Sistemas educacionais são bem…sistemas. E para definir melhor, sistemas complexos.
Algumas características comuns nesse tipo de ambiente: múltiplos agentes interdependentes, não linearidade, características do sistema emergem sem necessidade de um agente central comandar, sensibilidade a contexto…
Isso faz com que cada uma das questões a serem resolvidas nesses sistemas demandem intervenções múltiplas
Uma abordagem que tem sido discutida é a emergência de modelos de IA que irão de alguma maneira suprir essa necessidade de adaptação. Não faria sentido portanto investir em edtechs especializadas
Eu não acredito nisso. Trabalho com edtechs faz 15 anos e, assim que IA generativa foi posta no mundo em escala, acreditava que talvez agora teríamos tecnologias que poderiam resolver questões que parecem básicas, como engajamento, compreender as necessidades específicas de estudantes…
O que temos visto não indica que isso seja um fato
E reforçou uma antiga crença que tenho: edtechs são úteis se e somente se, usadas para resolver problemas específicos e integradas em ecossistemas complementares
A conversa de hoje é com uma pessoa que tangibilizou essa visão em uma empresa: o Ecossistema Square
Ricardo Schneider é parte de um time de veteranos que investe e coopera com empresas que vão, quase literalmente, do Oiapoque ao Chuí e está pondo a prova em redes como Amapá ou Curvelo a tese de que ecossistemas de edtechs são melhores do que a contratação de múltiplas soluções isoladas
Na coluna de hoje, conhecemos um pouco mais da sua trajetória, entendemos o papel da Ciência da Educação e da Tecnologia como parte de uma busca por resolver problemas locais que vão desde alfabetização e ensino de matemática até questões de saúde mental
Adoraria ouvir qual sua visão sobre o tema: acredita que alguma IA irá algum dia ser suficiente para resolver por si só soluções sistêmicas ou servirá como motor para edtechs especializadas operando conjuntamente?
1. Conte um pouco sobre sua trajetória até aqui.
Originalmente, eu me formei como biólogo. Tive uma formação científica, mas percebi, ao longo da graduação, que não trabalharia com pesquisa científica. Acabei fazendo também a licenciatura em Biologia, mas não me via como professor em sala de aula, mesmo tendo uma cabeça muito voltada para a importância da educação desde a faculdade.
Tecnologia foi um pano de fundo. Comecei a usar computador com 13 anos de idade. Mas nunca me vi trabalhando centralmente com tecnologia. A Biologia me atraiu, na época, por causa da biotecnologia. Na faculdade, não engrenei nessa área.
Educação sempre foi algo importante para mim. Saí da faculdade achando que trabalharia com divulgação científica. Mudei para os Estados Unidos logo depois de me formar, com a intenção de fazer mestrado em jornalismo científico. Acabei aprendendo tecnologia nos Estados Unidos e voltei para o Brasil no momento em que a internet estava começando a se tornar pública, saindo da academia e chegando ao grande público.
Comecei a trabalhar muito cedo com internet e web. Voltei para o Brasil e comecei a empreender com tecnologia voltada para a internet. Abri uma empresa aqui no Brasil que era algo parecido com o WordPress 5 anos antes de o WordPress aparecer.
Fui evoluindo como empreendedor de tecnologia e, pouco a pouco, migrando para a tecnologia aplicada à educação. A educação foi uma questão de contaminação: quando o vírus te pega, você não consegue mais sair.
Então, comecei a me envolver com projetos de educação e fui acompanhando 100% da transformação tecnológica da educação, e isso me conduziu até aqui.
Minha trajetória em educação reforçou a visão de que era necessário um outro modelo no Brasil: um modelo mais leve, capaz de atender às demandas das escolas públicas e privadas e das redes públicas e privadas de educação.
Uma estrutura mais leve permitiria custos mais baixos, inovação e agilidade, com uma inovação voltada para as pessoas que estão na ponta. Foi para atender a isso que fundamos a Square.
Essa é a minha trajetória: da Biologia até a educação.
