Skip to main content

Durante o LIV Conecta 2026, médico defendeu menos medicalização da infância, valorizou o saber pedagógico e afirmou que o cuidado depende das relações construídas na escola

A expansão dos debates sobre saúde mental nas escolas trouxe um novo desafio para gestores e educadores: compreender o sofrimento de crianças e adolescentes sem transformar toda dificuldade emocional em diagnóstico. A escuta nas escolas ganha espaço como uma prática necessária para interpretar comportamentos, fortalecer vínculos e apoiar estudantes em suas trajetórias.

Durante o LIV Conecta 2026, o médico Drauzio Varella discutiu os limites da medicalização da infância em conversa com Caio Lo Bianco, idealizador e CEO do LIV, Dia Lab e Meu Mundo. O encontro, realizado no dia 6 de agosto, no Rio de Janeiro, abordou como medicina e educação lidam com situações humanas complexas, nas quais protocolos não substituem a compreensão individual.

Para Drauzio, médicos e professores precisam considerar características específicas de cada pessoa antes de aplicar soluções padronizadas. Segundo ele, a medicina envolve ciência e também uma dimensão de arte, porque exige adaptar conhecimentos às necessidades de cada paciente.

“A gente diz que a medicina é uma ciência, é uma arte. A arte é você pegar a informação que você domina e transmitir aquela informação para a pessoa, sabendo adaptar às necessidades dela”, afirmou o médico durante a conversa.

A reflexão apresentada no evento dialoga com um dos desafios atuais das escolas: equilibrar conhecimento especializado e observação cotidiana. Para Drauzio, a relação humana permanece como elemento central quando profissionais precisam interpretar comportamentos, sofrimentos e processos de desenvolvimento.

Escuta nas escolas amplia papel da comunidade escolar

Ao abordar saúde mental infantil, Drauzio destacou a dificuldade de diferenciar manifestações comuns da vida emocional de transtornos que exigem acompanhamento especializado. Segundo o médico, situações relacionadas ao comportamento humano exigem análise cuidadosa e consideração do contexto.

“Tudo exige uma interpretação que leva a subjetividade em conta”, afirmou Drauzio ao comentar a complexidade dos diagnósticos em saúde mental. Para ele, áreas que envolvem a experiência humana apresentam desafios diferentes de campos nos quais exames determinam com maior precisão uma condição.

A discussão se aproxima de um debate crescente na educação: como acolher estudantes em sofrimento sem reduzir suas experiências a classificações. A escuta nas escolas aparece como uma ferramenta para compreender contextos antes de buscar respostas definitivas.

Caio Lo Bianco relacionou a reflexão ao cotidiano escolar e afirmou que a educação também enfrenta o risco de substituir o conhecimento pedagógico por diagnósticos. “Na educação, todos falam pelo aluno. Todos trazem algum diagnóstico para o aluno e a gente esquece de um saber fundamental, que é o saber pedagógico”, afirmou.

Foto: educador21

Cuidado depende de relações e não apenas protocolos

Drauzio defendeu que o cuidado não pode ficar concentrado em uma única pessoa ou função dentro de uma instituição. Segundo o médico, tanto na medicina quanto na educação, compreender necessidades individuais depende de uma rede de relações capaz de observar diferentes aspectos da vida de cada pessoa.

“Na verdade, nós não fazemos nada sozinhos. Nós temos que trabalhar em equipe”, afirmou Drauzio ao comparar a assistência em saúde com a dinâmica de uma escola. Para ele, a ideia de cuidado exige participação coletiva, porque diferentes profissionais contribuem para identificar sinais, compreender contextos e construir ambientes mais acolhedores.

Ao levar essa reflexão para o cotidiano escolar, o médico destacou que pessoas fora das funções tradicionalmente associadas ao ensino também exercem papel relevante. Funcionários que convivem diariamente com estudantes podem estabelecer vínculos de confiança e perceber mudanças de comportamento que nem sempre aparecem em avaliações formais.

“Às vezes, a pessoa mais importante na escola é a senhora da cantina. Todos gostam dela, todo mundo conversa com ela”, afirmou Drauzio. A observação reforça uma discussão crescente na gestão educacional: o cuidado com estudantes não depende apenas de especialistas externos, mas também da qualidade das relações construídas dentro da própria comunidade escolar.

Professores e médicos compartilham a arte de cuidar

Ao aproximar medicina e educação, Drauzio afirmou que as duas áreas compartilham uma característica essencial: a necessidade de adaptar conhecimentos às pessoas atendidas. Para o médico, aplicar uma mesma resposta para indivíduos diferentes pode ignorar necessidades específicas e limitar a compreensão sobre cada trajetória.

“O tratamento que eu faço para uma pessoa não vai servir para outra. Mesmo com a mesma doença, mesma idade e tudo igual, cada um tem suas necessidades”, explicou Drauzio ao abordar a dimensão subjetiva da medicina. Segundo ele, essa capacidade de interpretar situações individuais também está presente no trabalho dos professores.

A comparação alcançou o papel dos educadores na formação dos estudantes. Para Drauzio, alguns professores permanecem na memória das pessoas porque conseguem estabelecer relações que ultrapassam a transmissão de conteúdo e despertam novas formas de compreender o mundo.

“Quando você ensina uma coisa para uma pessoa, pode ser a coisa mais simples, você fica agradecido”, afirmou o médico ao destacar o impacto de educadores que conseguem transformar trajetórias. A reflexão apresentada no LIV Conecta 2026 aponta para uma mudança no olhar sobre saúde mental na educação: a escuta passa a ser entendida como parte do processo de cuidado, aprendizagem e desenvolvimento humano.

Para gestores educacionais, o desafio está em construir ambientes capazes de reconhecer necessidades emocionais sem reduzir experiências individuais a classificações. Diagnósticos e acompanhamento especializado continuam fundamentais, mas não substituem a observação cotidiana, o vínculo e a capacidade da escola de compreender cada estudante em sua complexidade.


Nota da Redação: As coberturas especiais do educador21 contam com o apoio da Samsung, que disponibilizou para nossa equipe o uso de tablets nas reportagens em campo. A parceria envolve exclusivamente a cessão de equipamentos, e não interfere na independência editorial do portal.

Compartilhe: