Marcel Costa analisa como as transformações emocionais e cognitivas das novas gerações desafiam a escola a reconstruir presença, vínculo e condições para a aprendizagem
Poucas frases circulam hoje com tanta frequência nos corredores das escolas quanto esta: “os alunos não são mais os mesmos”.
Ela costuma aparecer acompanhada de outras percepções igualmente conhecidas. Os estudantes parecem mais dispersos, demonstram menor tolerância à frustração, têm dificuldade de manter a atenção por períodos prolongados e mostram menos engajamento em atividades que exigem esforço contínuo. Ao mesmo tempo, muitos professores carregam a sensação de que sua autoridade já não produz os mesmos efeitos de anos atrás.
Diante desse cenário, uma interpretação ganhou força: os alunos perderam o interesse e os professores perderam autoridade.
Na verdade, esse diagnóstico está incompleto.
O que estamos observando é uma transformação mais profunda. Não se trata apenas de uma mudança de comportamento, mas de uma alteração nas condições emocionais e cognitivas em que a aprendizagem acontece.
A escola continua sendo um dos espaços mais importantes de formação humana. O professor segue exercendo um papel insubstituível na construção do conhecimento. O que mudou foi o contexto em que o aluno chega para aprender.
As novas gerações cresceram em um ambiente marcado pela hiperconectividade, pelo excesso de informação, pela comparação permanente, pelos estímulos contínuos e por uma velocidade de transformação sem precedentes. Nunca foi tão fácil acessar conteúdos. Paralelamente, nunca foi tão difícil sustentar a atenção, aprofundar raciocínios e construir relações estáveis com o conhecimento.
Mas há uma camada ainda mais importante.
Muitos alunos não chegam à escola apenas distraídos. Chegam emocionalmente distantes de si mesmos. Chegam sem uma experiência interna suficientemente organizada para sustentar esforço, espera, frustração, silêncio, escuta e participação. E isso muda tudo.
A atenção não é apenas uma função cognitiva. Ela também depende de segurança emocional, previsibilidade, vínculo e sentido. Uma criança ou adolescente que não aprendeu, desde cedo, a participar de forma estável da vida ao redor, a lidar com limites, a receber atenção verdadeira, a confiar na maturidade dos adultos e a se sentir pertencente a um ambiente minimamente previsível, pode até estar fisicamente presente na sala de aula. Mas sua presença interior estará fragmentada.
É por isso que muitos comportamentos interpretados como desinteresse podem ter outra origem. Em vez de falta de motivação, podemos estar diante de alunos em estado permanente de alerta. E essa distinção é muito mais importante do que parece.
Quando um estudante vive sob pressão constante, ansiedade elevada, excesso de estímulos ou sensação de insegurança, seu cérebro passa a priorizar mecanismos de defesa. A atenção se fragmenta, a capacidade de organização diminui, a memória se torna menos eficiente e a aprendizagem deixa de fluir com naturalidade.
Em termos simples, um aluno em estado de alerta pode estar na sala de aula, olhando para o professor, ouvindo a explicação e, ainda assim, não conseguir transformar aquela experiência em conhecimento consolidado. O problema não é necessariamente falta de vontade de aprender. Muitas vezes, é dificuldade de acessar o próprio processo de aprendizagem.
Essa percepção muda a forma como interpretamos diversas situações escolares. O estudante que parece desinteressado pode estar sobrecarregado. O que aparenta preguiça pode ser exaustão. O que se manifesta como resistência pode ser insegurança. O que aparece como indisciplina pode ser, em muitos casos, uma tentativa desorganizada de pedir contorno.
Isso não significa eliminar responsabilidades nem reduzir expectativas. Ao contrário. Significa compreender com mais precisão aquilo que está acontecendo para intervir melhor.
Porque acolher não é passar a mão na cabeça. E exigir não é endurecer sem compreender.
A grande questão é que muitas escolas ainda tentam responder a uma fragmentação emocional com mais cobrança cognitiva. Mais conteúdo, mais tarefa, mais advertência, mais pressão. Às vezes, tudo isso é necessário. Mas, sozinho, não resolve. Porque um aluno internamente desorganizado não precisa apenas de mais instrução. Precisa de um ambiente que o ajude a reconstruir presença.