2. A Square se posiciona como ecossistema. O que fez vocês adotarem essa abordagem e o que ela significa?
Essa questão de passar de Square Knowledge Ventures para Ecossistema Square surgiu em função da visão de que a inovação é essencial para o avanço da educação pública e privada brasileira. Esse é o nosso foco, principalmente hoje, na educação pública, sem abandonar completamente a educação privada.
A visão de ecossistema ficou clara para nós como uma necessidade de entender que o atendimento às demandas da educação precisava partir das dores da realidade da rede em si, valorizando o que já está funcionando.
Era necessária uma abordagem leve e integrativa, baseada em interoperabilidade, em que não existisse um pacote fechado e rígido. Assim, poderíamos atuar naquilo que está faltando, de maneira integrada com o que já existe.
Esse foi o coração do ecossistema: um sistema aberto, sempre privilegiando soluções baseadas em dados e evidências e uma visão inovadora, focada em uma dor real da ponta. Ao mesmo tempo, entendemos que não é preciso trocar aquilo que já funciona, mas valorizar o que já está funcionando e complementar com o que falta.
Hoje, no ecossistema, estamos alinhados aos objetivos, às metas e às prioridades das Secretarias de Educação. Nós nos comprometemos com a entrega dessas metas e prioridades, sempre buscando integrar aquilo que é imprescindível e que a secretaria ainda não tem ao que ela já possui e funciona.
A ideia não é trocar tudo, nem oferecer um pacote fechado, complexo e monolítico. É ter uma visão flexível para entregar o que está faltando, de maneira integrada com o que já existe, valorizando o esforço que já foi feito. Isso faz muito mais sentido em termos de valorização dos recursos aplicados e do tempo já investido pela secretaria em ações que passaram a fazer parte da cultura da rede.
A visão é sempre trabalhar a partir de uma base que já está lá, valorizá-la ao máximo e trazer o que está faltando de maneira completamente integrada, sempre com base em dados, evidências e inteligência.
3. Quais fatores te interessam ao avaliar uma edtech?
Hoje, para entrar em uma edtech e ajudar a investir, mesmo atuando em um sistema mais amplo, a gente continua tendo um braço de investimento.
Ao avaliar uma startup com a visão de investir financeiramente nela, a primeira coisa é entender que startup é tudo sobre pessoas. É gente. Então, a primeira coisa é entender quem são as pessoas que fundaram essa startup e que cultura elas promovem.
Não existe startup como uma estrutura estática, independente das pessoas. Uma startup são as pessoas. Então, a gente olha muito para o grupo fundador e para o grupo que esses fundadores atraíram em torno deles.
Outra coisa que a gente observa é a necessidade de uma integração profunda entre a visão de negócio e a tecnologia. Em uma edtech, acreditamos que o ed vem antes do tech: a educação vem antes da tecnologia. Mas a tecnologia também é uma parte essencial.
Não acreditamos em edtechs nas quais a tecnologia é importada de fora e está fora do grupo fundador. A gente acredita em edtechs em que a tecnologia faz parte do grupo fundador, em que existe alguém nesse grupo que carrega a visão de tecnologia e inovação tecnológica.
Isso é essencial para nós: que a visão estratégica ligada à tecnologia e à inovação faça parte do grupo fundador e esteja profundamente integrada à visão de geração de valor e de negócios.
Esse é um aspecto que observamos quando vamos investir. Outro aspecto que analisamos, dentro do ecossistema expandido que temos hoje, é que o ecossistema não é formado apenas por empresas nas quais investimos. Também inclui empresas que se aproximaram de nós para fazer parte dessa visão de ecossistema, de como chegar à ponta como aliados e comprometidos com as metas prioritárias da Secretaria de Educação.
São empresas que a gente traz para o sistema, mas nas quais não necessariamente estamos investindo financeiramente. O que observamos é se elas respondem a uma dor real da gestão do ensino e se impactam, primeiro na qualidade e depois na eficiência, as entregas de aprendizagem.
Esses são os fatores que mais observamos em uma startup ou edtech, seja para investir, seja para trazer para o ecossistema sem investimento.
