Neste artigo, Ana Lúcia Bresciane analisa como a restrição ao uso de celulares fortalece a aprendizagem, a convivência e a educação digital nas escolas brasileiras
Ana Lúcia Bresciane*
Qual é a função da escola em uma sociedade que disputa a atenção de crianças e adolescentes a cada segundo? Essa talvez seja a principal pergunta que emerge um ano após a entrada em vigor da Lei nº 15.100, que restringe o uso de celulares para fins não pedagógicos nas escolas.
Uma pesquisa divulgada em junho pelo Ministério da Educação (MEC), em parceria com o Inep, a Unesco e o Instituto Alana, mostra que 92% das escolas brasileiras já implementaram a legislação. No estudo, 97% dos gestores relatam aumento da participação dos estudantes nas atividades pedagógicas, 95% mencionam a melhora na concentração e da convivência presencial, além de 86% relatarem redução de sinais de ansiedade.
Os resultados confirmam algo que muitas escolas já vinham percebendo: o uso irrestrito dos celulares interfere na atenção, nas relações e na aprendizagem. Mas reduzir esse debate a uma escolha entre permitir ou proibir aparelhos é simplificá-lo. A questão não é ser a favor ou contra a tecnologia. É compreender que a escola tem uma função própria.
Vivemos em uma cultura marcada pela hiperconexão, por notificações constantes e por plataformas desenhadas para capturar nossa atenção. A escola, por outro lado, precisa garantir condições para experiências que exigem outro tempo. Tempo de observar, concentrar-se, elaborar ideias, escutar o outro, conviver com as diferenças e construir conhecimento coletivamente.
Como diretora pedagógica de uma escola em que o uso de celulares pessoais durante a rotina escolar nunca foi permitido, consigo ver na prática o que os dados do Inep estão confirmando amplamente nas escolas pelo país. Se o mundo já nos oferece conexão permanente, a escola deve preservar justamente aquilo que está se tornando mais raro, que é a possibilidade de estar verdadeiramente presente.
Os dados da pesquisa do MEC também apontam nessa direção. Mesmo com a restrição dos aparelhos, 86% das escolas mantiveram ou ampliaram o uso pedagógico de tecnologias digitais. Isso mostra que a medida não representa um afastamento da tecnologia, mas uma mudança de perspectiva. Ela deixa de ocupar automaticamente o centro da rotina escolar e passa a ser utilizada somente quando faz sentido para a aprendizagem.
Ao mesmo tempo, a pesquisa evidencia os desafios que permanecem. A maioria das escolas considera prioritário fortalecer a parceria com as famílias (67%) e investir na formação dos profissionais da educação (61%). Também é necessário ampliar as condições para desenvolver propostas consistentes de educação digital. E esse talvez seja o próximo passo. Não basta limitar o uso dos aparelhos, mas ensinar crianças e adolescentes a compreender como as tecnologias determinam comportamentos, influenciam diretamente a circulação de informações e disputam sua atenção.
Educação digital é, antes de tudo, formação para a autonomia, para a responsabilidade e para o pensamento crítico. A pesquisa mostra que restringir o uso dos celulares favorece a aprendizagem e a convivência. Mas seu principal mérito talvez seja outro, o de lembrar que a escola não existe para reproduzir a lógica da hiperconexão. Sua tarefa é oferecer às novas gerações aquilo que o ambiente digital, sozinho, não é capaz de proporcionar: presença, reflexão, encontro e experiências que ampliem sua compreensão de si, do outro e do mundo.
***Mestre em Psicologia da Educação e diretora pedagógica do **espaço ekoa










