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Unesp e IFPR avançam em acordos de mobilidade, pesquisa e formação, ampliando caminhos para a internacionalização do ensino superior

A internacionalização do ensino superior brasileiro começa a ganhar novas frentes de cooperação com a China. Em setembro, a Unesp e o Instituto Federal do Paraná (IFPR) avançaram em acordos envolvendo mobilidade acadêmica, pesquisa, formação profissional e intercâmbio de estudantes e servidores. As iniciativas mostram como relações institucionais podem sair da agenda diplomática e chegar a projetos acadêmicos concretos.

Para gestores e líderes educacionais, o movimento chama atenção pela diversidade das frentes envolvidas. As duas instituições brasileiras estão construindo parcerias com organizações chinesas em áreas que vão da tradução e estudos sino-portugueses à medicina tradicional chinesa, tecnologia, pesquisa científica e formação de profissionais. O desenho das iniciativas também indica que a internacionalização pode ser estruturada a partir de interesses acadêmicos específicos, e não apenas por programas gerais de intercâmbio.

Na Unesp, uma delegação da Universidade Politécnica de Macau (UPM) esteve na Reitoria para discutir novas possibilidades de colaboração. As instituições assinaram um acordo que prevê cinco vagas para mobilidade de estudantes de graduação e avaliaram alternativas como intercâmbio de docentes e pesquisadores, duplo diploma e cooperação em pós-graduação. A UPM tem cerca de oito mil estudantes e oferece cursos de graduação, mestrado e doutorado.

A relação com Macau acrescenta uma dimensão estratégica à parceria. A UPM mantém forte atuação em tradução e estudos sino-portugueses e ocupa uma posição relevante nas relações da China com países de língua portuguesa. Para instituições brasileiras, essa característica pode abrir possibilidades que combinam internacionalização, formação linguística, pesquisa e circulação acadêmica entre diferentes espaços culturais.

No IFPR, uma missão institucional à China percorreu Pequim, Alaer e Chengdu para ampliar uma cooperação iniciada em junho com o Instituto de Ciência e Cultura Brasil–China (IBCC) e a Academia Chinesa de Ciências Médicas Tradicionais (CACMS). A agenda envolve mobilidade de estudantes e servidores, formação profissional, pesquisa e desenvolvimento de iniciativas bilíngues, com destaque para medicina tradicional chinesa.

Mobilidade deixa de ser única frente da internacionalização

O caso da Unesp mostra como uma parceria internacional pode avançar de um acordo inicial de mobilidade para uma agenda mais ampla de cooperação. A instituição já mantinha colaborações pontuais com a UPM, incluindo trabalhos científicos conjuntos. Em setembro de 2025, uma delegação da universidade paulista havia visitado Macau para discutir a cooperação em ensino superior, assinar um Memorando de Entendimento e conhecer estruturas de pesquisa.

“O nosso desafio a partir de agora é transformar essas parcerias e relações já existentes em ações concretas que fortaleçam um vínculo acadêmico duradouro”, afirmou a reitora da Unesp, Maysa Furlan. A fala sintetiza uma questão relevante para gestores: acordos internacionais ganham efetividade quando estão associados a projetos, recursos, mobilidade e objetivos acadêmicos definidos.

Na nova etapa, a Unesp e a UPM discutiram a possibilidade de ampliar a circulação de estudantes e professores e criar programas de duplo diploma. A experiência também pode alcançar o novo curso de graduação em Língua e Cultura Chinesas oferecido pela Unesp em Assis. O diretor da Faculdade de Letras e Tradução da UPM, Gaspar Zhang, sugeriu que a universidade de Macau participe da formação dos estudantes ou receba alunos brasileiros.

A tradução aparece como outra frente de interesse. A Fundação Editora Unesp mantém projetos voltados à tradução de clássicos chineses e planeja publicar pelo menos 20 obras nos próximos anos. Para o diretor-presidente da Fundação, Jézio Gutierre, a expansão dessa produção aumenta a necessidade de profissionais especializados. “É de se imaginar que para acelerar essa produção, nós precisaremos de mais tradutores competentes”, afirmou.

A internacionalização também alcança a pós-graduação. A pró-reitora de pós-graduação da Unesp, Maria Valnice Boldrin Zanoni, propôs explorar possibilidades de intercâmbio em programas de mestrado e doutorado por meio do Capes Global. Para as instituições, esse tipo de articulação amplia a parceria para além da graduação e aproxima internacionalização, pesquisa e formação avançada.

Crédito imagens: Marcos Jorge / ACI Unesp

China amplia possibilidades para pesquisa e formação profissional

A experiência do IFPR segue uma lógica semelhante, mas com uma agenda mais diretamente ligada à formação profissional e à pesquisa aplicada. Em Pequim, a instituição assinou um memorando de intenções com a Universidade de Medicina Tradicional Chinesa de Heilongjiang para preparar um futuro acordo de cooperação técnica. Entre as possibilidades estão intercâmbios de estudantes e servidores e a criação de cursos na área de acupuntura.

O projeto é pensado em etapas. Segundo o reitor do IFPR, Adriano Pereira, a instituição pretende inicialmente ofertar uma especialização em acupuntura e avaliar posteriormente a criação de uma graduação. A proposta está relacionada à regulamentação do exercício profissional da acupuntura no Brasil e ao interesse em aproximar formação nacional e conhecimento desenvolvido por instituições chinesas.

A agenda inclui ainda propostas de pesquisa conjunta. Em visita ao Instituto de Teoria Fundamental da Medicina Tradicional Chinesa, vinculado à CACMS, representantes discutiram a criação de um sistema terminológico bilíngue em chinês e português e de um laboratório voltado à pesquisa em dor crônica e práticas integrativas e complementares. A cooperação também pode envolver a tradução de manuais técnicos para o português e a oferta de cursos de mandarim para falantes de português.

Em Alaer, a missão brasileira avançou para possíveis projetos nas áreas de apneia do sono, pesquisa científica e formação de recursos humanos. Em Chengdu, a programação incluiu participação no Haike Cup, concurso internacional de inovação e empreendedorismo, além de reuniões e visitas técnicas. A variedade da agenda mostra que a cooperação internacional pode conectar ensino, pesquisa, inovação e desenvolvimento de competências dentro de uma mesma estratégia institucional.

Para gestores educacionais, o movimento coloca uma questão prática: como transformar acordos internacionais em oportunidades permanentes para estudantes, professores e pesquisadores? Os exemplos da Unesp e do IFPR indicam caminhos diferentes, mas convergentes, que passam por mobilidade, formação conjunta, pesquisa aplicada, tradução, idiomas e desenvolvimento de projetos com objetivos definidos.

A aproximação com a China também amplia o repertório das instituições brasileiras para a internacionalização. Em vez de concentrar esforços apenas em destinos tradicionais, universidades e institutos podem construir relações a partir de competências complementares e demandas específicas. O desafio institucional passa a ser estruturar essas conexões para que memorandos e missões se convertam em programas acadêmicos, produção científica e experiências formativas de longo prazo.

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