Outro aspecto é um pouco essa questão de [trecho a confirmar]. A gente não está olhando para edtechs isoladas, mas para edtechs que estejam dispostas a se integrar entre si, dentro do ecossistema, e também com processos e soluções que já estão rodando na gestão do ensino.
É a mesma visão mencionada na pergunta anterior: valorizar o que já está lá e trazer o que falta, sem refazer tudo. Nesse aspecto, o espírito integrativo dessas edtechs é muito relevante para nós, seja para investir, seja para trazê-las para essa visão de chegarmos à ponta de maneira integrada.
4. Qual é o papel que ciência, tecnologia e pedagogia têm no ecossistema que estão desenvolvendo?
Um princípio do ecossistema é a aprendizagem baseada em evidências. Temos que agir em cima do que sabemos, e não do que achamos.
Sem tecnologia, não é possível ter um processo de coleta de evidências em escala. A questão da educação pública brasileira é dar escala à qualidade, e não há como lidar com essa escala sem tecnologia.
Por isso, não vemos a tecnologia como um fim em si mesma, mas como uma fundação sobre a qual se estabelecem as condições para coletar evidências e utilizá-las na melhoria contínua do processo de ensino-aprendizagem.
A gente não separa pedagogia de ciência. O que acreditamos, novamente, é que temos que trabalhar em cima do que sabemos, e não do que achamos.
A ciência da aprendizagem e a pedagogia, para nós, são partes de um todo que nos permite aplicar, a partir dos dados, evidências e informações coletados continuamente, os melhores processos de aperfeiçoamento da aprendizagem que a pedagogia e a ciência da aprendizagem prescrevem para aquela situação.
Em resumo, a tecnologia é a fundação que permite coletar evidências em escala. A ciência da aprendizagem e a pedagogia definem os processos pelos quais aperfeiçoamos o ensino e a aprendizagem com base nesses dados e evidências.
5. Quais são os desafios de operar no setor público?
Hoje, um dos principais desafios de operar no setor público são os processos de contratação.
A educação acontece em um ciclo anual definido. É preciso instalar novos processos de maneira compatível e fazê-los funcionar dentro daquele ciclo. Os processos de contratação, porém, são bastante demorados.
Ao mesmo tempo, é essencial que haja transparência nos processos de aquisição pública, com total transparência e compliance. Isso resulta em processos que normalmente são bastante demorados e complexos.
Muitas vezes, startups e empresas com soluções inovadoras e ágeis têm dificuldade para lidar com a complexidade e o tempo dessa burocracia de contratação. Por isso, é importante oferecer uma camada de segurança jurídica, com expertise e assessoria jurídica, para que essas startups tenham mais força e condições de lidar com esse processo.
Ainda assim, existe um descasamento entre o ciclo anual da educação formal e o tempo dos processos de contratação. Se determinado limite for ultrapassado, perde-se a possibilidade de aplicar aquela solução naquele ano letivo ou semestre.
Então, um grande desafio é manter um processo transparente e em compliance e, ao mesmo tempo, ganhar agilidade nas contratações, especialmente de soluções inovadoras.
Acho que os processos licitatórios existentes hoje, assim como outros mecanismos de contratação por inexigibilidade para soluções únicas e inovadoras, não são ágeis. A questão é: como manter a transparência e a correção dos processos, mas ganhar agilidade?
Talvez processos nacionais de homologação de soluções que se mostrem efetivas na educação pública sejam um caminho importante para dar agilidade a essas contratações. Assim, os processos poderiam ocorrer com transparência, correção e de maneira republicana, mas em tempos compatíveis com o ciclo anual da educação formal.
Acho que esse talvez seja hoje o maior desafio: o tempo que a burocracia atual de contratação exige.
6. Qual foi uma certeza que sua trajetória empreendedora mostrou que era falsa? E o que você aprendeu com isso?
Eu acho que, hoje em dia, na trajetória empreendedora conjunta minha, do Alex, do Reinaldo e do Nogara, a gente aprendeu cedo que não é muito bom se apegar ou se apaixonar por certezas. É preciso ter convicção, mas também reconhecer que podemos estar errados.
