Projeto usa histórias em áudio e atividades de conversa para estimular escuta, imaginação e reflexão em turmas do Ensino Fundamental I
Em uma sala de aula cercada por estímulos visuais, uma proposta pedagógica começa justamente pela retirada deles. Crianças colocam máscaras sobre os olhos, escutam uma história e, quando a narrativa termina, precisam reconstruir o que ouviram com perguntas, hipóteses e diferentes interpretações. A experiência parte de uma questão cada vez mais presente na escola: como criar espaços para atenção, imaginação e diálogo em uma infância marcada pelas telas?
Essa é a proposta do Café Com Leite na Escola, projeto criado por Luciano Pires e Bárbara Stock a partir do podcast Café Com Leite. Voltada inicialmente a turmas dos cinco primeiros anos do Ensino Fundamental, a iniciativa utiliza histórias exclusivamente em áudio como ponto de partida para conversas mediadas e atividades pedagógicas. A tecnologia, nesse caso, não aparece para acrescentar estímulos, mas para mudar a forma como os estudantes recebem e elaboram uma narrativa.
A proposta desloca a atenção do conteúdo entregue para o processo de interpretação. Depois de ouvir uma história, os alunos são convidados a compartilhar o que compreenderam, levantar hipóteses, questionar situações e confrontar suas percepções com as dos colegas. O professor conduz essa etapa e pode adaptar as atividades à realidade da turma.
Para Bárbara Stock, a escolha pelo áudio responde a uma dificuldade que ultrapassa o uso de dispositivos. “O projeto nasceu da constatação de que nunca tivemos tanto acesso à informação, mas, ao mesmo tempo, parece cada vez mais difícil transformá-la em conhecimento e reflexão”, afirmou. Segundo ela, a proposta busca trabalhar a capacidade de escutar, interpretar e pensar antes de responder.

Escuta vira ponto de partida para aprendizagem
A experiência se apoia na ideia de que ouvir também pode ser uma atividade cognitiva. Sem a imagem pronta de personagens, cenários ou acontecimentos, a criança precisa construir mentalmente aquilo que a narrativa apresenta. A conversa posterior amplia esse exercício ao colocar diferentes interpretações em contato.
Os episódios são construídos a partir da interação entre a narradora Bárbara e Babica, personagem digital que aborda temas do cotidiano infantil. A escolha combina uma linguagem próxima do universo das crianças com uma experiência baseada no áudio. “Ao trabalhar exclusivamente com áudio, criamos uma experiência diferente da lógica das telas e abrimos espaço para a escuta e a imaginação”, explicou Bárbara.
A metodologia prevê ainda um guia para os professores, com perguntas para debates, sugestões de atividades e orientações para aprofundar os temas dos episódios. O material permite que o educador escolha como explorar cada narrativa de acordo com o contexto da turma, evitando que a história seja tratada apenas como uma atividade de compreensão.
O projeto trabalha quatro eixos: base emocional, caráter, raciocínio lógico e comunicação. A proposta é relacionar as histórias a situações que envolvem comportamento, relações, escolhas e convivência. O foco, portanto, não está apenas em manter a atenção dos alunos durante o áudio, mas em transformar a escuta em uma oportunidade para argumentar, interpretar e construir posicionamentos.
Essa dinâmica também desloca o papel do professor. Em vez de utilizar uma história apenas como conteúdo a ser compreendido, o educador passa a mediar as diferentes leituras produzidas pela turma. A aprendizagem acontece no intervalo entre aquilo que foi ouvido, aquilo que cada estudante entendeu e aquilo que consegue elaborar ao conversar sobre a experiência.
Primeiras experiências chegam à sala de aula
O Café Com Leite na Escola foi apresentado na Bett Brasil, em maio, e começou a avançar para experiências concretas em instituições de ensino. O Colégio Marly Cury, em Niterói, adotou a iniciativa nos primeiros cinco anos do Ensino Fundamental. A equipe do projeto acompanha a aplicação para observar a receptividade dos estudantes, a percepção dos professores e os efeitos da proposta na dinâmica das turmas.
Essa primeira experiência também funciona como etapa de aprimoramento da metodologia. A expansão para outras escolas dependerá do que for observado durante a aplicação e da capacidade de adaptar as atividades a diferentes contextos pedagógicos. O projeto também pretende aproximar as experiências realizadas em sala das conversas em família.
A proposta coloca em evidência uma discussão que vai além de escolher entre telas e recursos analógicos. Em uma escola que precisa preparar crianças para lidar com excesso de informação, diferentes linguagens e relações mediadas por tecnologia, a capacidade de ouvir, interpretar e conversar também se torna parte da formação.
“Precisamos nos perguntar se estamos criando oportunidades suficientes para que as crianças aprendam a interpretar o que recebem, conversar sobre o que ouvem e construir o próprio pensamento”, afirmou Luciano Pires. A questão talvez esteja menos em retirar a tecnologia da escola e mais em criar experiências nas quais ela não ocupe todo o espaço disponível para pensar, imaginar e dialogar.










