Heloisa Avilez, diretora de Higher Education para a América Latina na Pearson, discute a formação docente, o apoio institucional e os desafios de integrar a inteligência artificial à aprendizagem
Heloisa Avilez*
A inteligência artificial chegou à sala de aula antes que tivéssemos tempo de entender a melhor forma de incorporá-la à aprendizagem. Em pouco tempo, ferramentas capazes de produzir textos, responder a perguntas e explicar conceitos passaram a fazer parte da rotina dos estudantes e trouxeram para escolas e universidades questões que ainda estamos aprendendo a responder. O que deve ser ensinado quando o acesso à informação é praticamente imediato? Como avaliar o aprendizado quando uma ferramenta pode participar da construção de um trabalho? E como preparar os estudantes para usar uma tecnologia que continuará evoluindo?
Neste Dia dos Professores, essas perguntas nos convidam a refletir sobre o que muda no papel de quem ensina. A inteligência artificial transforma parte desse trabalho e torna ainda mais importante a orientação de quem ensina. Quando encontrar uma resposta se torna mais fácil, o desafio se desloca para saber interpretá-la, avaliar sua qualidade, reconhecer suas limitações e decidir o que fazer com ela. Ter informação disponível, afinal, não significa compreendê-la.
O trabalho do professor vai além de transmitir conhecimento. Envolve estabelecer objetivos, acompanhar o desenvolvimento dos alunos, identificar dificuldades, oferecer feedback e ajudá-los a construir autonomia. Com a IA, soma-se a isso a tarefa de orientar os estudantes sobre quando a tecnologia pode apoiar a compreensão e quando recorrer a ela pode significar abrir mão justamente do raciocínio que precisa ser desenvolvido.
Uma pesquisa recente da Pearson em parceria com a AWS mostra que 74% dos estudantes e 74% dos empregadores brasileiros consideram que os avanços da IA tornam o ensino superior ainda mais essencial. Ao mesmo tempo, 34% dos empregadores apontam hábitos inadequados de uso da tecnologia, como dependência excessiva ou aceitação acrítica de suas respostas, como um desafio associado aos recém-formados. O dado reforça a importância de uma formação que desenvolva o discernimento para usar essas ferramentas.
A orientação institucional também merece atenção: 42% dos estudantes brasileiros ouvidos dizem não conhecer diretrizes de suas universidades sobre IA. Isso não significa necessariamente que elas não existam, mas indica que precisam chegar aos alunos de forma clara e acessível. Para os professores, esse alinhamento é importante ao estabelecer critérios de uso da tecnologia nas atividades e avaliações.
Formação e apoio para quem ensina
Nesse processo, é importante lembrar que os professores também estão aprendendo. Não podemos esperar que sejam responsáveis por preparar uma nova geração para a IA sem que tenham tempo, formação, orientação e espaço para experimentar essas ferramentas. Isso exige formação contínua e apoio das instituições, mas também liberdade para testar abordagens, compartilhar experiências e entender o que efetivamente melhora a aprendizagem. O estudo identifica a preparação dos educadores para integrar a IA às experiências de aprendizagem como uma das frentes que precisam avançar para aproximar o investimento em tecnologia do desenvolvimento efetivo dos estudantes.
Engajar é o começo, aprofundar é essencial
A IA não é a única transformação que chegou à sala de aula. Vídeos curtos, redes sociais e conteúdos visuais também influenciam a relação dos estudantes com a informação. Entender esses hábitos pode ajudar os educadores a despertar interesse e criar pontes com a aprendizagem, sem reproduzir a lógica do feed, em que um estímulo é rapidamente substituído pelo seguinte.
Aprender exige também concentração, prática, reflexão e disposição para lidar com dificuldades. Cabe ao professor ajudar os estudantes a permanecer diante de um problema, testar caminhos, cometer erros e voltar a tentar. Esse apoio contribui para construir confiança e resiliência, especialmente entre aqueles que ainda estão desenvolvendo estratégias para aprender com autonomia.
Da resposta pronta à aprendizagem real
A tecnologia pode contribuir muito nesse processo. Ferramentas digitais podem oferecer explicações adicionais, exercícios, feedback e diferentes caminhos para acessar um conteúdo. A IA amplia essas possibilidades e pode ajudar o professor em tarefas mais operacionais. O ganho mais interessante, porém, acontece quando esse apoio tecnológico permite dedicar mais atenção às dimensões do ensino que dependem de conhecer os alunos, interpretar suas necessidades e decidir qual intervenção faz sentido em cada momento.
Esse apoio já pode ser organizado em experiências concretas. Soluções como a Pearson Pro reúnem conteúdos digitais, atividades práticas e projetos, além de recursos de formação docente e acompanhamento da aprendizagem. Integrados ao planejamento pedagógico, esses recursos podem ajudar o professor a criar oportunidades para que os estudantes apliquem conhecimentos, expliquem suas escolhas e desenvolvam autonomia — aspectos essenciais para transformar o contato com a tecnologia em capacidade real.
Por isso, preparar professores para a IA não deveria significar apenas ensiná-los a operar novas ferramentas. Significa também discutir como usá-las pedagogicamente, quais tarefas vale delegar, quais devem permanecer com o aluno e como avaliar a aprendizagem em um contexto no qual produzir uma resposta deixou de ser necessariamente uma evidência de que alguém compreendeu o assunto.
Nesse cenário, algumas tarefas docentes mudarão, novas competências serão necessárias e outras ganharão ainda mais importância. Se conseguirmos usar a tecnologia para apoiar todo esse trabalho e, ao mesmo tempo, oferecer aos professores as condições necessárias para acompanhar as transformações, estaremos mais próximos de aproveitar o que a IA pode trazer de melhor para a educação sem perder de vista aquilo que faz a aprendizagem, de fato, acontecer.
_*Diretora de Higher Education para a América Latina na _Pearson










