Mudanças sociais, econômicas e culturais ampliam o debate sobre currículo e aproximam a escola brasileira de uma perspectiva global
A internacionalização na educação básica deixou de ser uma discussão associada apenas a intercâmbios, ensino de idiomas ou experiências acadêmicas no exterior. O tema passou a alcançar o currículo, as políticas educacionais e a própria concepção de formação escolar, acompanhando mudanças econômicas, culturais e nas relações de trabalho que pressionam os sistemas de ensino a rever seus modos de ensinar e aprender.
Para Juares da Silva Thiesen, professor do Centro de Ciências da Educação e do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), esse movimento também resulta da crescente presença da Educação Básica nas agendas de redes políticas transnacionais e organismos internacionais. O pesquisador estuda há anos as relações entre internacionalização, currículo e políticas educacionais.
“A Educação Básica passou a ser pauta de interesse das grandes Redes Políticas Transnacionais e de Organismos Internacionais”, afirmou Thiesen. Segundo ele, a busca de sistemas educacionais por referências e práticas consideradas avançadas também contribui para aproximar os currículos escolares de experiências internacionais e ampliar o debate sobre o que deve compor a formação dos estudantes.
A mudança ocorre em um contexto no qual a escola precisa responder a transformações que ultrapassam seus muros. Novas relações de trabalho, mudanças culturais e geracionais e a maior interdependência entre sociedades alteram expectativas sobre a formação das novas gerações. Nesse cenário, a internacionalização do currículo aparece menos como um acréscimo à proposta pedagógica e mais como uma possibilidade de atualizar seus objetivos e práticas.
O próprio percurso acadêmico de Thiesen acompanha essa discussão. Em pesquisas publicadas sobre internacionalização dos currículos, o professor analisa como movimentos globais influenciam políticas e reconfigurações curriculares da Educação Básica, inclusive no Brasil. Estudos mais recentes também examinam os reflexos desse processo em escolas internacionais, bilíngues e nas políticas curriculares brasileiras.
Internacionalização transforma a discussão sobre currículo
Para Thiesen, a transformação não pode ser compreendida apenas como uma consequência da expansão de programas internacionais. Ela está relacionada a uma mudança mais ampla na própria maneira de pensar a educação escolar. “A educação é epicentro das dinâmicas sociais, portanto interage com elas”, afirmou. Por isso, o currículo também precisa acompanhar as mudanças que atravessam a sociedade e revisar seus modos de pensar, fazer e decidir.
É nesse ponto que entra a chamada internacionalização do currículo (IoC), conceito que desloca a discussão da simples oferta de experiências internacionais para a forma como a escola organiza a aprendizagem. Na perspectiva do pesquisador, a IoC representa um movimento de atualização da atividade educativa formal, especialmente daquela desenvolvida nas escolas. A questão passa, portanto, por ampliar o escopo da formação sem abandonar o contexto local.
Essa perspectiva também ajuda a explicar por que a internacionalização pode dialogar com diferentes dimensões da proposta pedagógica. Não se trata necessariamente de adotar um currículo estrangeiro, mas de incorporar referências, conhecimentos e perspectivas capazes de ampliar a compreensão dos estudantes sobre diferentes realidades. A literatura acadêmica de Thiesen identifica justamente essa aproximação entre discursos educacionais globais e reconfigurações curriculares da Educação Básica brasileira.
Para gestores e mantenedores, a mudança traz uma questão prática: o que a escola pretende formar quando prepara estudantes para uma sociedade que já opera em escala global? A resposta interfere em escolhas curriculares, formação docente, metodologias e experiências de aprendizagem. A internacionalização deixa, assim, de ser apenas uma área específica da instituição e passa a dialogar com decisões que definem sua proposta educacional.
O desafio é superar uma escola fechada em si mesma
A ampliação dessa agenda, porém, encontra obstáculos dentro da própria cultura escolar. Thiesen identifica como uma das principais barreiras a permanência de uma concepção tradicional de escola, marcada pelo isolamento em relação ao mundo, pelo excesso de burocracia e por uma organização curricular concentrada na transmissão de conteúdos. “As amarras de uma cultura escolar sustentada pela concepção tradicional ainda dificultam uma compreensão mais ampla da internacionalização”, avaliou o especialista.
Na leitura do pesquisador, esse modelo também limita a capacidade da escola de responder às transformações sociais. Uma instituição excessivamente centrada em conteúdos abstratos pode ter dificuldade para estabelecer relações entre aquilo que ensina e os desafios concretos enfrentados pelos estudantes. A internacionalização do currículo surge, nesse sentido, como uma possibilidade de ampliar horizontes, conectando dimensões locais e globais da aprendizagem.
Isso não significa, contudo, substituir a identidade educacional brasileira por referências externas. O movimento pode justamente exigir maior capacidade de articulação entre diferentes contextos. “A IoC pode representar a superação dessa concepção secular, com abertura para um horizonte mais dinâmico, abrangente e ousado”, afirmou Thiesen. Para as escolas, a questão passa a ser como fazer essa abertura sem transformar internacionalização em mera reprodução de modelos estrangeiros.
O debate também ganha relevância porque a internacionalização já aparece associada a discussões sobre políticas curriculares e reformas educacionais. Pesquisas de Thiesen mostram que demandas relacionadas à internacionalização podem ser identificadas em documentos e movimentos de política curricular brasileira, indicando que o tema não se restringe ao mercado privado ou às instituições que oferecem programas internacionais.
Essa discussão estará no centro do International Education Summit 2026, que acontece nos dias 10 e 11 de setembro, no Centro Paula Souza, em São Paulo. Thiesen está entre os especialistas da programação, com uma keynote dedicada à internacionalização dos currículos na Educação Básica. O encontro, organizado pela Efígie Academy, reunirá gestores, mantenedores, professores, pesquisadores, representantes de universidades e formuladores de políticas públicas para discutir educação global, currículo, tecnologia e inovação.
Para as lideranças escolares, o avanço da internacionalização coloca uma decisão que vai além da criação de novos programas ou parcerias. O ponto central é avaliar como uma perspectiva global pode contribuir para atualizar o currículo e ampliar a formação dos estudantes, sem perder de vista o contexto em que a escola atua. A internacionalização, nesse sentido, passa a integrar uma discussão maior sobre o próprio projeto de educação que cada instituição pretende construir.










