Quatro especialistas analisam como startups, inteligência artificial, dados e políticas públicas devem orientar decisões educacionais no próximo ciclo
Débora Thomé
O início de 2026 encontra gestores e líderes escolares diante de um paradoxo cada vez mais evidente. Ao mesmo tempo em que a tecnologia educacional se consolida como parte da rotina das escolas, cresce a dificuldade em separar soluções estruturantes de promessas passageiras. A discussão já não é mais se a inovação deve entrar na escola, mas como, com que intencionalidade e a serviço de quais problemas reais.
A maturidade do setor de edtechs no Brasil começa a deslocar o debate do encantamento tecnológico para critérios mais objetivos de impacto pedagógico, eficiência de gestão e redução de desigualdades. Inteligência artificial, dados educacionais, automação de processos e novos modelos de certificação ganham espaço, mas expõem fragilidades históricas na formação de gestores, no desenho de políticas públicas e na capacidade de implementação das escolas.
Para ajudar a construir um mapa de leitura desse cenário, quatro vozes com trajetórias complementares analisam os movimentos que devem marcar 2026: Leo Gmeiner, CBO na School Guardian e conselheiro de Edtechs da Bett Brasil; Leonardo Libman, colunista de Edtechs do educador21 e Head of Data Sales and Partnerships na Techsalerator; Guilherme Cintra, diretor de Inovação e Tecnologia da Fundação Lemann e colunista de Tecnologia que Humaniza no educador21; e Otávio Pinheiro, presidente da Associação Brasileira de Edtechs (ABEdTechs) e conselheiro de Edtechs da Bett Brasil.
A convergência entre esses olhares revela que o futuro das edtechs não será definido pela sofisticação tecnológica isolada, mas pela capacidade de alinhar inovação, gestão, formação humana e impacto sistêmico. Nesse contexto, 2026 promete ser menos sobre experimentar novidades e mais sobre fazer escolhas conscientes, sustentadas por objetivos claros, formação de pessoas e integração entre tecnologia, projeto pedagógico e contexto social. O que significa testar a capacidade de gestores e sistemas educacionais de usá-las com intenção, critério e visão de longo prazo.
O radar global e o fim da inovação pelo modismo
Do ponto de vista de quem acompanha de perto o ecossistema internacional de startups educacionais, Leo Gmeiner aponta que algumas tendências já começam a ganhar tração no Brasil em 2026. Alguma impulsionadas tanto pela maturidade das escolas privadas, outras pelo avanço regulatório e pelo desejo de transformação no setor público.
Nesse panorama, a unificação de dados educacionais surge como movimento central. De acordo com Gmeiner, a fragmentação histórica de informações acadêmicas, comportamentais e operacionais começa a dar lugar à busca por painéis integrados, inspirados em padrões internacionais. “No Brasil, algumas secretarias e escolas particulares já buscam painéis únicos para gerenciar e analisar dados que antes ficavam dispersos”, disse, citando iniciativas como Nedu Analytics e Rubeus como exemplos de visualização integrada.
Outro avanço relevante está no uso da inteligência artificial para além do pedagógico, especialmente na gestão e operação escolar. Automação de processos administrativos, leitura e categorização de e-mails, atendimento a famílias e monitoramento de riscos passam a ocupar o centro das decisões. Ferramentas de segurança digital e física, como as usadas para detectar abusos, vandalismo ou incidentes, mostram que a inovação também atua nos bastidores da escola, liberando tempo e energia para o trabalho pedagógico.
Diante desse cenário, Gmeiner alerta que o principal critério para diferenciar soluções consistentes de modismos continua sendo a clareza do problema a ser resolvido. Para ele, gestores precisam partir de uma pergunta simples: qual dor real da instituição aquela tecnologia enfrenta. “Buscar soluções que resolvam problemas reais, independentemente da tecnologia utilizada, é o que ajuda a fugir das palavras da moda”, afirmou, ao destacar a importância de matrizes de impacto para priorização de decisões.
No ecossistema brasileiro, o amadurecimento passa ainda por maior proximidade entre startups, gestão e sala de aula, além da formação de grupos de soluções complementares, capazes de oferecer respostas mais integradas às demandas das escolas.

Inteligência artificial, currículo e futuro do trabalho
Se no campo da gestão a inovação avança rapidamente, no currículo o descompasso se torna ainda mais sensível. Para Leonardo Libman, a inteligência artificial já transformou todos os mercados e impõe uma revisão urgente da forma como educamos. “Se educarmos os estudantes de hoje com o modelo do passado, estaremos roubando o futuro deles”, afirmou.
A transformação da relação entre ensino, currículo e mercado de trabalho passa, necessariamente, pela formação de professores e gestores. Libman sustenta que não é possível preparar alunos para um mundo orientado por dados e IA sem investir antes em quem lidera as escolas. Sem esse movimento, o risco é ampliar a perda de relevância global do Brasil na formação de profissionais de alta performance.
