Projetos de inclusão, leitura e avaliação mostram como a escuta dos estudantes e a observação da realidade podem renovar a prática docente e ampliar oportunidades
Uma estudante com deficiência visual queria conhecer melhor a região onde vivia, mas temia perder completamente a visão antes de conseguir fazê-lo. Sem recursos para viajar, propôs à professora criar um livro que reunisse desenhos e cheiros de frutas.
A ideia deu origem ao Roraima Sensorial, projeto desenvolvido em Boa Vista (RR) com livros em braile e aromatizados, mapas táteis e QR Codes inspirados na cultura amazônica. A experiência mostra como uma necessidade apresentada por uma aluna pode se transformar em investigação, criação e aprendizagem quando encontra uma professora disposta a escutar e construir caminhos com a turma.
Histórias como essa ajudam a iluminar uma questão central da docência: inovar não significa necessariamente começar com uma tecnologia inédita ou um grande projeto, mas reconhecer possibilidades educativas em situações reais. Em diferentes escolas, professores têm desenvolvido práticas que articulam inclusão, incentivo à leitura, avaliação e sustentabilidade.
O ponto de partida do projeto revela uma dimensão essencial do trabalho docente: nem sempre a solução nasce de um planejamento pronto. Nesse caso, a professora acolheu a inquietação da estudante e ajudou a transformar uma necessidade individual em uma experiência de aprendizagem que mobilizou diferentes recursos e conhecimentos. Os resultados também ultrapassaram a produção do material: estudantes com deficiência que participaram da iniciativa passaram a desenvolver pesquisas próprias e receberam bolsas de iniciação científica.
“Eu não vejo esse reconhecimento como algo somente meu. Existe uma escola, existem estudantes, professores, famílias e muitas pessoas por trás do Roraima Sensorial”, afirmou Luciene, professora da Escola Estadual Professora Antonia Coelho de Lucena. A trajetória, que começou com um livro didático do Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD), levou a educadora a novas oportunidades profissionais e à perspectiva de participar da Bett UK 2027, em Londres. “Eu comecei a ensinar com um livro didático do PNLD nas mãos e hoje estou com uma passagem para Londres”, complementou.
Ao observar experiências como essa, o educador21 reúne exemplos que podem inspirar outros profissionais a identificar problemas em seus contextos, testar estratégias e reconhecer o valor pedagógico do trabalho que já realizam.

Da necessidade dos estudantes à transformação da prática
A experiência de Luciene dialoga com a de outros professores que partiram de questões presentes no cotidiano escolar para rever estratégias e ampliar as possibilidades de aprendizagem. Na rede pública de Cerquilho (SP), Ingrid Lopes de Araújo Oliveira, professora da EMEF Luigi Luvizotto, desenvolveu um projeto de incentivo à leitura que recebeu reconhecimento na primeira edição da premiação, em 2025. Para ela, a experiência fortaleceu a confiança no próprio trabalho e na importância de acompanhar os resultados das práticas pedagógicas.
“O prêmio me deu ainda mais segurança para acreditar que práticas pedagógicas planejadas, acompanhadas e fundamentadas em evidências realmente podem transformar a aprendizagem dos alunos”, afirmou Ingrid. A professora também destacou a importância de dar visibilidade ao conhecimento produzido nas escolas públicas, muitas vezes pouco conhecido fora de seus próprios contextos. “Ser reconhecida por uma prática desenvolvida dentro da escola pública mostrou para mim e para outras pessoas que existe muita inovação, dedicação e produção de conhecimento acontecendo diariamente nas nossas salas de aula.”
O relato aponta para um desafio recorrente na educação: tornar visíveis as experiências que os professores constroem, avaliam e aperfeiçoam durante o trabalho. Registrar o percurso, identificar mudanças na aprendizagem e compartilhar estratégias permite que a prática seja examinada para além da percepção individual. Esse movimento também ajuda outros educadores a reconhecer possibilidades em iniciativas que, embora tenham começado em uma turma específica, podem inspirar respostas para problemas semelhantes.
