Edtech criada por estudantes do Inteli e da USP aposta em tutor adaptativo para personalizar estudos e ampliar o acesso à preparação para avaliações de alta concorrência
A inteligência artificial tem ampliado sua presença na educação em diferentes frentes, desde o planejamento pedagógico até a personalização das experiências de aprendizagem. Entre as tendências que ganham espaço no setor, a aprendizagem personalizada aparece como uma das mais promissoras para responder a um desafio antigo: como respeitar os diferentes ritmos e necessidades dos estudantes em um sistema historicamente baseado em percursos padronizados.
O avanço das tecnologias educacionais tem permitido que plataformas analisem dados de desempenho, identifiquem dificuldades específicas e proponham trajetórias de estudo mais alinhadas ao perfil de cada aluno. Em vez de oferecer o mesmo conteúdo para todos, esses sistemas buscam compreender onde estão as lacunas de aprendizagem e quais estratégias podem gerar melhores resultados.
Essa lógica tem atraído atenção de investidores e empreendedores educacionais. Um exemplo é a Questly, startup criada por estudantes do Instituto de Tecnologia e Liderança (Inteli) e da Universidade de São Paulo (USP), que acaba de receber aporte de investidores-anjo e alcançar avaliação de mercado de R$ 10 milhões.
A proposta da edtech é utilizar inteligência artificial para transformar a preparação para exames de alta concorrência em uma experiência mais personalizada e flexível. Inicialmente voltada para estudantes de Medicina, a plataforma já planeja expansão para áreas como Direito e, futuramente, para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). O movimento sinaliza uma transformação mais ampla no setor educacional. Em vez de apenas digitalizar materiais tradicionais, novas soluções procuram reorganizar a própria lógica da aprendizagem, aproximando os estudos das rotinas e dos hábitos das novas gerações.
Aprendizagem personalizada ganha força com apoio da IA
O conceito central da Questly é a chamada aprendizagem invisível. A proposta consiste em aproveitar pequenos intervalos do cotidiano para criar momentos curtos de estudo, utilizando inteligência artificial para selecionar conteúdos, organizar revisões e identificar pontos que exigem reforço.
Segundo Heitor Cândido, a ideia surgiu a partir da percepção de que muitos estudantes convivem com longos períodos de espera ou deslocamento que poderiam ser convertidos em oportunidades de aprendizagem. “Percebi que é possível propor jeitos diferentes de aprender e que um momento já carregado de ansiedade, como uma prova importante, pode ter um preparo mais leve”, afirmou o cofundador da startup e estudante de Engenharia da Computação no Inteli.
A plataforma utiliza algoritmos próprios para monitorar o desempenho dos usuários e construir percursos individualizados. Em vez de oferecer apenas videoaulas e exercícios padronizados, o sistema funciona como um tutor adaptativo capaz de identificar dificuldades específicas e recomendar revisões contínuas.
A abordagem acompanha uma tendência crescente no mercado educacional. À medida que a inteligência artificial se torna mais acessível, cresce o interesse por ferramentas capazes de oferecer experiências mais personalizadas e eficientes, reduzindo a sensação de sobrecarga frequentemente associada à preparação para exames de alta exigência.

Arthur e Heitor, os estudantes fundadores da edtech (Foto: Divulgação)
Inteligência artificial amplia novas formas de estudar
A utilização de inteligência artificial para personalizar a aprendizagem também dialoga com uma preocupação crescente das instituições de ensino: a saúde mental dos estudantes. Em contextos marcados por alta competitividade, o excesso de conteúdos e a pressão por desempenho costumam impactar diretamente o bem-estar dos alunos.
Para Arthur Yoshida, a personalização pode contribuir para tornar esse processo mais sustentável. “Uma aprendizagem personalizada é mais eficiente, gera mais valor para o aluno e pesa menos na saúde mental. Para jovens em início de carreira, isso se torna fundamental para uma trajetória mais saudável como um todo”, destacou o cofundador da Questly e estudante de Medicina da USP.
O investimento recebido pela startup permitiu validar a solução junto a estudantes de Medicina. A próxima etapa prevê o desenvolvimento de uma versão voltada à preparação para a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), além da adaptação futura para candidatos ao Enem.
Outro aspecto relevante da iniciativa é o acesso gratuito à plataforma. Em um cenário em que cursos preparatórios de alta performance frequentemente exigem investimentos elevados, a proposta busca ampliar oportunidades para estudantes que tradicionalmente encontram barreiras financeiras para acessar esse tipo de suporte.
A experiência da Questly ilustra uma mudança que tende a ganhar força nos próximos anos. À medida que a inteligência artificial se consolida como ferramenta de apoio à educação, a aprendizagem personalizada deixa de ser apenas uma tendência tecnológica e passa a representar uma nova forma de pensar a relação entre estudantes, conhecimento e desenvolvimento acadêmico.