Pegando o gancho de uma pergunta difícil, acho que talvez o maior dilema para o empreendedor, e que não tem uma resposta certa, seja o seguinte: ao mesmo tempo que ele precisa ser resiliente, como sabe que a resiliência não transbordou para a teimosia?
Como saber se deve continuar insistindo em uma direção, investindo mais tempo e energia para fazer aquilo dar certo, ou se já é hora de pivotar e ajustar o rumo?
Esse equilíbrio entre a flexibilidade de ajustar, algo que toda startup precisa ter, e a capacidade de persistir é muito difícil. É muito raro uma startup acertar em sua proposta inicial. Normalmente, as startups que dão certo vão se ajustando ao longo do caminho.
Na nossa trajetória, as coisas que deram certo sempre tiveram a ver com o fato de termos um grupo muito bom, com pessoas muito boas. Startup é, antes de tudo, sobre pessoas e sobre a capacidade delas de conduzir uma ideia ou um projeto ao sucesso. Essa trajetória pode não ser exatamente a original, e a proposta inicial pode se transformar em outra coisa.
Mas como separar a necessidade de ser resiliente e insistente do momento em que isso transborda para a teimosia? Como perceber que já era hora de desviar, pivotar ou ajustar um pouco a direção?
Esse equilíbrio é uma das coisas mais difíceis que existem. Se você desiste muito cedo ou pivota o tempo todo, acaba rodando em círculos. Mas, se é teimoso demais, pode acabar esgotando o combustível necessário para fazer aquilo dar certo.
Então, a sensibilidade para saber quando deixar de insistir, ajustar ou pivotar, e quando continuar naquela direção porque se está perto de romper uma barreira, é um dos maiores desafios de um empreendedor.
É preciso fazer com que o trabalho daquele grupo de pessoas dê certo, mesmo que o resultado não seja exatamente a proposta original.
Eu não sei se consigo separar uma certeza específica e dizer que ela se mostrou falsa. Para mim, o grande desafio do empreendedor é esse equilíbrio entre resiliência e teimosia: saber quando estou sendo resiliente e quando estou sendo teimoso.
Como decidir que, naquele momento, preciso deixar uma ideia de lado e ajustar? Ou que preciso continuar insistindo? Quando devo ajustar a tática, sem alterar a estratégia? E quando é necessário mudar a própria estratégia?
Esse balanço entre resiliência e teimosia é, para mim, o grande desafio de todo empreendedor. Ao mesmo tempo, existe outro equilíbrio: entre o otimismo positivo e a ilusão.
O empreendedor precisa ser otimista e acreditar que aquilo vai dar certo, mas não pode ser iludido. Então, para mim, são dois grandes equilíbrios: resiliência contra teimosia e otimismo contra ilusão.
O empreendedor está desbravando um caminho que não foi trilhado antes. Não existe um mapa pronto para seguir. Ele está criando o caminho e levantando informações para construir esse mapa. Por isso, não tem como ter certeza de tudo.
Essa sensibilidade para separar otimismo de ilusão e resiliência de teimosia é, para mim, o grande barato de empreender, mas também a grande agonia de empreender.
Talvez eu não esteja respondendo exatamente qual certeza se mostrou falsa. Mas, ao longo da trajetória empreendedora, é preciso o tempo todo separar as certezas que você tinha, e que talvez sejam falsas, das convicções que ainda fazem sentido.
O grande desafio é ser capaz de falsear as próprias certezas e decidir que uma convicção se mostrou falsa naquele momento e precisa ser ajustada.
Essas decisões contínuas sobre o que vai dar certo ou se mostrou equivocado estão frequentemente ligadas a esse equilíbrio: saber quando estou sendo resiliente ou teimoso, otimista ou iludido.
Tem uma frase do Ariano Suassuna que é muito marcante para mim: “O otimista é um tolo e o pessimista é um chato. Eu prefiro ser um realista esperançoso.”
