Na Coluna InvestEdu de julho, Christian Pensa abre a caixa-preta da seleção de edtechs na Criabiz e explica por que o coinvestimento é o mecanismo central de proteção — e de retorno — para o investidor-anjo
Christian Pensa
Em abril, encerrei meu artigo com uma pergunta incômoda: você está investindo em uma edtech, ou apenas em uma narrativa bem contada? Hoje quero responder a essa pergunta pelo lado de cá da mesa — mostrando como nós, na Criabiz, filtramos o que chega até os investidores-anjo da nossa rede. E por que a resposta, quase sempre, passa por uma palavra: coinvestimento.
A responsabilidade de quem seleciona
Na Criabiz, trabalhamos com foco em alta performance na construção patrimonial. Isso impõe uma responsabilidade dupla: ser assertivo nas oportunidades em que investimos nosso próprio tempo e capital, e ser ainda mais criterioso naquilo que oferecemos para coinvestimento aos investidores-anjo da Criabiz Angels. Quem estrutura oportunidades para terceiros não pode se dar ao luxo de se apaixonar por narrativas.
Por isso, quando olhamos para cases externos à nossa carteira — startups que não germinaram no nosso venture building —, aplicamos dois filtros inegociáveis. Primeiro: só entramos em empresas mais avançadas em suas jornadas de validação e tração de receita. Segundo: sempre coinvestimos com outros fundos de venture capital liderando as rodadas. Não é conservadorismo. É engenharia de qualidade: quando um fundo especializado lidera, existe uma segunda diligência independente validando tese, preço e governança — além da nossa.
O filtro que vem antes de qualquer planilha
Aqui invoco a premissa do meu artigo de abril: avaliar edtechs exige olhar além das métricas financeiras e enxergar o impacto real na aprendizagem. E existe uma razão pragmática, quase mecânica, para isso.
Seja em redes de escolas privadas, seja em governos municipais ou estaduais, alcançar escala de escolas e alunos — e, principalmente, contratos de tamanho relevante — passa sempre pela mesma jornada: piloto, contrato, expansão de contratos. Essa esteira só anda se a solução impactar de maneira relevante o aprendizado do aluno. Sem impacto, não há engajamento de professores nem da gestão pedagógica. Sem engajamento, o piloto não vira contrato. E sem contrato, não há tese de investimento que se sustente.
Impacto pedagógico não é discurso de pitch. É a variável que destrava receita.
O que a planilha precisa mostrar
Dito isso, a planilha também fala — e precisa falar bem. Na seleção (screening) de edtechs da Criabiz, quatro critérios objetivos completam o filtro: margem bruta acima de 70%, sinal de que o modelo tem natureza escalável de software, e não de serviço disfarçado; previsibilidade de EBITDA, sustentada por receita recorrente e contratos de prazo relevante; saúde de endividamento, porque alavancagem mal estruturada consome exatamente o caixa que deveria financiar o crescimento; e relevância do produto na entrega de melhoria mensurável do aprendizado — o critério que amarra a análise financeira de volta à premissa pedagógica.
Repare que o último critério não é um item ao lado dos outros. É o que sustenta os três primeiros: sem impacto no aprendizado, a margem se corrói em desconto, o EBITDA perde previsibilidade no churn e a dívida vira problema.
E as boas ideias que ainda não têm nada disso?
Uma provocação justa a esta altura: então, com todos esses critérios, vocês não trabalham com boas ideias em estágio inicial — aquelas que ainda não constituíram margem bruta porque nem validaram precificação, que não têm qualquer previsibilidade de EBITDA e, muito menos, coinvestidores? A resposta é sim, trabalhamos. Mas por outra porta.
Essa porta é o nosso venture building, sempre ancorado em um screening diferente: o de times extraordinários — fundadores com condições reais de construir uma jornada produtiva de construção patrimonial na área de educação. Nesses casos, o que avaliamos não é a planilha, que ainda não existe. É a qualidade de quem vai construí-la.
