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Entrevista de Guilherme Cintra com Minashe Selvam, fundadora e CEO da Cantoo

Conte sua trajetória até aqui

Minashe Selvam

Eu sou brasileira e construí uma parte importante da minha trajetória na França, onde nasceu a Cantoo. A minha formação é ligada à tecnologia, mas o que realmente me moveu desde o início foi uma questão muito humana: como ajudar uma criança que tem capacidade de aprender, mas que fica bloqueada porque a escola não está adaptada à forma como ela lê, escreve, se concentra ou se expressa?

A Cantoo nasceu dessa convicção. Nós começamos com uma ideia simples, mas muito forte: a inclusão não pode depender apenas da boa vontade de um professor ou de uma adaptação manual feita caso a caso. Se queremos que todos os alunos aprendam, a acessibilidade precisa virar uma infraestrutura pedagógica dentro da escola.

Hoje, a Cantoo cresceu muito. Somos uma equipe de cerca de 20 pessoas, já equipamos aproximadamente 1,4 milhão de estudantes, estamos presentes em 6 países e fomos selecionados pela UNICEF no portfólio Blue Unicorn, que reúne soluções EdTech com potencial de impacto em larga escala para crianças.

Mas, apesar desse crescimento, a motivação continua muito concreta. Para mim, tudo começa com um aluno específico: uma criança com dislexia que não consegue ler o enunciado, um aluno com TDAH que não consegue organizar sua atenção, uma criança autista que precisa de uma forma diferente de acessar o conteúdo.

Quando esse aluno consegue ler, escrever, participar da aula e ganhar autonomia, não estamos apenas usando tecnologia. Estamos devolvendo a ele uma possibilidade real de aprender.

Então, a trajetória da Cantoo é essa: transformar uma necessidade muito individual — a de uma criança que precisa de ajuda para aprender — em uma solução capaz de apoiar professores, escolas e redes públicas em larga escala.

O que são tecnologias assistivas e por que são tão importantes?

Minashe Selvam

Tecnologias assistivas são ferramentas que ajudam uma pessoa a superar uma barreira de acesso, participação ou autonomia. Na educação, elas permitem que um aluno leia, escreva, compreenda, se organize, se expresse ou participe de uma atividade mesmo quando ele tem uma dificuldade específica.

Por exemplo, um aluno com dislexia pode usar leitura vocal para acessar um texto. Um aluno com dificuldade de escrita pode usar ditado vocal. Um aluno com baixa visão pode usar ampliação, contraste ou adaptação visual. Um aluno que fala outra língua pode usar tradução ou apoio multimodal.

O ponto mais importante é que a tecnologia assistiva não muda o objetivo pedagógico. Ela muda o acesso ao conteúdo. O aluno continua aprendendo o mesmo currículo, mas com uma porta de entrada adaptada ao seu perfil.

É por isso que ela é tão importante para a equidade. Sem tecnologia assistiva, muitos alunos estão fisicamente presentes na sala, mas não participam plenamente da aprendizagem. Com a ferramenta certa, eles podem ganhar autonomia, confiança e participação real. Para mim, a tecnologia assistiva é uma ponte entre presença escolar e aprendizagem efetiva.

Como a IA transformou esse campo?

Minashe Selvam

A IA transformou esse campo porque permite personalizar de forma muito mais rápida e precisa. Antes, o professor precisava identificar a dificuldade, escolher uma ferramenta, adaptar o material e configurar tudo manualmente. Isso exige tempo, conhecimento técnico e muita energia.

Com IA, conseguimos entender melhor o perfil do aluno, sugerir adaptações e combinar recursos automaticamente. Por exemplo: leitura vocal, ditado, adaptação visual, tradução, apoio à escrita ou organização do conteúdo.

Mas, para nós, a IA não substitui o professor. Ela reduz trabalho manual e ajuda o professor a incluir melhor. O objetivo não é colocar mais tecnologia na escola. É dar ao aluno a ferramenta certa, no momento certo, para que ele consiga aprender com mais autonomia.