Quando o foco se desloca para as competências, o diagnóstico é igualmente claro. O conteúdo, isoladamente, já não responde à velocidade das mudanças tecnológicas. O que se espera dos estudantes é a capacidade de aprender continuamente, com autonomia, pensamento crítico e adaptabilidade. “O profissional do futuro será alguém em constante evolução, com autodisciplina, curiosidade e disposição para se reinventar”, garantiu o especialista.
Habilidades humanas seguem como diferencial competitivo em ambientes altamente automatizados: resolução de problemas, criatividade, trabalho em equipe e tomada de decisão responsável. Ao mesmo tempo, competências práticas ganham centralidade, como alfabetização financeira em larga escala e proficiência em inglês, condição básica para acesso a oportunidades globais em tecnologia e inovação.
Apesar disso, a adoção de modelos mais flexíveis, como microcredenciais e certificações por competências, ainda encontra barreiras estruturais. Libman avalia que a maioria das escolas segue operando em formatos rígidos, pouco compatíveis com avaliação de habilidades reais, e que muitas iniciativas acabam sendo superficiais. O risco de não acompanhar essas mudanças, segundo ele, é sistêmico: formar gerações menos preparadas para liderar, inovar e empreender em um mundo movido por conhecimento e tecnologia.
Inovação educacional, políticas públicas e equidade
Quando a lente se amplia para o impacto sistêmico da inovação, Guilherme Cintra aponta que a tecnologia só contribui para reduzir desigualdades educacionais quando é desenhada com intencionalidade. O especialista observa que muitas soluções prometem personalização do ensino, mas desconsideram as condições reais de escolas que atendem estudantes em contextos de maior vulnerabilidade.
“Para que efetivamente reduzam desigualdades, as soluções precisam ser desenhadas pensando nos alunos com menores condições econômicas”, afirmou. Isso envolve desde estratégias offline first até modelos que considerem desafios de engajamento da comunidade escolar e limitações de infraestrutura.
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Cintra lembrou que, antes mesmo da adoção de ferramentas, existem pré-condições básicas, como conectividade, equipamentos e sistemas de gestão escolar. Elas permitem acompanhar interações e resultados em escala. Sem esse alicerce, o uso pedagógico da tecnologia tende a ser superficial e pouco sustentável.
Ao tratar das áreas mais promissoras para inovação de impacto, ele destaca soluções ligadas a avaliação e educação inclusiva. Segundo Cintra, o uso de meios digitais pode acelerar ciclos entre diagnóstico e adaptação pedagógica. Desde que haja supervisão humana e critérios de qualidade bem definidos. “A inovação educacional tende a partir de moda e novidade, quando deveria partir de objetivos claros e evidências do que funciona”, reforçou.
A maturidade do setor e a institucionalização das edtechs no Brasil
Do ponto de vista institucional, Otávio Pinheiro avalia que o setor de edtechs no Brasil vive uma transição importante. Após um período de encantamento com a tecnologia em si, escolas e redes começam a fazer perguntas mais objetivas sobre impacto, apoio ao trabalho docente e evidências de aprendizagem. “Estamos entrando em uma etapa mais madura, em que menos discursos genéricos sobre inovação e mais projetos integrados tendem a ganhar espaço”, observou.
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Três movimentos se destacam para 2026. O primeiro é a consolidação do mercado, com edtechs crescendo, se especializando ou se fundindo para atuar em escala nacional. O segundo é a centralidade da inteligência artificial, que deixa de ser diferencial de marketing. A ferramenta passa a funcionar como infraestrutura invisível, sustentando correções, avaliações formativas, planos personalizados e apoio administrativo. O terceiro é o uso mais sério de dados educacionais para orientar decisões pedagógicas e de política pública.
Pinheiro também chama atenção para desafios regulatórios, financeiros e culturais que ainda limitam o crescimento do setor. A preocupação com proteção de dados e uso ético da IA é legítima, mas muitas vezes chega de forma fragmentada, gerando insegurança jurídica. No campo financeiro, modelos de contratação pouco adaptados ao ritmo da inovação dificultam planejamento e escala. Culturalmente, ainda existe a percepção de que tecnologia substitui o professor, quando, bem implementada, pode atuar como aliada.
Nesse contexto, a atuação da ABEdTechs busca reduzir a distância entre startups e instituições de ensino. Para tal, realiza mapeamentos do setor, espaços de conexão curada, formação de gestores, grupos de trabalho temáticos e diálogo com órgãos públicos. Para Pinheiro, o convite aos gestores é claro: “Não contratem ferramentas. Contratem soluções para problemas muito claros da sua escola”. Começar pequeno, medir resultados e escalar com consistência passa a ser estratégia-chave.

Editora-chefe e cofounder do portal Educador21










