Marcel Costa aborda o papel de professores e coordenadores na reta final do Enem, com foco em estratégias de aprendizagem, equilíbrio emocional e revisão de prioridades
À medida que o Enem se aproxima, cresce a pressão para estudar mais, revisar conteúdos e aproveitar cada minuto. Descansar começa a parecer perda de tempo, e qualquer dificuldade pode ser interpretada como sinal de que a preparação não foi suficiente.
Mas será que intensificar o esforço é sempre a melhor resposta?
A aprovação exige dedicação, mas estudar mais não significa necessariamente aprender melhor. Na reta final, professores e coordenadores têm um papel decisivo: ajudar o estudante a reconhecer suas dificuldades, estabelecer prioridades e direcionar o esforço para aquilo que ainda pode ser melhorado.
Diagnóstico antes de mais horas de estudo
Quando uma questão continua sendo respondida incorretamente, insistir nos exercícios nem sempre resolve. Antes de recomendar mais estudo, é preciso investigar a causa do erro. A dificuldade pode estar na compreensão do enunciado, no domínio de um conceito ou na aplicação do conhecimento. O professor pode ajudar a identificar essa origem e indicar a intervenção mais adequada, em vez de simplesmente recomendar que o aluno estude mais.
Rever uma aula ou repetir questões pode funcionar, desde que a estratégia corresponda à dificuldade identificada. Sem esse diagnóstico, o estudante corre o risco de acumular tarefas, gastar horas estudando e continuar sem resolver o problema central.
É nesse ponto que a Engenharia Educacional contribui para o trabalho pedagógico: observa o percurso do aluno, analisa resultados e ajuda a organizar intervenções de acordo com suas necessidades. Para professores e coordenadores, essa abordagem transforma evidências de aprendizagem em decisões práticas, tanto no planejamento das aulas quanto no acompanhamento individual.
Razão e emoção também contam
A ansiedade e a autocobrança excessiva podem comprometer a concentração. Um resultado abaixo do esperado em um simulado pode servir para orientar ajustes ou se transformar em mais um motivo de insegurança. A diferença está na forma como esse resultado é interpretado. A equipe pedagógica pode ajudar o estudante a compreender o que ele revela e, principalmente, quais ações podem ser tomadas a partir dele.
O equilíbrio emocional não substitui o domínio dos conteúdos, assim como a dedicação não exige exaustão. Professores e coordenadores também precisam reforçar a importância de uma rotina possível, com pausas e sono adequado. Afinal, não adianta aumentar o tempo de estudo se o cansaço compromete a capacidade de aprender. Quando a ansiedade é intensa ou persistente, pode ser necessário buscar acompanhamento profissional.
O sprint final não apaga o percurso
A reta final se parece com os metros finais de uma corrida, mas o desempenho também depende de toda a preparação anterior. Não é realista esperar compensar, em poucos dias, tudo o que não foi feito ao longo do ano.
Isso não significa que não haja mais o que fazer. Ainda há espaço para avançar com revisões direcionadas, resolução de questões e análise dos erros. Cabe à escola ajudar o estudante a distinguir o que merece atenção imediata daquilo que já foi consolidado. Acelerar sem direção consome energia; ajustar a estratégia concentra esforços no que ainda pode melhorar.
Aprovação a qualquer custo?
A aprovação pode representar a entrada no curso desejado e mobilizar expectativas do estudante, da família e da escola. O problema começa quando o jovem sente que precisa responder sozinho pelo resultado, como se todo o seu valor e sua capacidade dependessem de uma única prova.
A aprovação é importante, mas não define o valor de alguém nem resume sua capacidade de aprender. Reconhecer isso não diminui a importância do Enem. Pelo contrário: ajuda a construir uma preparação responsável, que combina compromisso, estratégia e apoio.
E se não for agora? A pergunta não deve servir de justificativa para a desistência, mas também não precisa ser proibida. Se a aprovação não vier, será possível avaliar o percurso, identificar o que funcionou e decidir os próximos passos. Às vésperas da prova, porém, o foco deve estar no que ainda pode ser ajustado, sem desperdiçar energia com cenários que ainda não aconteceram.
Preparar-se para o Enem é mais do que organizar conteúdos e cumprir uma rotina de estudos: é reconhecer dificuldades, rever estratégias e tomar decisões diante de um objetivo importante. Professores e coordenadores podem ajudar cada estudante a entender onde está, o que ainda pode melhorar e como aproveitar melhor o tempo disponível. Porque, na reta final, não basta estudar mais: é preciso saber onde concentrar o esforço para que ele realmente faça diferença.

Marcel Raminelli Costa é CEO da IntegralMind, professor e engenheiro formado na Poli-USP.










