Na Coluna Educação Global de abril, Lara Crivelaro discute por que estudantes brasileiros deixam de acessar bolsas internacionais e aponta a orientação acadêmica como chave para ampliar oportunidades
Vivemos um paradoxo educacional no Brasil. Em 2026, nunca foi tão fácil acessar a informação, mas nunca foi tão difícil transformá-la em oportunidade concreta. Em um contexto marcado pela ubiquidade da inteligência artificial, pela expansão das plataformas digitais e pela ampliação de redes globais de conhecimento, o acesso à informação deixou de ser o principal problema. O desafio contemporâneo reside na capacidade de mediação, interpretação e transformação dessa informação em trajetórias educacionais e profissionais estruturadas.
No entanto, ao observarmos os fluxos internacionais de mobilidade acadêmica, evidencia-se um fenômeno preocupante: uma parcela significativa de estudantes brasileiros, inclusive altamente qualificados, não acessa oportunidades internacionais disponíveis — muitas delas integralmente financiadas. Trata-se de um desperdício silencioso de capital humano e financeiro. Milhões de dólares em bolsas permanecem subutilizados, não por ausência de mérito, mas por ausência de orientação.
Dados de organismos multilaterais como a UNESCO e a OECD indicam que a mobilidade estudantil internacional tem crescido de forma consistente nas últimas décadas, sendo considerada um dos principais mecanismos de formação de capital humano em economias emergentes. Programas como o Erasmus+ e as iniciativas da Fundación Carolina são exemplos de políticas estruturadas para promover a circulação de talentos.
No entanto, a distribuição dessas oportunidades na América Latina é profundamente desigual. Países como a Colômbia apresentam desempenho proporcionalmente superior ao do Brasil na captação de bolsas internacionais. Ainda que as bases populacionais e educacionais sejam distintas, a diferença não pode ser explicada apenas por fatores estruturais. Há um elemento sistêmico que se destaca: a presença de políticas e práticas consolidadas de orientação acadêmica e internacionalização desde a educação básica.
Enquanto em sistemas educacionais mais organizados o estudante é introduzido precocemente às possibilidades de mobilidade acadêmica, no Brasil essa informação tende a ser fragmentada, tardia e, muitas vezes, restrita a nichos privilegiados. O resultado é a consolidação de uma forma de exclusão pouco visível, mas profundamente impactante: a exclusão por desconhecimento.
A ausência de um projeto institucional de internacionalização não é apenas uma lacuna estratégica; trata-se de um fator que restringe o horizonte de possibilidades dos estudantes. Quando a escola não apresenta caminhos, ela não apenas deixa de informar — ela delimita o imaginário.
A filósofa Martha Nussbaum argumenta que a educação deve formar cidadãos capazes de atuar em contextos globais, com empatia, pensamento crítico e consciência intercultural. Nesse sentido, a limitação do acesso a experiências internacionais não representa apenas uma perda individual, mas uma falha coletiva na formação democrática.
Essa “atrofia do horizonte” impacta diretamente a construção de projetos de vida. Estudantes que não conhecem as possibilidades internacionais tendem a restringir suas escolhas a contextos locais, não por preferência, mas por ausência de repertório. Como consequência, o país perde oportunidades de formação qualificada, inovação e circulação de conhecimento.
A resposta a esse cenário exige uma mudança de paradigma na gestão educacional. Não se trata mais de garantir acesso à informação, mas de estruturar sistemas de navegação educacional.
Nesse contexto, surge o papel do counseling como prática estratégica. Diferentemente de uma orientação pontual, o counseling envolve acompanhamento contínuo, planejamento de trajetória, desenvolvimento de competências e construção de portfólios acadêmicos alinhados às exigências internacionais.
Relatórios do World Economic Forum destacam a importância das chamadas competências do século XXI — pensamento crítico, comunicação, colaboração e criatividade — como elementos centrais para inserção em contextos globais. No entanto, tais competências não se desenvolvem de forma espontânea. Elas demandam intencionalidade pedagógica, acompanhamento e validação por meio de experiências concretas.
É nesse ponto que tecnologia e mediação humana se complementam. Plataformas capazes de mapear oportunidades globais, associadas a profissionais qualificados para orientar os estudantes, constituem um novo eixo de equidade educacional. A democratização do acesso às bolsas internacionais passa, necessariamente, pela democratização da orientação.
A internacionalização da educação básica não deve ser compreendida como um diferencial elitista, mas como uma estratégia de justiça social. Ao ampliar o acesso a oportunidades globais, a escola contribui para reduzir desigualdades estruturais e ampliar a mobilidade social.
No Brasil, essa agenda ainda é incipiente. Embora existam iniciativas relevantes no ensino superior, a ausência de políticas estruturadas na educação básica limita o alcance dessas oportunidades. A construção de uma cultura de internacionalização exige planejamento institucional, formação docente, integração curricular e, sobretudo, a criação de mecanismos permanentes de orientação acadêmica.
Diante da aceleração tecnológica e da expansão das redes globais, o papel da escola precisa ser redefinido. Não se trata mais de transmitir conteúdos — função cada vez mais assumida por sistemas automatizados —, mas de mediar trajetórias.
O educador do século XXI é, antes de tudo, um construtor de possibilidades. Sua função é ampliar horizontes, traduzir oportunidades e orientar escolhas. Nesse sentido, implementar uma cultura de internacionalização nas escolas não é apenas uma decisão estratégica, mas um compromisso ético com o futuro dos estudantes.
O Brasil não pode continuar “deixando na mesa” recursos, oportunidades e talentos. A construção de um sistema educacional mais conectado ao mundo passa, necessariamente, pela incorporação de práticas de orientação estruturada e pela valorização da internacionalização como eixo formativo.
Dar aos estudantes o mapa, a bússola e as ferramentas para navegar nesse cenário não é um luxo — é uma responsabilidade.

Doutora em Sociologia pela Unesp, Lara Crivelaro foi diretora de cursos de graduação e pós-graduação, pró-reitora, coordenadora geral de educação à distância e consultora de diversas universidades do Brasil.
Fundou a Efígie ao identificar uma lacuna na educação internacional e atualmente é CEO da empresa e também diretora-executiva do Instituto Educbank de Educação e Cultura.
Lara é avaliadora do Ministério da Educação (MEC) para credenciamento e autorização de cursos a distância e autora de cinco livros, sendo o último “A educação básica no palco internacional”.










