos prontos, os debates colocaram em questão como cada escola pode construir seu próprio caminho. “Em nenhuma dessas discussões a internacionalização apareceu como um produto a ser adquirido e instalado na escola. Apareceu, em todas elas, como uma condição a ser construída, dimensão por dimensão, na cultura institucional”, disse

A formulação também desloca a responsabilidade da compra para a gestão. Um programa bilíngue, uma plataforma de inteligência artificial ou uma parceria internacional podem ampliar possibilidades, mas não substituem um projeto pedagógico capaz de dar sentido a essas escolhas. Na leitura consolidada pela Carta, a internacionalização precisa estar presente no currículo, na formação docente, na equidade de acesso e nas decisões de liderança.

O encerramento também reforçou que essa agenda não pode ficar restrita às escolas privadas com maior capacidade de investimento. Ao defender a internacionalização como política pública, Lara colocou a democratização das oportunidades no centro do balanço. “Internacionalização da educação básica é política pública, não privilégio. Trabalho para tornar isso real.” A afirmação resume o deslocamento mais importante dos dois dias: discutir educação global não apenas como diferencial, mas como parte da formação que a escola brasileira precisa garantir aos estudantes.

Fotos: educador21
Fotos: educador21

Currículo invisível amplia a formação global

A internacionalização também apareceu no Summit a partir de experiências que acontecem fora da grade tradicional. No painel “O Currículo Invisível que Abre Portas para o Mundo”, Sandra Garcia, cofundadora do Instituto ELA, e Sarah Morais, diretora-executiva da Cidadão Pro Mundo, discutiram como voluntariado, cidadania ativa e domínio de idiomas podem ampliar a trajetória dos estudantes. O ponto central foi mostrar que essas experiências não servem apenas para processos seletivos internacionais: elas também ajudam adolescentes a encontrar pertencimento, responsabilidade e sentido para a própria formação.

Sandra chamou atenção para a mudança de perspectiva necessária no voluntariado. Em vez de tratar a ação social como atividade complementar ou oportunidade de acumular certificados, a escola pode colocá-la diante de problemas concretos e envolver os estudantes na busca por respostas. “Ser voluntário não é você doar aquilo que te sobra. A gente tem que doar aquilo que temos de melhor para as pessoas que mais precisam”, afirmou. Para ela, esse contato ainda pode aproximar jovens de realidades diferentes e produzir uma espécie de internacionalização dentro do próprio território.

Sarah acrescentou que o domínio do inglês continua relacionado ao acesso a oportunidades acadêmicas e profissionais, mas seu papel precisa ser compreendido dentro de uma formação mais ampla. “O inglês no nosso país ainda é um marcador social e acadêmico. Quem fala inglês abre portas na vida profissional, na inteligência artificial e na globalização”, disse. A questão, para as escolas, é transformar esse acesso em repertório e protagonismo, evitando que o idioma funcione apenas como diferencial de mercado.

A discussão dialogou ainda com outro painel do segundo dia, “Do inglês ao mundo”, que reuniu Carol Stancati. da PUC-PR, e Denise Cavalli, da Seven, para discutir bilinguismo e formação docente. O alerta apresentado foi que a expansão das escolas bilíngues não garante, sozinha, uma formação global. A proficiência pode cair quando a formação dos professores não acompanha o crescimento da oferta, e o desafio passa a ser preparar docentes para ensinar além do conteúdo linguístico. Nesse cenário, protagonismo estudantil significa também conseguir utilizar a língua para participar de relações, projetos e situações reais.

Fotos: educador21

Tecnologia só funciona com estratégia e gestão

Os debates sobre tecnologia retomaram uma preocupação que atravessou o Summit: nenhuma plataforma consegue, sozinha, internacionalizar ou transformar uma escola. No painel “Da Sala de Aula ao Mundo”, representantes da Edify, Nickelodeon/Nick Academy e outras organizações do setor discutiram o uso de plataformas digitais no ensino bilíngue e na conexão com experiências internacionais. A principal questão foi menos sobre quantidade de ferramentas e mais sobre o que o estudante realmente faz com elas.

A provocação apareceu de forma direta na pergunta lançada durante o painel: ter acesso ao mundo significa necessariamente uma experiência global? A pergunta continua sendo: o que o aluno está fazendo com tudo isso? A resposta passa por mediação docente, produção autoral e equilíbrio entre experiências digitais e presenciais. Como conclusão, se o aluno fica sozinho na tela, quando ele fecha o celular, acaba a experiência. O fator humano e a mediação do professor é o que faz o aluno agir fora do ambiente digital.

A discussão ganhou uma dimensão de gestão no painel sobre processos e inteligência artificial e também no debate “Da matrícula à finalização”, conduzido por Gabriel Lobo, da Lumni. O uso de dados foi apresentado como recurso para reconhecer padrões, identificar riscos de evasão e inadimplência e orientar ações preventivas, além de apoiar uma personalização que alcance tanto a aprendizagem quanto a relação da escola com as famílias. A lógica apresentada é que dados deixam de ser apenas registros administrativos quando ajudam a antecipar necessidades e orientar decisões.

O mesmo princípio apareceu nas discussões sobre IA e processos. Uma escola pode contratar plataformas, CRM e ferramentas de inteligência artificial, mas sem rotinas claras esses recursos tendem a acrescentar complexidade em vez de resolver problemas. A síntese apresentada no painel de gestão foi direta: “CRM sem rotina é cadastro, IA sem gestão é brinquedo.” Para o gestor, a tecnologia passa a ter valor quando está vinculada a processos definidos, formação das equipes e objetivos que possam ser acompanhados por indicadores.


Nota da Redação: Viajamos Para São Paulo a convite da Efígie Academy. As coberturas especiais do educador21 contam com o apoio da Samsung, que disponibilizou para nossa equipe o uso de tablets nas reportagens em campo. A parceria envolve exclusivamente a cessão de equipamentos, e não interfere na independência editorial do portal.

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