Vocês atuam em contextos muito diversos. Quais aprendizados tiveram ao trabalhar com tamanha diversidade de realidades?

Minashe Selvam

O maior aprendizado é que a diversidade de aprendizagem existe em todas as salas de aula. Na França, no Brasil, em Gana ou em outros países, sempre encontramos alunos que precisam de formas diferentes de acessar o conteúdo.

A diversidade é a norma, não a exceção. Em qualquer sala de aula, em qualquer país, sempre existem alunos com formas diferentes de ler, escrever, compreender, se concentrar ou se expressar.

O segundo aprendizado é que a tecnologia precisa respeitar o contexto. Uma solução que funciona em uma escola bem equipada pode não funcionar em uma escola com baixa conectividade, poucos dispositivos ou professores sem tempo para longas formações.

Por isso, aprendemos que acessibilidade também significa simplicidade, uso offline, baixo consumo de internet e possibilidade de trabalhar com conteúdos locais.

Nos pilotos com a UNICEF, por exemplo, a questão não era apenas se a ferramenta funcionava tecnicamente. Era se ela conseguia entrar na rotina da sala de aula, apoiar o professor e gerar aprendizagem em contextos reais.

Esse é um aprendizado muito forte: tecnologia educacional de impacto precisa ser simples para o professor, útil para o aluno e adaptável ao contexto.

Existe alguma crença muito forte que tinha e que foi modificada pela realidade vivida na prática?

Minashe Selvam

Sim. No começo, eu achava que o mais importante era criar uma tecnologia muito completa. Com a prática, entendi que o mais importante é reduzir a complexidade.

O professor não precisa de mais uma ferramenta difícil. Ele precisa de algo que o ajude de verdade no dia a dia. E o aluno não precisa ser definido pela dificuldade dele. Ele precisa da ferramenta certa, no momento certo, para mostrar o que sabe.

Também mudei minha visão sobre inclusão. Antes, eu via inclusão como um tema específico. Hoje, vejo a inclusão como uma forma muito concreta de falar sobre qualidade educacional.

Quando uma escola consegue apoiar melhor os alunos que enfrentam mais barreiras, ela melhora sua capacidade de ensinar todos os alunos.

Então, hoje eu vejo a Cantoo não apenas como uma tecnologia de inclusão, mas como uma forma de transformar inclusão em aprendizagem real.

Edtechs da Semana

Auticiel: Aplicativos de autonomia para pessoas com autismo e deficiência intelectual

A Auticiel foi fundada em 2013 em Paris e desenvolve o programa AMIKEO, um conjunto de 10 aplicativos para tablet e celular voltados a crianças e adultos com transtornos do neurodesenvolvimento, incluindo autismo, deficiência intelectual e dispraxia.

As ferramentas ajudam o usuário a se comunicar, se localizar no tempo, realizar tarefas com autonomia e trabalhar, funcionando como alternativa aos recursos tradicionais em papel.

Além dos aplicativos, a empresa mantém um organismo de formação credenciado que treina profissionais e famílias.

Já captou mais de €1 milhão de fundos especializados como INCO Ventures e Investir&+, atende cerca de 3 mil beneficiários no dia a dia e formou aproximadamente 2 mil profissionais e pais.

Um estudo longitudinal de 17 meses apontou que 100% das crianças com autismo acompanhadas progrediram em comunicação e/ou autonomia.

Corneille: Alfabetização pelo método fônico para crianças de 3 a 8 anos

Nascida em 2020 em Lille, depois de passar pela incubadora da Plaine Images em 2018, a Corneille é um aplicativo de aprendizagem da leitura baseado no método silábico e alinhado às recomendações da Educação Nacional francesa.

O percurso é personalizado por um algoritmo adaptativo e reúne mais de 300 atividades e uma centena de histórias, com controle de tempo de tela e acompanhamento parental integrados.