Acho que esse é o equilíbrio que o empreendedor precisa alcançar. Como ele se torna um realista esperançoso?
Ele só consegue enfrentar os desafios se enxergar esses desafios, e não se fingir que não os vê. Então, o realismo esperançoso é o caminho do empreendedor.
Entender como se posicionar nesse caminho do realismo esperançoso responde um pouco àquele equilíbrio que mencionei entre resiliência e teimosia e entre otimismo e ilusão.
O caminho é o realismo esperançoso. Para mim, esse também é o desafio e o grande barato de empreender.
Edtechs
Motrix
Subtítulo: Análise curricular e de avaliações da rede com foco em recomposição baseada em evidências das aprendizagens para redes públicas
A Motrix nasceu como um venture building do próprio Ecossistema SQUARE, em 2021, e é descrita pela holding como um dos componentes centrais do ecossistema.
A operação, atualmente, concentra-se no FOCUS, voltado às redes públicas. O produto alinha o currículo da rede às matrizes relevantes, como a do SAEB e a BNCC, sugere progressão e priorização curriculares por período letivo, integra o material didático já adotado pela rede, analisa os resultados de avaliações de larga escala já aplicadas pela rede e agrupa os estudantes por níveis de aprendizagem. A partir disso, entrega planos de ação personalizados por turma para a recomposição das aprendizagens, além de relatórios gerenciais para secretários e diretores.
O desenho do FOCUS materializa a lógica descrita na entrevista: a partir do que a secretaria já tem, avaliações aplicadas, currículo aprovado e material didático adotado, a Motrix acrescenta a camada de interpretação e personalização que falta, em vez de substituir o que já está rodando.
Mobile Brain
Subtítulo: Avaliação de desenvolvimento cognitivo e bem-estar emocional por análise computacional de narrativas
Nascida como um venture build do Ecossistema SQUARE, a Mobile Brain é uma deep tech brasileira que utiliza a linguagem como biomarcador do desenvolvimento cognitivo e do bem-estar emocional. A partir de narrativas espontâneas, a plataforma analisa como os estudantes organizam o pensamento, conectam ideias, recuperam informações e constroem uma sequência coerente: processos diretamente relacionados à aprendizagem.
A avaliação ocorre por meio de um jogo de contação de histórias, dura cerca de três minutos e pode ser realizada on-line. Combinando teoria dos grafos e inteligência artificial, a tecnologia transforma a fala em indicadores objetivos do desenvolvimento cognitivo e do bem-estar emocional.
Na educação, esses indicadores permitem acompanhar o desenvolvimento dos estudantes ao longo do tempo, identificar precocemente possíveis dificuldades e oferecer a educadores e gestores informações que apoiem estratégias pedagógicas e socioemocionais mais direcionadas. Os resultados são apresentados em relatórios individuais e coletivos, permitindo análises por estudante, turma, escola ou rede de ensino.
A solução é resultado de mais de 15 anos de pesquisas em neurociência e psiquiatria computacional, com publicações científicas e mais de 20 mil avaliações realizadas. A tecnologia também foi homologada pelo InovaSUS Digital, o que reforça sua solidez científica e seu potencial de aplicação em larga escala.
É o caso mais literal da tese de que a tecnologia é a fundação que viabiliza a coleta de evidência em escala: sem análise computacional, um diagnóstico cognitivo individualizado desse tipo dependeria de avaliação clínica um a um.
Inteceleri
Subtítulo: Matemática, realidade virtual de baixo custo e cultura maker para escolas da Amazônia
Fundada em 2014 e sediada no Parque de Ciência e Tecnologia do Guamá, ligado à UFPA, em Belém, a Inteceleri organiza seu portfólio no projeto Edutech Amazon. Ele reúne o Matematicando, metodologia para aritmética básica que foi a primeira solução da empresa, o Geometricando VR para geometria, o Laboratório Móvel Maker VR, o aplicativo GeoMeta e a implantação do Google for Education nas redes atendidas.
