Integração entre edtechs começa a responder à fragmentação tecnológica que pesa sobre professores e gestores nas escolas
Débora Thomé
A tecnologia ampliou as possibilidades de trabalho nas escolas, mas também criou uma nova camada de tarefas para professores. Plataformas de aprendizagem, comunicação, avaliação e gestão nem sempre conversam entre si. O resultado aparece na rotina de quem ensina: diferentes logins, sistemas, informações e ambientes precisam ser administrados para que a tecnologia cumpra sua função.
A consolidação das edtechs começa a enfrentar esse problema com uma busca maior por integração. Danilo Yoneshige, CEO da Layers e colíder do Comitê de EdTechs da ABStartups, afirma que essa pressão já vem dos próprios usuários. “Os usuários finais desses serviços evoluíram a ideia de não querer administrar dezenas de plataformas que não conversam entre si. E isso muda completamente o jogo”, afirmou.
A questão também chega à gestão escolar. Mario Eugênio S. Onofre, pedagogo, especialista em Gestão Escolar e investidor-anjo, considera que ampliar o número de ferramentas deixou de ser suficiente. “As escolas já estão saturadas de ferramentas que não conversam entre si. O que faz diferença é ter uma estratégia única, coerente, que organize dados, facilite a rotina do professor e reduza a complexidade operacional”, afirmou.
Para o professor, portanto, a discussão sobre consolidação das edtechs ganha sentido quando a tecnologia consegue reduzir tarefas, organizar informações e liberar tempo para o trabalho pedagógico.
A escola começa a cobrar tecnologia que converse
A fragmentação não está apenas na quantidade de plataformas, mas na falta de conexão entre elas. Leo Gmeiner, CEO da School Guardian e coautor da Coluna InvestEdu no educador21, ao lado de Mario Eugênio e Christian Pensa, identifica esse problema nas conversas com gestores escolares.
“A mudança já começou e não vem da tecnologia, mas sim do esforço e risco de gerir muitas ferramentas”, afirmou Gmeiner. Para ele, as escolas começam a perceber que resolver uma necessidade pontual não basta quando cada nova solução acrescenta outra camada à operação.
Esse movimento influencia também a forma como as edtechs desenvolvem seus produtos. Gmeiner observa que empresas menores passaram a buscar hubs de inovação e parcerias acadêmicas, em vez de tentar construir todas as soluções internamente.
Danilo Yoneshige lembra que a primeira onda do setor se concentrou em problemas específicos, como comunicação, financeiro, conteúdo, avaliação e gestão acadêmica. “O resultado foi a fragmentação, cada empresa se preocupava apenas com a sua experiência”, explicou.
Agora, segundo Yoneshige, a interoperabilidade ganha espaço diante da necessidade de conectar diferentes etapas da jornada de professores, alunos e famílias. Para ele, empresas capazes de operar com outras soluções passam a entregar mais valor às instituições.
Edtechs mudam foco para integrar soluções
A integração começa a influenciar também os critérios usados para avaliar as empresas. Christian Pensa, empresário, investidor-anjo e especialista em estratégia, governança e funding, resume a mudança: “O mercado passa a premiar menos a inovação isolada e mais a capacidade de execução”, disse.
Para Pensa, que atua na Criabiz Ventures, a capacidade de integração tecnológica e a qualidade dos dados produzidos pelas plataformas estão entre os atributos que ganham relevância. A mudança ajuda a explicar por que empresas passam a buscar parcerias em vez de desenvolver todas as soluções de forma independente.
Cláudia Schulz, CEO da ABStartups, identifica uma demanda semelhante nas instituições de ensino. “As instituições de ensino buscam soluções completas, que conversem entre si e reduzam a fragmentação tecnológica”, disse. Segundo ela, o próximo ciclo também deve envolver parcerias estratégicas, aquisições e maior especialização das soluções.
Nas redes públicas, porém, integrar tecnologias exige uma infraestrutura que ultrapassa as decisões individuais das escolas. Guilherme Cintra, diretor de Inovação e Tecnologia da Fundação Lemann e autor da coluna Tecnologia que Humaniza do educador21, aponta a infraestrutura pública digital como um caminho para conectar dados, acessos e diferentes soluções. “Você cria uma camada de dados e de logins e de soluções de infraestrutura digital que permitem com que esse ecossistema seja mais integrado”, explicou.
O desafio, portanto, não é colocar mais tecnologia nas mãos do professor. É fazer com que ela funcione de maneira articulada. Como resume Mario Onofre, “a escola não precisa de ‘mais tecnologia’. Ela precisa de tecnologia que funcione de forma integrada”. Para o trabalho docente, essa diferença pode significar menos tarefas operacionais e mais espaço para ensinar.

Editora-chefe e cofounder do portal Educador21