Talvez este seja um dos grandes desafios da educação contemporânea: antes de pedir atenção, precisamos ajudar o aluno a conseguir estar presente.
Isso exige uma mudança prática. A escola precisa desenvolver uma pedagogia da presença.
Não se trata de transformar professores em terapeutas, nem de substituir o ensino por conversas emocionais. Trata-se de organizar o ambiente escolar de forma mais inteligente, previsível e humana. Rotinas claras. Combinados consistentes. Adultos emocionalmente estáveis. Limites firmes. Escuta real. Participação ativa. Atividades com começo, meio e fim. Espaços em que o aluno entenda o que se espera dele, por que aquilo importa e como ele pode participar.
Parece simples. Mas é profundamente estruturante.
Uma escola que reconstrói presença não abandona o conteúdo. Ela cria as condições para que o conteúdo finalmente encontre o aluno.
Ao longo dos anos, a educação desenvolveu excelentes estratégias para transmitir conhecimento. O desafio contemporâneo talvez seja outro: criar condições para que esse conhecimento seja efetivamente acessado.
É nesse ponto que a discussão sobre autoridade ganha uma nova dimensão. O professor não perdeu autoridade. O que mudou foi a natureza da autoridade necessária para educar.
Durante muito tempo, a autoridade esteve fortemente associada ao domínio da informação. O professor era uma das principais fontes de conhecimento disponíveis ao estudante. Hoje, a informação está em toda parte. O que continua raro é a capacidade de organizar, interpretar, contextualizar e atribuir significado a esse enorme volume de informações.
Mais do que transmissores de conteúdo, os educadores tornaram-se referências de direção em um ambiente cada vez mais complexo. Sua autoridade nasce menos do controle e mais da capacidade de construir confiança, clareza, vínculo e segurança para que o aluno consiga aprender.
Isso não reduz a importância do professor. Ao contrário, amplia sua relevância. O educador de hoje precisa compreender que nem todo comportamento difícil é sinal de desinteresse. Sua leitura do aluno precisa ser cada vez mais precisa. Quando consegue diferenciar falta de compromisso de bloqueio emocional, suas intervenções se tornam mais eficazes. Quando cria um ambiente de previsibilidade, respeito e segurança, amplia significativamente as condições para que a aprendizagem aconteça.
Talvez a pergunta central não seja: por que os alunos não prestam atenção como antes?
Talvez a pergunta mais importante seja: em que estado emocional eles chegam para aprender?
Porque a aprendizagem não acontece apenas diante de um conteúdo. Ela acontece dentro de uma pessoa.
Paulo Freire nos ensinou que a leitura do mundo precede a leitura da palavra. Talvez um dos desafios da educação contemporânea seja compreender que, antes de acessar qualquer conteúdo, o aluno acessa a própria experiência de estar no mundo. Antes de interpretar uma explicação, uma atividade ou uma disciplina, ele interpreta a realidade que o cerca e a forma como se percebe dentro dela.
Por isso, ensinar hoje exige mais do que domínio técnico. Exige presença adulta. Exige firmeza calma. Exige a capacidade de comunicar, muitas vezes sem dizer, que existe um caminho, que existe contorno, que existe alguém conduzindo o processo.
O aluno emocionalmente fragmentado não precisa de um adulto que apenas o controle. Precisa de um adulto que o ajude a se reorganizar para poder responder.
Quando compreendemos isso, algo importante muda. O professor deixa de travar uma batalha contra a aparente desmotivação dos alunos e passa a enxergar com mais clareza aquilo que realmente precisa ser transformado.
O mundo do aluno mudou. A autoridade do educador, portanto, também precisa amadurecer.
Não para ser mais fraca. Mas para ser mais profunda.
A escola do século 21 não será fortalecida apenas com mais tecnologia, mais provas ou mais conteúdo. Ela será fortalecida quando conseguir reconstruir, todos os dias, as condições humanas da aprendizagem: presença, vínculo, segurança, limite, sentido e responsabilidade.
Porque antes de aprender melhor, muitos alunos precisam voltar a estar inteiros no lugar onde estão.
E talvez esse seja, hoje, um dos trabalhos mais nobres da educação.

Marcel Raminelli Costa é CEO da IntegralMind, professor e engenheiro formado na Poli-USP.










