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Levantamento do Instituto Semesp mostra taxa de 8,73% no 1º semestre de 2025; cenário ainda desafia sustentabilidade das IES, especialmente as de pequeno porte

A inadimplência no ensino superior privado brasileiro apresentou uma leve melhora em 2025, mas ainda se mantém entre as mais elevadas da economia nacional. De acordo com a 17ª Pesquisa de Inadimplência do Ensino Superior Privado, realizada pelo Instituto Semesp em parceria com a Principia, o índice de alunos com mais de 90 dias de atraso caiu 1,9% no primeiro semestre do ano, atingindo 8,73%. A redução foi impulsionada pelos cursos presenciais, cuja taxa recuou 3,1%, enquanto o ensino a distância (EAD) registrou alta de 8,4%, em meio às incertezas provocadas pelas mudanças no marco regulatório da modalidade.

O levantamento, que abrangeu 293 instituições responsáveis por 42,5% dos estudantes do país, mostra que a inadimplência educacional segue bem acima de setores como o crédito livre, cuja taxa média é de 5,4%. Essa discrepância evidencia o desafio estrutural do setor, em que as instituições são obrigadas a manter o serviço mesmo quando o aluno não paga — uma distorção apontada há anos pelos especialistas.

Para Rodrigo Capelato, economista e diretor-executivo do Semesp, o problema vai além da capacidade de pagamento. “A educação é o único setor em que o consumidor pode deixar de pagar e continuar recebendo o serviço. Essa particularidade incentiva o não pagamento e, paradoxalmente, aumenta a evasão, já que o aluno endividado tende a abandonar o curso”, afirmou. Segundo o especialista, o modelo atual “compromete a sustentabilidade financeira das instituições e a permanência dos estudantes”.

O recuo parcial no indicador é positivo, mas ainda insuficiente para reverter a tendência de estagnação da receita no ensino superior privado. Para os gestores, o desafio central não é apenas recuperar valores atrasados, mas estruturar políticas de prevenção, renegociação e apoio ao estudante, de modo a evitar que o endividamento resulte em evasão definitiva.

Instituições de pequeno porte seguem mais vulneráveis

Entre os recortes da pesquisa, as instituições de pequeno porte (até 3 mil alunos) continuam enfrentando os maiores desafios. A taxa de inadimplência nesse grupo chegou a 12,67%, contra 8,64% nas IES de médio porte e 8,49% nas grandes. Apesar do cenário adverso, as pequenas também foram as que mais reduziram o percentual, com queda de 8,9% no volume de créditos não recebidos — um indício de avanço na profissionalização da cobrança e gestão financeira.

No início de 2025, 38,5% das instituições registraram queda na inadimplência em cursos presenciais. Já no EAD, a situação permaneceu estável para 37,5% das IES, e piorou para 33,3%. O aumento no ensino a distância reflete, segundo o estudo, o impacto das novas regras de credenciamento e supervisão do marco regulatório, que afetaram o fluxo de matrículas e a previsibilidade orçamentária das instituições.

A análise reforça que o porte institucional está diretamente ligado à capacidade de absorver inadimplência sem comprometer a operação. Em tempos de margens reduzidas e competição acirrada, investir em modelos híbridos de cobrança, monitoramento preditivo e suporte financeiro estudantil tornou-se parte essencial da gestão.

Cursos e perfis com maior inadimplência

Entre os cursos presenciais, Direito lidera a lista dos mais inadimplentes, seguido de Enfermagem e Engenharia. Já no EAD, os maiores índices concentram-se em Administração, Gestão Comercial e Marketing. O destaque da edição de 2025 é a entrada de Medicina no ranking, ocupando a quarta posição — uma mudança explicada pela judicialização na abertura de novos cursos e pelo aumento de bolsas e descontos agressivos.

O estudo também identificou as principais causas do atraso: perda de emprego ou redução de renda (62,8%), falta de planejamento financeiro (58,1%) e aumento das despesas familiares (44,2%) lideram o ranking. Questões de saúde (32,6%) e endividamento com outros financiamentos (30,2%) completam a lista.

De forma crescente, as instituições relatam também preocupação com o impacto de apostas e jogos online sobre a renda dos alunos. Cerca de 19,1% das IES identificaram relação direta entre o envolvimento com apostas e a inadimplência. “Embora ainda representem cerca de 7% dos casos, esse é um sinal de alerta para as áreas de apoio estudantil e psicopedagógico”, observou Capelato.

Inadimplência é risco de gestão, não apenas de caixa

A pesquisa do Semesp reforça que lidar com inadimplência vai além do controle financeiro: trata-se de gestão institucional integrada. Políticas de comunicação, educação financeira e acolhimento estudantil estão entre as estratégias que mais contribuem para reduzir perdas e fidelizar alunos.

Para os gestores, o cenário de 2025 exige inteligência analítica e políticas ativas de prevenção. Ferramentas de dados preditivos, acordos customizados e o uso de inteligência artificial em processos de cobrança aparecem como alternativas para mitigar o problema sem comprometer a experiência acadêmica.

Mais do que um indicador econômico, a inadimplência tornou-se um termômetro da sustentabilidade do ensino superior privado. Reduzir o índice é, ao mesmo tempo, uma questão de gestão e de missão institucional — e um passo necessário para manter a educação acessível, inovadora e economicamente viável no país.

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