O item mais distintivo é o MiritiBoard VR, um óculos de realidade virtual de baixo custo feito com fibra de miriti, palmeira amazônica, produzido junto a comunidades ribeirinhas de Abaetetuba, no nordeste paraense, com frentes de formação em comunidades indígenas em Oriximiná e quilombolas no Marajó. A empresa contabiliza mais de 450 mil alunos impactados em 22 municípios de cinco estados, Pará, Amapá, Ceará, Maranhão e Amazonas, e mantém escritórios em Macapá, São Paulo e Lima, no Peru.
O modelo é predominantemente B2G, com estrutura interna dividida entre frentes B2G, B2B e B2C, e ilustra bem o descompasso descrito na entrevista entre o ciclo letivo e o tempo da contratação pública.
Proesc
Subtítulo: Ecossistema de inteligências para gestão educacional, com camada consultiva, soluções fintech e atuação nos mercados público e privado.
Fundada em 2008, em Macapá, a Proesc é frequentemente citada como a primeira startup do Amapá. Nasceu como plataforma de gestão escolar com matrícula online, gestão pedagógica, acadêmica e financeira, biblioteca, ensino remoto e CRM de captação. Hoje atende mais de 3,5 mil instituições de ensino públicas e privadas no Brasil e mais 7 países.
Em março de 2023, recebeu seu primeiro aporte: R$ 8 milhões em rodada pré-série A liderada pela SQUARE, então o maior investimento já captado por uma empresa amazônica. O aporte também marcou uma virada de posicionamento. A Proesc deixou de ser apenas fornecedora de software e passou a operar como um ecossistema de inteligências para gestão educacional: às plataformas somou-se uma camada consultiva, com especialistas que acompanham indicadores, estruturam processos e apoiam a tomada de decisão de gestores escolares e secretarias de educação.
No setor público, essa atuação se organiza por meio do Proesc GOV, Plataforma de Gestão Estratégica da Educação Pública, estruturada em programas que combinam tecnologia, dados e consultoria: o Programa Mais Recursos, que atua nos indicadores que alimentam o Censo Escolar, Tempo integral, PDDE e complementações do FUNDEB para garantir que a rede busque o teto dos repasses; o Programa Escola Inclusiva, que digitaliza todo o ciclo do Atendimento Educacional Especializado, da conformidade legal à dupla matrícula no FUNDEB; e o Programa Educação com Evidência, que transforma os dados que a rede já produz em indicadores acionáveis antes do resultado do IDEB.
No mercado privado, a mudança é de tese: em vez de vender gestão, a Proesc passou a atuar diretamente no crescimento e na lucratividade das escolas. O braço financeiro, iniciado com o Proesc Bank, evoluiu para um conjunto de soluções fintech que integra open finance, crédito e agentes de inteligência artificial que conduzem a cobrança e a negociação com as famílias, combinado a uma camada de terceirização de rotinas financeiras e consultoria contínua que apoia desde a captação e retenção de alunos até a recuperação de receita e a estruturação de novas fontes de faturamento.
Árvore
Subtítulo: Plataforma de leitura e escrita gamificada
Formada pela união entre Árvore de Livros e Guten, a Árvore atende escolas públicas e privadas da educação básica com um acervo de dezenas de milhares de títulos e uma jornada organizada em quatro eixos, Ler, Sentir, Comunicar e Criar. Além do acervo, entrega dados de acompanhamento, avaliação de fluência leitora, trilha socioemocional, programa de leitura bilíngue e desenvolvimento da escrita, apoiado pelo Otto, tutor de inteligência artificial. A plataforma declara mais de 11 mil escolas atendidas e cerca de 2 milhões de alunos.
Ao longo da trajetória, a edtech captou mais de R$ 20 milhões, incluindo uma rodada de aproximadamente R$ 16 milhões em 2021. Em 2025, adquiriu A Taba, especializada em curadoria de literatura infantojuvenil, cuja fundadora assumiu posição de liderança pedagógica, e a Typper, que já vinha desenvolvendo com a Árvore a devolutiva instantânea de avaliação de leitura e o piloto de audiolivros.
