Fórum da Anec discutiu pesquisa, regulação e novas fontes de recursos para fortalecer a sustentabilidade das instituições de ensino superior
A sustentabilidade financeira do ensino superior passou a exigir das instituições mais do que controle de custos e equilíbrio orçamentário. No Fórum Ampliado de Reitores e Dirigentes do Ensino Superior 2026, a discussão avançou para a capacidade de transformar pesquisa, inovação e parcerias em estratégias institucionais de longo prazo.
Realizado pela Associação Nacional de Educação Católica do Brasil (Anec) nos dias 18 e 19 de agosto, na PUC Minas, em Belo Horizonte, o encontro reuniu reitores, dirigentes e especialistas diante de um cenário de mudanças regulatórias e pressão por novas fontes de receita.
Um dos dados apresentados ajuda a dimensionar o desafio. Em 2024, R$ 51,6 bilhões foram investidos em Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação por meio da Lei do Bem, distribuídos em 14.877 projetos. Desse montante, apenas 0,88% chegou às universidades, indicando um espaço ainda pouco explorado pelas instituições.
A discussão, portanto, não se limitou à necessidade de captar mais recursos. Os participantes analisaram como as IES podem estruturar projetos, identificar oportunidades de fomento e construir relações mais consistentes com empresas, agências de pesquisa e outros atores do ecossistema de inovação.
Esse movimento ganha peso diante das mudanças na avaliação e na regulação da educação superior. Para os dirigentes, acompanhar indicadores, ciclos avaliativos e novas regras deixou de ser apenas uma tarefa acadêmica e passou a integrar decisões de governança, planejamento e sustentabilidade institucional.
IES católicas ampliam participação em pesquisa e inovação
O Fórum apresentou diferentes mecanismos capazes de aproximar as instituições de recursos destinados à pesquisa e à inovação. Entre eles estão fundos setoriais, Fundações de Amparo à Pesquisa (FAPs), CNPq, Capes, incentivos fiscais, subvenção econômica e encomendas tecnológicas.
A cooperação internacional também apareceu como alternativa para ampliar a capacidade de pesquisa e diversificar fontes de financiamento. A combinação desses instrumentos permite que as instituições reduzam a dependência de uma única modalidade de receita e construam projetos alinhados às suas competências acadêmicas.
Experiências compartilhadas durante o encontro mostraram instituições utilizando fomento público, projetos de pesquisa e desenvolvimento, consultorias, educação corporativa, infraestrutura e contratação pública. O ponto comum entre essas iniciativas está na necessidade de transformar oportunidades dispersas em uma estratégia institucional coordenada.
Essa mudança altera também o papel da gestão. A captação deixa de depender exclusivamente de iniciativas individuais de pesquisadores ou áreas administrativas e passa a exigir estruturas capazes de mapear editais, organizar competências, prospectar parceiros e acompanhar projetos desde a concepção.
Para as IES, o dado sobre a participação universitária na Lei do Bem revela uma oportunidade, mas não garante acesso automático aos recursos. Aproveitá-la depende de capacidade técnica, articulação institucional e clareza sobre quais problemas a universidade consegue ajudar empresas e governos a resolver.
Regulação aproxima avaliação de decisões de gestão
As mudanças na regulação do ensino superior formaram outro eixo importante do Fórum. Representantes do Inep e especialistas discutiram instrumentos de avaliação, indicadores, ciclos avaliativos e as transformações recentes do Enade.
Nas licenciaturas, a avaliação passou a dialogar com a Prova Nacional Docente (PND). O exame alcançou 17 áreas em 2025 e passou para 21 licenciaturas em 2026, ampliando a necessidade de acompanhamento das mudanças pelas instituições que formam professores.
O cenário do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) também entrou na pauta. Os participantes discutiram resultados, utilização regulatória e questões judiciais relacionadas à metodologia e ao uso dos dados produzidos pela avaliação.
Para os dirigentes, o impacto dessas mudanças ultrapassa os setores responsáveis pelos processos regulatórios. Indicadores e avaliações interferem em planejamento acadêmico, acompanhamento de cursos, formação docente e decisões sobre prioridades institucionais.
Por isso, o debate aproximou regulação e governança. Em um ambiente de mudanças frequentes, instituições que acompanham apenas os prazos formais correm o risco de reagir às alterações depois que elas já produziram efeitos. O planejamento precisa incorporar a leitura antecipada do cenário regulatório.
Identidade orienta decisões sobre o futuro
A busca por sustentabilidade e inovação não foi discutida de maneira isolada da identidade das instituições católicas. Formação integral, cuidado, Pacto Educativo Global e diálogo entre ciência e fé permaneceram associados às decisões sobre o futuro do ensino superior.
A Agenda Universidades e Amazônia também entrou na programação. Em reunião com a Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam) e a Comissão Especial da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), representantes das IES discutiram possibilidades de ampliar a cooperação entre universidades, Igreja e territórios amazônicos.
Essa perspectiva amplia o conceito de inovação debatido no Fórum. Para além da criação de produtos ou da captação de recursos, inovação institucional envolve responder a demandas sociais e territoriais por meio das competências que as universidades já possuem.
O desafio colocado aos dirigentes, portanto, combina duas frentes que nem sempre aparecem juntas: fortalecer a sustentabilidade financeira e preservar a finalidade educacional. Projetos de pesquisa, parcerias e novas receitas precisam encontrar coerência com a missão institucional.
Com 79 instituições de ensino superior associadas, a Anec representa uma parcela relevante desse segmento. As IES vinculadas à entidade integram uma rede que reúne 1.200 escolas, 359 mantenedoras e mais de 1,5 milhão de estudantes em diferentes etapas da educação.
O Fórum da Anec deixou, assim, uma questão estratégica para a gestão das IES católicas: como ampliar a participação no ecossistema de pesquisa, inovação e financiamento sem transformar a sustentabilidade em uma agenda separada da missão acadêmica? A resposta passa pela capacidade de integrar governança, regulação, pesquisa, parcerias e identidade em uma mesma estratégia institucional.










