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Lei nacional reforça a identificação precoce de estudantes com altas habilidades, enquanto experiência do Instituto Apontar mostra caminhos para transformar potencial em oportunidades

As altas habilidades na educação ganharam um novo impulso com a entrada em vigor da Lei nº 15.436/2026, que institui a Política Nacional para Estudantes com Altas Habilidades ou Superdotação. A legislação estabelece diretrizes para identificação precoce, atendimento educacional especializado e desenvolvimento integral desses estudantes, além de criar um cadastro nacional e prever a implantação de centros de referência em todo o país. A medida recoloca em evidência um desafio histórico da educação brasileira: reconhecer talentos que, em grande parte, permanecem invisíveis nas escolas.

Embora estimativas indiquem que entre 3% e 5% da população apresente altas habilidades ou superdotação, menos de 1% desses estudantes está oficialmente identificado pelas redes de ensino. A subnotificação limita o acesso a estratégias pedagógicas adequadas e reduz as oportunidades de desenvolvimento de crianças e adolescentes que poderiam ampliar sua contribuição para a ciência, a inovação, a cultura e diferentes áreas do conhecimento.

Ao contrário do senso comum, estudantes com altas habilidades não são apenas aqueles que apresentam notas elevadas ou desempenho excepcional em todas as disciplinas. O potencial pode se manifestar em diferentes áreas e costuma reunir habilidades acima da média, criatividade e elevado envolvimento com determinadas atividades. Sem identificação adequada, essas características frequentemente passam despercebidas ou são interpretadas de forma equivocada.

Segundo a psiquiatra Danielle Admoni, especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e supervisora da Residência de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp/EPM), muitos desses estudantes enfrentam dificuldades emocionais, sociais e acadêmicas quando não recebem o acompanhamento necessário. “A nova lei ajuda a dar visibilidade a essas necessidades e cria uma estrutura para que escolas e famílias possam oferecer o suporte adequado”, afirmou.

Além da identificação precoce, a nova política prevê formação de profissionais especializados, programas de enriquecimento curricular, aceleração de estudos quando necessária e ações coordenadas entre União, estados e municípios. Para gestores educacionais, o desafio passa a ser transformar essas diretrizes em práticas capazes de reconhecer talentos e oferecer percursos de aprendizagem compatíveis com as necessidades de cada estudante.

Altas habilidades na educação exigem identificação e desenvolvimento

Enquanto a legislação estabelece as bases para uma política nacional, experiências já consolidadas mostram como esse atendimento pode ser estruturado na prática. É o caso do Instituto Apontar, que há mais de duas décadas atua na identificação e no desenvolvimento de crianças e adolescentes com altas habilidades provenientes de famílias de baixa renda.

Ao longo desse período, a instituição informa ter identificado mais de 80 mil crianças e adolescentes. Em 2026, alcançou o maior número de atendimentos de sua história, acompanhando 850 estudantes e impactando diretamente cerca de 2.520 familiares. A atuação ocorre em parceria com a Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro, por meio de 25 polos distribuídos pelas 11 Coordenadorias Regionais de Educação (CREs), e iniciou neste ano seu processo de expansão para o município de Resende.

O trabalho está organizado em três pilares complementares. No eixo acadêmico, os estudantes participam de atividades de enriquecimento curricular, projetos inspirados na abordagem STEAM, programação, robótica, idiomas, artes, música, teatro, fotografia e xadrez. O acompanhamento psicossocial fortalece habilidades socioemocionais e orienta as famílias, enquanto o pilar cultural amplia repertórios por meio de visitas a museus, universidades, empresas, centros culturais e outros espaços educativos.

Segundo Isadora Tonietto, diretora executiva do Instituto Apontar, identificar talentos representa uma oportunidade de transformação social. “Cada criança tem um potencial único para transformar a própria trajetória. Quando esse potencial é identificado, desenvolvido e conectado às oportunidades certas, o impacto vai muito além do estudante: fortalece famílias, amplia horizontes e gera mudanças que alcançam toda a comunidade”, disse.

Formação de educadores amplia oportunidades para estudantes

Além do atendimento direto aos estudantes, o Instituto Apontar passou a compartilhar a metodologia desenvolvida ao longo de sua trajetória por meio de formações, jornadas pedagógicas, cursos e consultorias destinados a escolas, redes de ensino e organizações. A iniciativa dialoga diretamente com um dos pilares da nova Política Nacional, que prevê a formação de profissionais especializados para ampliar a capacidade das escolas de identificar e desenvolver estudantes com altas habilidades.

A experiência acumulada pela organização evidencia que reconhecer esses estudantes depende não apenas de instrumentos de avaliação, mas também da preparação dos educadores para compreender as diferentes formas pelas quais o potencial pode se manifestar. Quando professores conhecem essas características, aumentam as possibilidades de construir estratégias pedagógicas capazes de estimular criatividade, pensamento crítico e aprofundamento dos conhecimentos.

Segundo o Instituto, os resultados aparecem em aprovações em escolas públicas de excelência, bolsas integrais em instituições privadas, participação em olimpíadas do conhecimento, projetos científicos e intercâmbios. Para as famílias, porém, os impactos também se refletem no fortalecimento emocional e na construção de novas perspectivas de futuro. “O Apontar não acolhe só o aluno. O Apontar acolhe a família. Eu passei a ter um lugar onde sabia que podia contar”, relatou Cecília Josefa Alves, mãe de Mariana Alves Lacerda da Silva, estudante de Engenharia Mecânica no Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ), e de Miguel Lacerda Alves, bolsista integral do Colégio Elite Tijuca.

A nova Política Nacional cria uma oportunidade para que experiências já consolidadas deixem de ser iniciativas isoladas e passem a inspirar redes de ensino em todo o país. Para gestores educacionais, o avanço das altas habilidades na educação dependerá da capacidade de transformar as diretrizes da legislação em práticas permanentes de identificação, formação docente e desenvolvimento de talentos, ampliando as oportunidades para estudantes que, por muitos anos, permaneceram invisíveis no sistema educacional.

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