O movimento de compra reforça exatamente o par que a entrevista trata como inseparável: curadoria e mediação pedagógica de um lado, capacidade de engenharia e IA do outro, dentro do mesmo grupo fundador, em vez de serem contratadas como serviço externo.
Realms (IP.TV)
Subtítulo: Plataforma de ensino presencial mediado por tecnologia para redes públicas
Empresa carioca que atua desde 2000 no ensino presencial mediado por tecnologia, modelo em que o estudante permanece na escola, com professor presencial acompanhando a turma, enquanto a aula é transmitida ao vivo por um docente de outra localidade. A operação nasceu na transmissão via satélite para redes de ensino e, ao longo do tempo, migrou para plataforma de software própria. Em 2023, a IP.TV passou a se chamar Realms, mantendo a marca original como assinatura técnica.
O caso mais conhecido está no Amazonas, onde a tecnologia sustenta aulas ao vivo para estudantes de comunidades isoladas que dependem de deslocamento por estrada ou rio para chegar à escola, com cerca de 2,5 mil salas de aula atendidas na região. Em 2020, a empresa desenvolveu e doou à Secretaria de Educação de São Paulo o aplicativo que viabilizou o Centro de Mídias SP, usado para levar aulas em tempo real a estudantes da rede estadual durante a suspensão das atividades presenciais. A companhia declara mais de 10 mil salas de aula on-line em operação, alcançando aproximadamente 9 milhões de alunos e 350 mil professores.
Em 2023, lançou o Realms Educverse, ambiente educacional imersivo em 360 graus desenvolvido em parceria com a espanhola Smile and Learn, com curadoria pedagógica própria e avaliação de especialistas do IFAM, da UFCA e da UFMA.
O ensino mediado responde a um problema que aparece na entrevista de forma indireta: em territórios com déficit docente e baixa densidade populacional, a escolha prática não se dá entre aula presencial e aula mediada, mas entre aula mediada e ausência de oferta.
Systemic Bilingual
Subtítulo: Metodologia de educação bilíngue para escolas de tempo integral
Fundada em Alagoas e no mercado desde 2002, a Systemic estruturou um programa de educação bilíngue baseado na integração entre língua e conteúdo, em que os estudantes aprendem componentes curriculares em português em um turno e revisitam os mesmos temas em inglês no outro, com carga prevista de 15 horas semanais. O desenho pressupõe jornada estendida, o que amarra o produto diretamente à agenda de tempo integral.
O modelo dispensa professores especialistas em cada disciplina e exige fluência em inglês, com a formação técnica e o acompanhamento pedagógico ficando por conta da equipe da Systemic. A empresa está presente em mais de 150 escolas privadas e vem expandindo para redes públicas em Alagoas, Minas Gerais, Paraná e São Paulo, com assessoria semanal, formação continuada e plataformas complementares.
A referência da operação pública é Pilar, em Alagoas, que implantou o programa em escolas de tempo integral em 2022. A experiência foi selecionada pelo MEC em 2025 para a Mostra Nacional de Práticas Inspiradoras, no eixo de currículo integrado, e virou objeto de estudo conduzido por Gabriela Lotta, na FGV, sobre condições de replicação do modelo em municípios com contextos distintos. A fundadora, Vanessa Tenório defende que a expansão do bilinguismo na rede pública depende menos de material didático e mais de decisão política e de condições reais de implementação.
Esse caso mostra uma solução que só funciona acoplada a uma política pública específica, o tempo integral, e mostra o esforço de produzir evidência externa sobre o próprio efeito, em vez de depender de dados coletados pelo próprio fornecedor.

O educador21 amplia sua parceria com Guilherme Cintra, colunista da Tecnologia que Humaniza, ao trazer para o portal os conteúdos do EdTech da Semana. A iniciativa realiza um mapeamento contínuo das principais tendências, tecnologias e empresas que transformam a educação no Brasil e no mundo. Todos os textos são reproduzidos do site original.