A empresa captou €500 mil para se expandir, já passou de 67 mil downloads e atende cerca de 90 mil famílias em vários países francófonos. Além do aplicativo B2C, oferece o Corneille École, voltado a professores, e o Racine, uma solução de reforço das competências de leitura para adultos em contexto corporativo.

Kaligo: Aprendizagem da escrita à mão com caneta e tablet

Criada em 2013 pela Learn&Go, na Bretanha, a Kaligo trabalha o gesto grafomotor por meio de tablet e caneta, com um motor de reconhecimento de escrita que dá retorno em tempo real sobre traçado e pressão.

O produto se apoia na relação entre motricidade e cognição, cobre da educação infantil aos primeiros anos do fundamental e traz um painel para o professor acompanhar e personalizar o percurso de cada aluno.

A solução se expandiu para o Reino Unido, onde foi alinhada ao currículo britânico e reconhecida pelo Department for Education, e para redes escolares na Escócia.

Tem uma vertente específica para crianças disgráficas, a Kaligo SEN, financiada pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional, e integra a plataforma inclusiva Kardi ao lado da Cantoo e da Cabrilog.

Hoje reúne as versões escolar e familiar em um único aplicativo, incorporando também leitura e ortografia.

Mobidys: Livros digitais acessíveis para leitores com dislexia

Sediada em Nantes, a Mobidys criou a tecnologia FROG, desenvolvida a partir de 2016 e patenteada, que transforma obras existentes em livros digitais acessíveis.

Cada título embarca cerca de quinze opções de apoio à leitura, como fontes adaptadas, narração em voz humana e segmentação do texto em unidades de sentido, num formato inspirado nas técnicas de remediação usadas por fonoaudiólogos e construído com pesquisadores em ciências cognitivas e da linguagem.

O modelo se desdobra em ofertas como o SONDO, voltado às escolas, e a BibliOdyssée, para bibliotecas municipais. A empresa captou €2 milhões em 2021 e passou a buscar uma rodada de €6 milhões para se internacionalizar, com operações já iniciadas no Canadá e na Espanha.

O público inicial eram os cerca de 5% de franceses com dislexia, mas as ferramentas passaram a beneficiar leitores com dificuldades em geral.

Nolej: Copiloto de IA que transforma conteúdo estático em módulos interativos

Com bases na França e nos Estados Unidos e sede em Lille, a Nolej converte textos, áudios, vídeos e PDFs em experiências interativas como quizzes, flashcards, glossários e vídeos interativos.

A ferramenta se integra aos ambientes já usados por professores, como Moodle, Canvas, Google Classroom e Microsoft Teams, tem suporte a português e oferece recursos de acessibilidade como um add-on para público DYS e conteúdo em linguagem simplificada (FALC).

Captou €3 milhões em 2023, em rodada liderada pela Educapital e pela Square Knowledge Ventures, esta última sediada no Rio de Janeiro.

À época, era usada por 59 mil professores em dez países, e a região da Île-de-France disponibilizava a solução para 625 escolas de ensino médio.

Cantoo: Caderno digital para alunos com necessidades educativas especiais

Fundada em 2019 em Lille, a partir da Centrale Lille, a Cantoo desenvolve o Cantoo Scribe, um caderno digital que reúne mais de vinte ferramentas de compensação numa única interface, entre elas síntese de voz, coloração de texto, escrita preditiva, OCR e recursos específicos para matemática e ciências.

Atende alunos com transtornos específicos de aprendizagem, TEA, TDAH, deficiência visual e alófonos, do ensino fundamental à formação profissional, e é co-construído com uma comunidade de mais de 800 profissionais de saúde.

A startup captou €1 milhão e opera como empresa social de utilidade pública.

O Cantoo Scribe conta com mais de 15 mil usuários em 400 estabelecimentos, e o conjunto das soluções da empresa contribui para a escolaridade de mais de 200 mil alunos.

Lançou recentemente o módulo Cantoo Exam com apoio do Ministério da Educação francês e integra a plataforma Kardi. O site da empresa já traz versão em português, sinal de interesse pelo mercado brasileiro.

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