Janguiê Diniz, diretor-presidente da ABMES e fundador do grupo Ser Educacional, discute o papel da formação superior na empregabilidade e as desigualdades que persistem no mercado de trabalho
Janguiê Diniz*
Em um país marcado por desigualdades de renda e acesso a oportunidades, discutir a empregabilidade de quem conclui a educação superior exige olhar além de uma pergunta: conseguiu trabalho? É preciso saber também se atua na área em que se formou, como evoluiu sua renda e quais desigualdades persistem. O Indicador ABMES/Symplicity de Empregabilidade (IASE) 2026 ajuda a iluminar esse debate e reforça uma responsabilidade compartilhada: a formação precisa dialogar com o mundo do trabalho, mas o mercado também deve reconhecer competências e enfrentar preconceitos.
Entre os 10.317 egressos ouvidos pelo levantamento, 85,2% declararam estar trabalhando cerca de 15 meses após a conclusão do curso. Desses, 67,2% atuavam na área de formação e 9,4% trabalhavam em outro campo por escolha própria. A distinção importa: estar empregado não significa necessariamente estar exercendo a profissão para a qual se preparou.
A renda também chama atenção. Entre os participantes que informaram os dois períodos, a média declarada passou de R$ 3.129 para R$ 5.693, aumento nominal de 81,9%. O dado ajuda a dimensionar o que pode estar em jogo para uma família quando alguém ingressa no ensino superior. Mas não permite atribuir esse crescimento exclusivamente à graduação.
Os resultados mostram ainda que não existe uma experiência única de empregabilidade. Medicina registrou 95,3% de empregabilidade e renda média de R$ 11.071; Engenharia, Produção e Construção, 89,4% e R$ 6.639; Serviços, 72,5% e R$ 3.271. A relação entre diploma e trabalho passa, portanto, pelas características de cada profissão.
Mais preocupantes são os recortes de gênero e raça. A renda média foi de R$ 6.580 entre homens e R$ 4.706 entre mulheres. Entre brancos, foi de R$ 5.792; pardos, R$ 5.006; pretos, R$ 4.710. As diferenças apareceram nas 12 áreas analisadas. O IASE não estabelece suas causas, mas deixa uma pergunta urgente: como fazer com que a ampliação do acesso ao diploma venha acompanhada de oportunidades mais equitativas?
Outro dado merece atenção. Entre os egressos que consideraram muito relevante ou essencial o apoio à carreira recebido da instituição, 78% trabalhavam na área de formação. Entre aqueles que perceberam pouco ou nenhum apoio, eram 58,2%. Trata-se de uma associação, não de prova de causalidade, mas o resultado reforça a importância de aproximar formação e mercado e acompanhar a trajetória dos egressos.
O IASE tem limites: a participação é voluntária, a amostra não é probabilística e seus resultados não representam todos os graduados brasileiros. Ainda assim, oferece informações relevantes sobre trajetórias recentes e ajuda a colocar uma questão no centro do debate educacional: o que acontece depois da formatura?
O diploma não deve ser visto apenas como o fim de uma etapa. Ele marca o início de outra, na qual a formação encontra as oportunidades — e as desigualdades — da sociedade brasileira. Acompanhar essa trajetória é essencial para que mais pessoas possam transformar conhecimento em autonomia, desenvolvimento profissional e melhores condições de vida.
Diretor-presidente da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), secretário-executivo do Brasil Educação – Fórum Brasileiro da Educação Particular, fundador, controlador e presidente do conselho de administração do grupo Ser Educacional, presidente do Instituto Êxito de Empreendedorismo, da JD Business Academy e da Mentor Capital Group*










