Amaral Cunha Junior, diretor da Escola Eleva, explica como estruturar canais de escuta, protocolos de acolhimento e suporte às equipes para incorporar o bem-estar à rotina escolar
A cultura de cuidado na escola não se consolida com palestras isoladas, campanhas temáticas ou ações concentradas em períodos específicos do ano. Para que o acolhimento faça parte da experiência de estudantes e profissionais, a gestão precisa transformar a intenção em processos cotidianos, com responsabilidades definidas, canais acessíveis e acompanhamento das situações identificadas.
Esse trabalho envolve decisões que atravessam diferentes dimensões da rotina escolar. A forma como a equipe recebe os alunos, conduz conflitos, conversa com as famílias e responde às dificuldades dos professores influencia a construção de um ambiente de confiança. O desafio está em garantir que essas práticas não dependam apenas da sensibilidade individual de alguns profissionais, mas constituam uma responsabilidade compartilhada.
Para Amaral Cunha Junior, diretor-geral da Escola Eleva Botafogo e da Escola Eleva Urca, professor há mais de 25 anos e mestre em Educação pela Framingham University, o principal divisor de águas é a incorporação do cuidado à cultura e aos processos da instituição. Isso exige que professores, coordenadores, funcionários e lideranças saibam identificar situações, escutar, registrar, encaminhar e acompanhar cada caso.
A complexidade das demandas socioemocionais também exige clareza sobre os limites de atuação da escola. A instituição tem responsabilidade no acolhimento e na identificação de necessidades, mas não substitui a família nem os profissionais clínicos quando o acompanhamento especializado se torna necessário. Para os gestores, estruturar essa atuação significa combinar sensibilidade, organização e critérios claros de encaminhamento.
Como transformar o cuidado em rotina de gestão escolar
Uma cultura de cuidado começa antes de uma situação de crise. Segundo Amaral, os estudantes precisam reconhecer os adultos de referência e confiar que serão ouvidos quando procurarem ajuda. Para isso, a gestão pode combinar tutoria, momentos de acompanhamento individual ou coletivo, proximidade dos professores, atuação da psicologia escolar, participação da coordenação, pesquisas de clima e canais formais de comunicação.
A existência desses espaços, porém, não garante que a escuta seja efetiva. O estudante precisa compreender o que acontecerá depois de relatar uma dificuldade, quais são os limites da confidencialidade e como a escola dará continuidade ao atendimento. “Um canal só é seguro quando o aluno percebe que existe confidencialidade dentro dos limites possíveis, clareza sobre os próximos passos e acompanhamento”, afirmou o diretor.
Essa continuidade depende de protocolos conhecidos pela equipe. A gestão precisa definir quem recebe inicialmente o relato, em quais situações a coordenação deve participar, quando acionar a psicologia escolar e em que circunstâncias envolver a família ou buscar encaminhamento externo. Essas responsabilidades devem estar estabelecidas antes de uma ocorrência, para que os profissionais não precisem improvisar decisões em momentos de maior pressão.
O papel da liderança é assegurar que os procedimentos funcionem sem transformar o acolhimento em uma sequência burocrática. Isso envolve formar os profissionais, revisar os fluxos, acompanhar casos e esclarecer atribuições. “Um bom protocolo deve ajudar as pessoas a tomar decisões, não burocratizá-las”, resumiu Amaral. A organização oferece segurança à equipe, enquanto o julgamento profissional, a sensibilidade e o diálogo permitem considerar as particularidades de cada situação.

Foto: Amaral Cunha Júnior, Diretor da Escola Eleva (divulgação)
Professores e gestores também precisam de cuidado
O professor costuma perceber mudanças de comportamento e dificuldades que podem passar despercebidas em outros espaços. Isso não significa, entretanto, que deva assumir funções clínicas. A formação para o acolhimento precisa ajudá-lo a reconhecer sinais de alerta, fazer perguntas adequadas, escutar sem julgamento e procurar apoio especializado dentro da escola quando necessário.
Também é importante estabelecer limites para essa atuação. O educador não deve assumir diagnósticos ou tratamentos, nem prometer sigilo absoluto diante de situações que exijam proteção e encaminhamento. Para Amaral, alguns minutos de escuta atenta de um adulto de confiança podem fazer diferença, desde que o profissional saiba reconhecer quando precisa compartilhar a situação com a equipe responsável. “O professor não precisa ser psicólogo, e não devemos colocá-lo nesse lugar”, afirmou.
A mesma lógica vale para o bem-estar dos próprios profissionais. Uma escola não constrói uma cultura de cuidado com os estudantes se mantém condições de trabalho que negligenciam as necessidades dos adultos. Na avaliação do diretor, oferecer palestras sobre saúde mental tem pouco efeito quando a rotina continua insustentável. O cuidado também depende da clareza das prioridades, da revisão de processos e cargas de trabalho, da acessibilidade das lideranças e da possibilidade de pedir ajuda sem medo.
A postura de quem lidera integra esse processo. A maneira de cobrar, conversar, reconhecer dificuldades e tomar decisões sob pressão pode contribuir para um ambiente de confiança ou ampliar o desgaste da equipe. Por isso, o suporte aos educadores precisa combinar espaços de escuta, formação e, quando necessário, acesso a atendimento profissional. Não se trata apenas de oferecer iniciativas de bem-estar, mas de examinar como a própria organização do trabalho afeta as pessoas.
Como acompanhar os resultados de uma cultura de cuidado
A consolidação dessas práticas exige acompanhamento ao longo do tempo. Amaral recomenda combinar indicadores quantitativos e escuta qualitativa para compreender o clima escolar e identificar pontos que precisam de intervenção. Pesquisas com alunos, famílias e colaboradores, dados de frequência, retenção, conflitos disciplinares, procura pelos serviços de apoio e resultados acadêmicos podem ajudar a orientar as decisões da gestão.
Os números, contudo, não devem ser analisados isoladamente. Também é necessário observar se os estudantes se sentem seguros para procurar ajuda, se os professores sabem como agir diante de situações difíceis e se as famílias confiam nos canais de comunicação. A análise desses sinais permite verificar não apenas a existência de procedimentos, mas sua efetividade na experiência cotidiana da comunidade escolar.
O gestor que pretende iniciar esse trabalho não precisa criar uma estrutura complexa de imediato. Amaral sugere começar por uma pergunta prática: quando um aluno ou professor precisa de ajuda, sabe a quem recorrer? E essa pessoa sabe como agir? Se a resposta não for clara, o primeiro passo é mapear os canais existentes, definir responsabilidades e estabelecer um fluxo simples de acolhimento e encaminhamento. Em seguida, a equipe precisa conhecer e praticar os procedimentos.
A cultura de cuidado na escola se constrói pela consistência das decisões e das relações, especialmente diante de situações difíceis. Mais do que multiplicar campanhas, a gestão precisa garantir que os profissionais saibam como agir, que os estudantes encontrem adultos preparados para ouvi-los e que cada demanda receba a continuidade necessária. Como sintetiza Amaral, “aquilo que fazemos todos os dias, especialmente nos momentos difíceis, diz muito mais sobre uma escola do que aquilo que está escrito em seus documentos”.










