No empreendedorismo na educação, três professoras levaram a experiência em sala de aula à gestão de franquias, sem abandonar o vínculo com o ensino
A experiência docente pode abrir caminhos profissionais que vão além da sala de aula. Conhecimento pedagógico, capacidade de lidar com diferentes perfis de alunos e compreensão das necessidades de famílias e estudantes também podem contribuir para a gestão de negócios educacionais. Para algumas profissionais, o empreendedorismo representa uma forma de continuar atuando no setor, agora com responsabilidades administrativas e empresariais.
No franchising, modelo que combina a operação de um negócio próprio com a estrutura de uma rede, essa transição assume diferentes formatos. Há quem acumule décadas de experiência como franqueada, quem esteja começando a administrar a primeira unidade e quem transforme uma vivência familiar em uma iniciativa voltada a outros estudantes. Em comum, essas trajetórias mostram como conhecimentos construídos na educação podem ser mobilizados em outras funções, sem necessariamente romper com a docência.
O movimento também ocorre em um mercado que apresenta perspectivas de expansão. Segundo o Diagnóstico Setorial de Educação 2026, realizado pela Associação Brasileira de Franchising (ABF), por meio de sua Comissão de Educação, em parceria com a Praxis Business, as redes participantes abriram 318 novas unidades franqueadas em 2025. Além disso, 70,3% projetavam crescimento do faturamento em 2026, considerando a mesma base de lojas.
Os números, referentes às redes que participaram do levantamento, indicam oportunidades de expansão, mas não garantem resultados para cada operação. A própria pesquisa aponta possibilidades de avanço na formação de multifranquias e na atração de novos franqueados. Nesse cenário, a experiência prévia no setor educacional pode ser um diferencial para quem decide empreender, embora a administração de uma escola também exija competências comerciais, financeiras e operacionais.
As trajetórias de Márcia de Sousa Cardoso, Virgínia Célia Castellar de Brito e Gisele Luiza Calicchio de Oliveira ilustram diferentes caminhos dessa transição. Ligadas a marcas do Grupo MoveEdu, as três mantêm relações distintas com a sala de aula e incorporam a experiência profissional à gestão de suas unidades.
Experiência docente como base para a gestão educacional
Márcia de Sousa Cardoso, de 58 anos, administra três escolas da Microlins em Embu das Artes e na capital paulista. Sua trajetória como franqueada começou em 2005, depois de uma demissão que a levou a procurar uma oportunidade de recolocação profissional na rede. Formada em Sistemas de Informação e técnica em Administração, ela recebeu inicialmente um convite para assumir 13 turmas presenciais de contabilidade e escrita fiscal, mesmo sem experiência anterior como professora.
Após três meses, identificou a possibilidade de adquirir duas unidades da rede e iniciou sua trajetória empresarial. Ao longo de 20 anos, a atuação na sala de aula permaneceu parte de sua rotina: atualmente, ela continua dando aulas aos sábados. Para Márcia, essa proximidade permite reconhecer necessidades dos estudantes e avaliar a qualidade do atendimento oferecido pelas escolas.
“Conhecer dentro é diferente de conhecer por fora. Estar em sala de aula me faz perceber quais são as reais necessidades dos estudantes e das escolas”, disse. A experiência também influencia sua maneira de conduzir as unidades, com atenção à qualidade dos serviços e à aprendizagem contínua. Sua trajetória mostra como o conhecimento pedagógico pode participar das decisões de gestão, embora não substitua o domínio das demais dimensões de um negócio.
A relação entre docência e empreendedorismo assume outro formato na carreira de Virgínia Célia Castellar de Brito, de 44 anos. Professora de inglês desde os 18, ela acumulou mais de duas décadas de experiência no ensino de idiomas e passou 16 anos em uma mesma escola, onde chegou à coordenação pedagógica. Há pouco mais de um mês, tornou-se franqueada da Prepara IA, em Seropédica, na região metropolitana do Rio de Janeiro.
A decisão concretizou um interesse antigo em empreender na educação. Virgínia já havia considerado abrir uma escola bilíngue, mas encontrou na combinação entre formação profissional, tecnologia e inteligência artificial uma oportunidade alinhada à sua experiência. Mesmo no início da gestão da unidade, pretende continuar lecionando e planeja abrir uma segunda franquia no futuro.
“Eu gosto de ensinar. Vejo que a educação, os idiomas e a tecnologia são portas abertas para o crescimento pessoal e profissional”, afirmou. Para ela, habilidades desenvolvidas na docência, como organização, inteligência emocional e compreensão de diferentes perfis de alunos, também são importantes para administrar o negócio. Sua trajetória evidencia, porém, uma etapa diferente da vivida por Márcia: a intenção de expansão ainda faz parte dos planos, e não de uma operação consolidada ao longo de décadas.

IMAGEM – Márcia, Virgínia e Gisele são exemplos de que é possível empreender a partir da sala de aula
Da experiência familiar à criação de um negócio educacional
A história de Gisele Luiza Calicchio de Oliveira, de 46 anos, começou com uma questão vivida dentro de casa. Pedagoga e assistente social, com pós-graduação em Gestão de Pessoas, ela iniciou a carreira aos 16 anos e acumulou mais de 30 anos de experiência em diferentes funções escolares, da docência à coordenação e às áreas administrativas.
A decisão de empreender ganhou força quando sua filha, então com oito anos, enfrentava dificuldades na escola. Gisele conheceu a proposta da Ensina Mais Turma da Mônica, matriculou a menina em uma unidade na capital paulista e acompanhou sua evolução. A experiência despertou o interesse em ampliar o acesso de outras crianças a uma abordagem de apoio escolar que, na avaliação da mãe, havia feito diferença para a filha.
“Eu pensei que era preciso replicar isso não só para a minha filha, mas para outras que acham que não sabem nada ou que acham a escola uma chatice”, disse. Em 2023, após se mudar com a família para Campinas, assumiu uma franquia da marca no bairro Taquaral. Há três anos e cinco meses, concilia a gestão da unidade com atividades pedagógicas e atualmente ministra duas turmas de robótica, além de substituir professores quando necessário.
A experiência em diferentes áreas da escola contribui para sua atuação administrativa, pedagógica e comercial. “Conheci um pouco de tudo dentro de uma escola e, quando trouxe isso para a realidade de ser empreendedora, me ajudou muito”, afirmou. No caso de Gisele, o empreendimento nasceu de uma necessidade percebida na própria família e se conectou a um repertório profissional construído ao longo de décadas.
As três trajetórias também evidenciam que empreender na educação não significa necessariamente deixar de ensinar. A sala de aula continua presente na rotina das profissionais, mas a gestão acrescenta responsabilidades relacionadas à organização das equipes, à sustentabilidade financeira, ao atendimento das famílias e à operação das unidades. A experiência pedagógica pode ajudar a compreender os públicos atendidos; transformar essa compreensão em um negócio consistente, entretanto, depende também de planejamento e capacidade de gestão.
Para Rogério Gabriel, fundador e CEO do Grupo MoveEdu, o franchising oferece uma estrutura de apoio para profissionais que desejam empreender sem abandonar o setor em que construíram suas carreiras. Essa possibilidade, contudo, precisa ser avaliada a partir das condições de cada operação, do investimento necessário e das responsabilidades envolvidas. Mais do que uma mudança de cargo, a passagem da docência ao empreendedorismo representa uma ampliação do papel profissional: o conhecimento sobre educação passa a orientar também decisões empresariais.










