Pesquisa nacional revela que 52% dos gestores não chamam profissionais da educação infantil de ‘professores’
Um levantamento da Frente Parlamentar Mista da Educação, em parceria com o Equidade.info, revela um dado preocupante: 52% dos gestores escolares não reconhecem os profissionais da educação infantil como professores. O uso de termos como “tia” ou “pedagogo” ainda prevalece em muitas creches e pré-escolas, reforçando um cenário de desvalorização e invisibilidade profissional em uma das etapas mais fundamentais da educação básica.
A pesquisa ouviu 280 gestores de escolas públicas e privadas em todo o país entre maio e setembro de 2025. Em apenas 48% das unidades que oferecem educação infantil, os profissionais são oficialmente identificados como docentes. Os dados escancaram uma questão cultural e estrutural que atravessa redes de ensino, regiões e modelos de gestão.
As diferenças regionais são marcantes: no Sul, o reconhecimento da nomenclatura “professor” é quase total (99%), enquanto no Sudeste, nenhum gestor entrevistado utilizou o termo. O contraste revela não apenas divergências linguísticas, mas desigualdades profundas na valorização e nas condições de trabalho desses profissionais.
Entre nomenclatura e valorização: um retrato da desigualdade
O estudo relaciona a falta de reconhecimento à ausência de políticas salariais e de carreira consolidadas. Segundo o Anuário Brasileiro da Educação Básica, um terço dos municípios ainda não paga o piso nacional do magistério — atualmente de R$ 4,8 mil. A disparidade é maior no Sudeste, onde 45% das cidades ignoram o valor-base, enquanto 80% dos municípios do Nordeste cumprem o piso.
Para a deputada Luciene Cavalcante (PSOL-SP), professora e integrante da Frente Parlamentar da Educação, a questão ultrapassa o campo simbólico.
“Os dados mostram a necessidade urgente de reconhecimento das educadoras das creches, assegurando enquadramento na carreira do magistério, formação permanente e tempo para capacitação. A valorização deve ser salarial, mas também envolver direitos e formação continuada”, defendeu.
A parlamentar ressalta que o uso de termos genéricos ou afetivos, como “tia”, tem efeito direto sobre a percepção pública da profissão e sobre o reconhecimento formal da docência na primeira infância — etapa essencial para o desenvolvimento cognitivo e emocional das crianças.
Gestores e redes: contrastes entre escolas públicas e privadas
O levantamento também revelou fortes contrastes entre redes de ensino. Nas escolas estaduais — mesmo com menor oferta de educação infantil —, todos os gestores afirmaram usar o termo “professor(a)” para se referir aos profissionais da área. Já na rede privada, apenas um em cada três gestores adota essa nomenclatura, enquanto na rede municipal, o reconhecimento aparece em 51% das unidades.
Para o professor Guilherme Lichand, coordenador do Equidade.info e docente da Stanford Graduate School of Education, a linguagem usada pelos gestores é um espelho das estruturas institucionais.
“Se um terço dos municípios ignora o piso dos professores, será que os outros dois terços pagam de fato? Na educação infantil, isso se torna ainda mais opaco, já que muitos desses profissionais nem são considerados professores pela rede. A nomenclatura é um sintoma da vulnerabilidade”, observou.
A falta de clareza na definição da carreira e a ausência de políticas de valorização contínua resultam em ambientes educacionais menos estáveis e com alta rotatividade, dificultando a consolidação de práticas pedagógicas consistentes nos primeiros anos da vida escolar.
Valorização e políticas públicas como horizonte
Os resultados da pesquisa indicam que a educação infantil ainda carece de reconhecimento formal como parte essencial do sistema de ensino e da estrutura do magistério. Em um contexto de ampliação de creches e pré-escolas e de busca por qualidade no ensino, gestores e formuladores de políticas públicas enfrentam o desafio de institucionalizar a identidade docente nessa etapa.
“O reconhecimento profissional começa na linguagem, mas precisa se traduzir em direitos, condições e oportunidades de crescimento”, resumiu Luciene Cavalcante.
A pesquisa — que cobre escolas públicas, privadas, urbanas e rurais — reforça a urgência de políticas integradas de valorização docente, especialmente para as educadoras que atuam na base da formação infantil. Em um cenário de mudanças estruturais e desafios socioeconômicos, o reconhecimento do professor da educação infantil é mais do que uma questão de nomenclatura: é uma pauta estratégica para o futuro da educação brasileira.