Essas oportunidades são incubadas e germinadas dentro do venture building por um bom tempo, recebendo muitas das mais de 90 entregas que o sistema operacional Criabiz gere por meio do nosso time de especialistas — entregas de inteligência, de relacionamento, de estratégia e de conexões. Só quando a proposta de valor está validada, percebida pelo cliente de forma suficiente, é que abrimos a oportunidade: primeiro para os investidores-anjo da nossa carteira, depois para os anjos das redes parceiras e para os funis das gestoras de venture capital parceiras da Criabiz.
Em outras palavras: os critérios deste artigo não são a barreira de entrada da ideia. São a régua de saída do venture building — o ponto em que uma tese incubada se torna uma oportunidade investível para terceiros.
Coinvestir também nos tickets maiores
O mesmo raciocínio vale quando realizamos aportes maiores por meio dos nossos veículos de venture capital — veículos que, vale lembrar, recebem os aportes dos nossos próprios investidores-anjo. Nesses casos, buscamos coinvestir com fundos especializados em educação, sejam VCs puros, sejam CVCs de grandes grupos educacionais.
Esses parceiros são fundamentais em três frentes: dão continuidade à jornada de funding da edtech, aceleram o tracionamento de receita — com rede, distribuição e conhecimento setorial — e, principalmente, atraem fundos maiores ou compradores estratégicos no futuro, construindo as janelas de saída que transformam valorização no papel em retorno realizado.
E é exatamente isso que os investidores-anjo da nossa rede esperam: que a Criabiz não apenas selecione bem e acompanhe de perto a jornada das investidas, mas que construa ativamente os caminhos de exit.
Dois cases que nasceram dentro de casa
A carioca Jovens Gênios iniciou sua jornada com a Criabiz em 2019, servindo algumas dezenas de escolas. Hoje, sua plataforma de ensino adaptativo e gamificado melhora o aprendizado de mais de 2 milhões de alunos, em cerca de 6 mil escolas da rede pública. Já a sorocabana PiCode, que também nasceu no nosso venture building, conquista espaço relevante no mercado de escolas privadas, entregando criatividade e qualidade em soluções de ensino maker, robótica e pensamento computacional.
Além das entregas de inteligência e relacionamento que aceleram o desenvolvimento empresarial das investidas, a gestão de funding é parte integrante do trabalho. No caso da Jovens Gênios, a Criabiz estruturou cinco rodadas de equity e quatro operações de dívida estruturada ao longo de sete anos. Cerca de 60 investidores-anjo da nossa base participaram das cinco primeiras rodadas, em valuations que evoluíram de R$ 3 milhões a R$ 18 milhões. A maioria realizou seu exit em 2026, com retornos realizados entre 20% e 45% ao ano, conforme o momento de entrada de cada um. Os investidores que optaram por permanecer no case carregam hoje um ativo que, por análise de múltiplos de receita, já defende valuation superior a R$ 100 milhões. A estimativa interna da Criabiz para 2030 ultrapassa R$ 600 milhões, ancorada nas perspectivas de crescimento de EBITDA da companhia por meio de contratos com dezenas de municípios e governos estaduais de grande relevância.
Repare: essa história começa exatamente onde este artigo começou. Uma edtech que melhora o aprendizado de forma mensurável, validada em pilotos, expandida em contratos, financiada com disciplina e acompanhada de perto — com janelas de saída construídas, e não apenas esperadas.
A pergunta de julho
Em abril, perguntei se você estava investindo em uma edtech ou em uma narrativa. Hoje, deixo a pergunta seguinte: quando você investe sozinho, quem está validando a sua tese além de você mesmo?
Coinvestir não é dividir o risco. É multiplicar o critério.
Glossário
Jovens Gênios: Edtech carioca de ensino adaptativo e gamificado, nascida no venture building da Criabiz em 2019. Sua plataforma personaliza a jornada de aprendizagem de cada aluno com apoio de inteligência artificial e hoje atende mais de 400 mil estudantes em cerca de 4 mil escolas da rede pública. Saiba mais em Jovens Genios _e confira a _matéria sobre sua rodada de R$ 11,8 milhões liderada pelo fundo Govtech, com contratos junto à Secretaria de Educação do Estado de São Paulo.