Resultados concretos também nas escolas particulares
Na rede particular, a professora Thayná Faria, do Colégio Professor Claudio Francisco Bini, em Rio Branco do Sul (PR), acompanhou uma mudança expressiva no desempenho dos estudantes em simulados. Em dois meses, a média passou de 686 para 813 pontos, resultado que levou seu trabalho ao reconhecimento de Projeto Destaque do Ano na categoria Avaliação de Desempenho Educacional. Para a educadora, a premiação também abriu caminhos de formação e desenvolvimento profissional, incluindo uma pós-graduação na PUCPR e a participação na Bett UK.
O caso evidencia a importância de acompanhar indicadores para compreender se as estratégias adotadas estão contribuindo para a aprendizagem. Os números, por si só, não explicam todas as dimensões do processo educativo, mas podem oferecer referências para avaliar intervenções e orientar decisões pedagógicas. Quando combinados à observação dos estudantes e à análise do percurso, ajudam o professor a identificar avanços e pontos que ainda precisam de atenção.
Na Escola Ethos, em Goiânia (GO), Juliany Camargo Silva Abrão encontrou no empreendedorismo sustentável uma forma de trabalhar questões relacionadas à sustentabilidade e à realidade dos estudantes. Vencedora da categoria ESG na primeira edição do prêmio, em 2025, a educadora destaca que uma iniciativa relevante não precisa começar com grandes recursos ou uma estrutura complexa. “Não espere que o projeto pareça grandioso para inscrevê-lo. Uma prática transformadora pode nascer de uma necessidade observada na turma, de uma pergunta dos alunos ou de um problema presente na comunidade”, disse.
A perspectiva aproxima experiências diferentes: inclusão, formação de leitores, avaliação de desempenho e sustentabilidade. Em todas elas, o trabalho pedagógico ganha consistência quando o professor identifica uma questão relevante, constrói uma resposta adequada ao contexto e observa os efeitos de suas escolhas. Não se trata de reproduzir um modelo único de inovação, mas de compreender que mudanças significativas podem começar com a leitura atenta de uma necessidade concreta.



O professor também aprende ao longo da trajetória
Essa dimensão da docência aparece, por outro caminho, na campanha de Dia dos Professores da FTD Educação, intitulada “Em cada professor, existe uma vida inteira de aprendizados”. Lançada em outubro, a iniciativa acompanha três educadores que compartilham suas rotinas nas redes sociais e procura mostrar aspectos da profissão que vão além da aula.
Entre os protagonistas estão Gean Sampaio, que trabalha com inclusão e Educação Física em escolas de Londrina (PR); Clara França, professora da educação infantil na rede pública de Campos dos Goytacazes (RJ); e Fernanda Dinis, professora de Arte e Ciências que percorre diariamente o trajeto entre a zona rural e a cidade de Londrina.
Os relatos ajudam a ampliar a compreensão sobre o que forma um professor. Clara, que cresceu em uma família de educadores, relaciona sua experiência pessoal à maneira como se aproxima das crianças. “Acho que tudo o que vivo fora da escola também influencia a professora que sou. Minha família, minha fé, meus estudos, minhas amizades e até os desafios da vida me ensinam a ter mais empatia e a olhar para cada criança de uma forma diferente”, afirmou.
Fernanda, por sua vez, descreve uma rotina em que o trabalho pedagógico continua fora da sala de aula, entre estudos, trocas com outros profissionais e produção de conteúdos educacionais. Seu relato aproxima desenvolvimento profissional e cotidiano: ensinar exige repertório, mas também disposição para rever escolhas e aprender com experiências diversas.
“Além da sala de aula, os estudos, as trocas de experiências e a produção de conteúdos pedagógicos fazem parte da minha rotina. Tudo isso amplia meus conhecimentos, transforma minha prática e reforça a ideia de que ser professora é estar em constante aprendizado”, disse.
No Mês do Professor, essas histórias mostram que o novo lugar da docência não se define apenas pela incorporação de tecnologias ou por mudanças nos métodos de ensino. Também se constrói na capacidade de escutar os estudantes, reconhecer conhecimentos que já existem na comunidade, avaliar os efeitos das decisões pedagógicas e aprender ao longo da carreira. Dar visibilidade a essas práticas não significa idealizar o trabalho docente, mas reconhecer a inteligência profissional mobilizada todos os dias para responder a desafios reais e criar novas possibilidades de aprendizagem.