PiCode Education: Edtech sorocabana, também nascida no venture building da Criabiz, que leva robótica, programação, cultura maker e pensamento computacional para dentro da sala de aula — com plataforma gamificada, kits didáticos, trilhas alinhadas à BNCC e formação de professores, com forte atuação no mercado de escolas privadas. Saiba mais em Leve o futuro para a sala de aula da sua escola .
Edtech: Contração de “education technology”. Startup que aplica tecnologia para resolver problemas da educação — plataformas de aprendizagem, sistemas de gestão escolar, soluções de ensino adaptativo, robótica educacional, entre outras. O termo abrange desde soluções para escolas (B2B) e governos (B2G) até produtos vendidos diretamente ao aluno ou à família (B2C).
Equity: Participação societária em uma empresa. Investir via equity significa comprar uma fatia do negócio e se tornar sócio — o retorno vem da valorização dessa participação ao longo do tempo, realizada em eventos de liquidez. É a forma clássica de investimento em startups, em contraste com instrumentos de dívida.
Funding: Termo geral para a captação de recursos que financia o crescimento de uma startup. Pode ocorrer via equity (rodadas de investimento com venda de participação), via dívida (crédito estruturado) ou de forma combinada. A gestão de funding envolve definir quanto captar, de quem, a que preço e em qual sequência — decisões que impactam diretamente a diluição dos sócios e a saúde financeira da companhia.
Coinvestimento: Estratégia em que dois ou mais investidores (anjos, fundos ou veículos) aportam juntos na mesma rodada. Para o investidor individual, significa acessar oportunidades já analisadas por gestores profissionais e dividir a diligência com quem tem mais estrutura.
Rodada liderada (lead investor): Toda rodada de investimento costuma ter um investidor líder, que negocia valuation e termos, conduz a diligência e ancora os demais participantes. Quando um fundo especializado lidera, os coinvestidores se beneficiam desse trabalho.
CVC (Corporate Venture Capital): Braço de investimento de uma grande empresa. No setor educacional, CVCs de grupos de ensino investem em edtechs buscando, além de retorno financeiro, sinergias com suas operações — o que pode acelerar distribuição e abrir portas para aquisições futuras.
Venture building: Modelo em que uma organização participa da criação e do desenvolvimento das startups desde os estágios iniciais, aportando capital, gestão, estratégia e rede de relacionamento — em vez de apenas investir em empresas já formadas.
Margem bruta: Percentual da receita que sobra após os custos diretos de entrega do produto ou serviço. Em edtechs com modelo de software, margens acima de 70% indicam escalabilidade: cada novo cliente custa pouco para ser atendido.
EBITDA: Lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização. É a medida mais usada da geração de caixa operacional de uma empresa. Previsibilidade de EBITDA — sustentada por receita recorrente e contratos longos — é um dos principais sinais de maturidade de uma startup.
Dívida estruturada: Captação de recursos via instrumentos de crédito desenhados sob medida (e não via venda de participação societária). Permite financiar o crescimento sem diluir os sócios, e costuma complementar as rodadas de equity.
Múltiplo de receita: Método de avaliação de empresas em que o valuation é estimado multiplicando a receita anual por um fator de referência do mercado, observado em transações de empresas comparáveis.
Janela de saída (exit): Momento e mecanismo pelo qual o investidor converte sua participação em dinheiro — venda para outro fundo, aquisição estratégica ou abertura de capital. Sem janela de saída, valorização é apenas número no papel.

Administrador de empresas pelo Ibmec e Univ. Illinois-Chicago com MBA em Gestão de Inovação pela Ufscar. Empresário serial e investidor-anjo, especialista em estratégia, gestão de riscos, governança corporativa, gestão de funding e negociações estratégicas. Fundador e diretor executivo do grupo Criabiz, coordenador da rede de investidores-anjos Criabiz Angels e gestor dos veículos de venture capital da Criabiz Capital.










